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Nijushi no hitomiSinopse:

Hisako Oishi (Hideko Takamine) é uma jovem professora primária na ilha de Shōdoshima. Ali cria fortes laços afectivos com os seus pequenos alunos, que a vão ver como um guia. A relação dura diversos anos, nos quais Oishi testemunha o crescimento do ultra-nacionalismo japonês, o início da guerra e a derrota humilhante do seu país. Durante esse tempo, vê os alunos crescer, casa, vê o marido partir para a guerra e tem de educar os seus próprios filhos. Preocupando-se com o efeito da guerra no seu país e naqueles que ama, Oishi é por vezes mal interpretada. Para uns pacifista, para outros cobarde, para outros rebelde que tenta incutir ideias modernas nos jovens e nas mulheres, Oishi vai marcar todos os que com ela convivem, com o seu exemplo de tolerância, paz e bons valores.

Análise:

Pouco conhecido no Ocidente, Keisuke Kinoshita foi um prolífico e muito apreciado realizador no seu país, que deixou alguns dos olhares mais sentidos e apaixonados sobre a sociedade em transformação no Japão do século XX. Com uma carreira que atingiu o seu máximo fulgor entre os anos 40 e 60, um dos seus filmes mais vistos internacionalmente é “Twenty-Four Eyes”, baseado no romance de 1952 de Sakae Tsuboi.

Tendo Hideko Takamine como protagonista, “Twenty-Four Eyes” conta-nos a história da professora primária Hisako Ōishi, e a sua relação com os alunos e famílias destes na ilha de Shōdoshima (no mar interior do Japão). Ōishi surpreende a população de uma vila tradicionalmente piscatória, ao surgir com roupas modernas, pedalar uma bicicleta, e ensinar canções folk aos seus alunos da primeira classe, em vez das aborrecidas canções tradicionais. Ōishi é inicialmente olhada com suspeita, mas logo conquista aqueles doze pares de olhos que a vêem como uma luz ao fundo do túnel de escuridão que as suas vidas eram.

Com peripécias que a afastam da escola (um acidente, a suspeita de que não seja suficientemente nacionalista num Japão que se preparava para dominar o Pacífico), Ōishi vai voltar, sempre por amor àqueles que ensina, em particular as doze crianças com quem aprendeu a ensinar, e cujas vidas irá sempre acompanhar. Pelo meio Ōishi casará, terá filhos, assistirá à guerra na qual perderá o marido, e enterrará a mãe que foi sempre uma companheira.

“Twenty-Four Eyes” decorre lentamente, por uma série de elipses que nos farão dar enormes saltos no tempo, no acompanhamento de Ōishi e da sua realidade. Centrados na sua personalidade, vamos conhecendo as realidades das crianças, os seus sonhos e desilusões do crescimento, as lutas da professora para que as meninas não sejam retiradas da escola e os rapazes não vejam na guerra o seu único futuro, e em particular o seu sofrimento sempre que algo corre mal a alguma daquelas doze crianças.

Através de Ōishi testemunhamos uma voz de paz num Japão de guerra, uma luz de esperança num mundo pobre, e uma centelha de abertura num país tradicionalista. O filme lembra um pouco o neo-realismo, no seu olhar cru sobre as condições de vida reais, e nos seus longos planos, que parecem quase documentais sobre a vida campesina daquela parte do Japão.

Keisuke Kinoshita filmava já após a retirada da ocupação aliada do Japão, podendo por isso, sem censura, abordar temas incómodos. Fá-lo no entanto com um distanciamento quase poético. Usando os olhos de Ōishi, Kinoshita mostra-nos o surgir do nacionalismo japonês, o entusiasmo da guerra nos mais jovens, e a humilhação da derrota. Nada disto nos surge pelos olhos dentro, mas apenas como ecos, que chegavam à remota Shōdoshima. Um pouco como em Ozu, não são os factos o centro do drama. Este provém do modo como os personagens são afectados por eles, dando-nos assim um relato indirecto de algo que nunca vemos (sabemos de várias mortes, do nacionalismo, da guerra, da derrota, mas isso chega-nos como notícias distantes, ou memórias longínquas).

Num filme recheado de momentos de extrema emoção, seria impossível enumerá-los, fica no entanto na memória a sequência da festa final, na qual Ōishi se reúne aos seus antigos alunos, que a presenteiam com uma bicicleta, como o culminar de um crescendo emocional em que o filme inteiro se torna.

Relevante é também a banda sonora de Chuji Kinoshita, passando pelo clássico ao folk moderno e tradicional, incluindo até temas ocidentais como Auld Lang Syne (tradicionalmente um tema de despedida).

Destaque ainda para as interpretações das crianças, austeros quando o devem ser, criativos quanto baste, e nunca quebrando nos numerosos grandes planos que marcam “Twenty-Four Eyes”. Ao lado destes planos, estão sempre os planos gerais da paisagem, céu e mar, como um poema que atravessa o filme, insensível ao facto de ser de drama que a história trata. E acima de tudo brilha Hideko Takamine, a actriz que nos emociona com um simples olhar, e que em cada expressão nos mostra sentimentos tão universais que estarmos numa aldeia japonesa do meio do século XX não parece diferente de estarmos numa cidade ocidental quase cem anos depois.

“Twenty-Four Eyes” venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1955.

Produção:

Título original: Nijūshi no hitomi; Produção: Shochiku Eiga; País: Japão; Ano: 1954; Duração: 156 minutos; Estreia: 15 de Setembro de 1954 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Keisuke Kinoshita; Produção: Ryotaro Kuwata; Argumento: Keisuke Kinoshita [baseado no livro de Sakae Tsuboi]; Fotografia: Hiroshi Kusuda [preto e branco]; Montagem: Yoshi Sugihara; Figurinos: Eikichi Hayashi; Direcção Artística: Kimihiko Nakamura; Cenários: Ushitaro Shimada; Música: Chuji Kinoshita; Director de Produção: Masaharu Kokaji.

Elenco:

Hideko Takamine (Professora Hisako Ōishi), Chishū Ryū (Professor Otoko Sensei), Toshiko Kobayashi (Sanae), Shizue Natsukawa (Mãe da Professora Ōishi), Nijiko Kiyokawa (Yorozuya), Yumeji Tsukioka (Masuno), Ushio Akashi (Kocho), Chieko Naniwa (Mulher de Meshiya), Kumeko Urabe (Mulher do Professor Otoko), Hideyo Amamoto (Marido da Professora Ōishi), Toshio Takahara (Chiririn’ya), Kuniko Igawa (Matsue), Takahiro Tamura (Isokichi), Tokuji Kobayashi (Pai de Matsue), Toyo Takahashi [como Toyoko Takahashi] (Professor Kobayashi).
Classe infantil (Bunkyojo Jidai):
Hideki Goko (Isokichi Okada), Itsuo Watanabe (Takeichi Takeshita), Makoto Miyagawa (Kichiji Tokuda), Takeo Terashita (Tadashi Morioka), Kunio Sato (Nita Aizawa), Hiroko Ishii (Masuno Kagawa), Yasuko Koike (Misako Nishiguchi), Setsuko Kusano (Matsue Kawamoto), Kaoko Kase (Sanae Yamaishi), Yumiko Tanabe (Kotsuru Kabe), Ikuko Kanbara (Fujiko Kinoshita), Hiroko Uehara (Kotoe Katagiri).
Classe superior (Honko Jidai):
Hitoshi Goko (Isokichi Okada), Shirô Watanabe (Takeichi Takeshita), Jun’ichi Miyagawa (Kichiji Tokuda), Takeaki Terashita (Tadashi Morioka), Takeshi Sato (Nita Aizawa), Shisako Ishii (Masuno Kagawa), Akiko Koike (Misako Nishiguchi), Sadako Kusano (Matsue Kawamoto), Kayoko Kase (Sanae Yamaishi), Naoko Tanabe (Kotsuru Kabe), Toyoko Ozu (Fujiko Kinoshita), Masako Uehara (Kotoe Katagiri).
Outros:
Toyoko Shinohara (Misako), Mayumi Minami (Kotsuru), Kimiyo Ōtsuka (Professora Tamura), Tazuko Kusaka (Mãe de Matsue), Kazuko Motohashi (Mãe de Masuno), Rei Miura (Takeichi), Yasukuni Toida (Kichiji), Yoshikazu Ôtsuki (Tadashi), Tatsuo Shimizu (Nita), Yoshiko Nagai (Kotoe), Shosuke Oni (Kyoin), Nobuo Takagi (Kyoin), Tsutomu Uemura (Kyoin), Kayoko Terada (Kangofu), Toshiyuki Yashiro (Daikichi, Filho da Professora Ōishi), Yutaka Yashiro (Daikichi – Yonenki, Filho da Professora Ōishi), Naoji Kinoshita (Jinan – Namiki), Hisayuki Ukita (Jinan – Namiki – Yonenki), Keiko Gôko (Chojo – Yatsu).

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