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TopazPela segunda vez consecutiva, Alfred Hitchcock abordava a Guerra Fria. Agora era a vez de um romance de Leo Uris, com argumento de Samuel A. Taylor, nos colocar em plena crise dos mísseis de Cuba de 1962, no que seria o mais politizado filme da carreira do realizador. O filme, rodado em Copenhaga, Paris e nos estúdios da Universal, sofreu de problemas orçamentais, com ingerências de produção, múltiplos finais, e um elenco aquém das expectativas de Hitchcock, integrando Frederick Stafford, John Forsythe, Dany Robin, John Vernon, Karin Dor, Michel Piccoli e Philippe Noiret.

Sinopse:

Quando um alto agente do KGB (Per-Axel Arosenius) decide fugir para o Ocidente com a família, os serviços secretos dos Estados Unidos usam-no para recolher informação sobre o que se passa em Cuba. Michael Nordstrom (John Forsythe), o agente resposável, descobre que a informação a obter está em Nova Iorque, mas não podem ser usados espiões americanos. Vai então convencer o amigo, e agente secreto francês, Andre Devereaux (Frederick Stafford) a ajudá-lo. Este terá de viajar até Cuba para descobrir o que ali se passa, e entretanto fica a saber o que é a operação Topázio, e como esta envolve altos oficiais do seu país.

Análise:

Pela segunda vez consecutiva, Alfred Hitchcock dedicou um filme à Guerra Fria, período do século XX que foi campo fértil para histórias de espionagem na literatura e cinema. Partindo do livro de Leon Uris, um autor célebres pelos thrillers políticos, onde a reconstituição histórica é feita com enorme minúcia, Hitchcock concentrou-se desta vez num tema bem concreto, a crise dos mísseis em Cuba durante 1962. O autor terá sido mesmo a primeira escolha de Hitchcock para escrever o argumento, mas os dois divergiram em muitos aspectos, pelo que o escolhido seria Samuel A. Taylor, um dos autores de “Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo, 1958).

Assim, ao contrário do anterior “Cortina de Ferro” (Torn Curtain, 1966), em que o MacGuffin hitchcockiano (o objectivo dos personagens, que nunca nos é revelado, por isso não ser importante para o espectador) permanecia um pouco obscuro, e nos interessávamos mais com a história pessoal da dupla de protagonistas, que com as consequências do seu triunfo ou fracasso, em “Topázio” é o objectivo da missão que atrai a nossa atenção, não deixando de se notar uma certa politização no filme. Em momento algum ela é esquecida, e para nos situar somos constantemente recordados da situação política, com várias passagens por leituras de jornais, que tornam toda a história mais concreta. Note-se como até são usadas imagens documentais que nos mostram Fidel Castro, Che Guevara e Raul Castro no mesmo cenário que os personagens.

Tendo como pano de fundo a situação de Cuba “Topázio” trata da actividade dos serviçois secretos americanos, representados por Michael Nordstrom (John Forsythe), o qual vemos ajudar um espião soviético (Per-Axel Arosenius) a passar para o Ocidente. Após as subsequentes interrogações, decide-se que há documentos a obter em Nova Iorque, e Nordstrom recruta o espião francês Andre Devereaux (Frederick Stafford), apesar dos superiores deste aconselharem a que a França não se envolva. Devereaux acaba em Cuba, até porque tem uma situação sentimental por resolver. Aí volta a arriscar o seu trabalho de espião num jogo de gato e de rato com o oponente Rico Parra (John Vernon). O regresso com os documentos obtidos não só expõe os intentos soviéticos (acabando com a crise dos mísseis cubanos), como é um caminho para expor os agentes duplos nos serviços secretos franceses, Jacques Granville (Michel Piccoli) e Henri Jarre (Philippe Noiret).

O filme segue uma estrutura narrativa pouco comum em Hitchcock, desenrolando-se como uma sequência de pequenos episódios, ou pequenas missões. Assim começamos com a fuga dos Kusenov em Copenhaga, e só minutos depois conheceremos o personagem de John Forsythe, que os ajudará. Já nos Estados Unidos, Forsythe servirá de ponte para conhecermos o personagem de Frederick Stafford (e por ele, a sua família). Este, inicialmente, liga-nos apenas a Philippe Dubois (Roscoe Lee Browne), o agente que irá ao hotel fotografar os documentos de Luis Uribe (Donald Randolph). Stafford volta ao protagonismo na sequência cubana (entre planos de espionagem e interlúdios românticos com o personagem de Karin Dor), com alguns interregnos onde outros personagens actuam. Finalmente Stafford regressa a França, para passar o protagonismo momentaneamente quer ao genro Francois Picard (Michel Subor), quer aos agentes franceses que pretende expor.

Com tal diversidade de cenários, linhas narrativas e protagonistas, “Topázio” tem uma forma estranha, e não consegue criar empatias com o espectador. O filme, com a sua enorme sucessão de pequenas missões, geralmente decorrendo em silêncio, seguindo estratagemas elaborados, desenrola-se como uma série de televisão, e não é difícil ver nele paralelos com a então popular “Mission Impossible”. O uso de actores americanos para desempenharem cubanos e franceses com sotaques falsos, em cenários construídos sem grande rigor, são outras características que ligam filme e série. Como se não bastasse, o vilão de “Topázio”, John Vernon interpretou quatro diferentes vilões na série citada.

Para além da novidade que é a necessidade de Hitchcock colar a narrativa com factos reais, temos uma visão fria do mundo dos espiões, onde um certo maniqueísmo (os cubanos são por natureza maus, como o são os franceses traidores, ou mesmo o espião russo que colabora com os bons, mas nunca esconde a sua pretensa superioridade). Por outro lado a nível emocional tudo parece ficar por dizer. A relação de Devereux com a esposa (Dany Robin) fica em aberto, bem como a natureza da sua relação com a cubana Juanita de Cordoba (Karin Dor), que Devereux (um anti-herói amoral, sem nada que nos faça gostar dele, e que vai acumulando cadáveres por onde passa) abandona à sua sorte.

Com um argumento centrado em detalhes técnicos dos vários golpes de espionagem, são diversos os momentos de suspense hitchcockiano. Mas em “Topázio” eles são desprovidos de carga emocional, numa história em que os personagens parecem demasiado secundários, onde todos traem e ninguém merece a nossa compaixão. O que o facto de, pela primeira vez em muitos anos, Hitchcock não contar com nenhuma estrela no elenco, pode ser a razão principal, resultando num filme frio, sem chama.

O filme tem três finais diferentes, já que a Universal não se conseguia decidir por nenhum. Todos eles acabaram por parecer confusos, e exemplo de uma grande dose de improvisação (não habitual em Hitchcock) que dominou a produção. Esses finais foram surgindo dependendo do país em que o filme foi exibido.

O filme foi mal recebido por crítica e público, sendo considerado um fracasso na carreira de Hitchcock. Ainda assim o realizador ganharia um prémio do National Board of Review.

Produção:

Título original: Topaz; Produção: Universal Pictures; País: EUA; Ano: 1969; Duração: 120 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 17 de Dezembro de 1969 (Suécia), 19 de Dezembro de 1969 (EUA), 13 de Maio de 1970 (Cinema Mundial, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Produtor Associado: Herbert Coleman; Argumento: Samuel A. Taylor [baseado no livro de Leon Uris]; Música: Maurice Jarre; Fotografia: Jack Hildyard [cor por Technicolor]; Figurinos: Edith Head; Design de Produçao: Henry Bumstead; Montagem: William H. Ziegler; Director de Produção: Wallace Worsley Jr., Fred Surin (Paris); Efeitos Especiais: Albert Whitlock; Cenários: John P. Austin; Caracterização: Bud Westmore, Leonard Engelman.

Elenco:

Frederick Stafford (Andre Devereaux), John Forsythe (Michael Nordstrom), Dany Robin (Nicole Devereaux), John Vernon (Rico Parra), Karin Dor (Juanita de Cordoba), Michel Piccoli (Jacques Granville), Philippe Noiret (Henri Jarre), Claude Jade (Michele Picard), Michel Subor (Francois Picard), Per-Axel Arosenius (Boris Kusenov), Roscoe Lee Browne (Philippe Dubois), Edmon Ryan (McKittreck), Sonja Kolthoff (Mrs. Kusenov), Tina Hedström (Tamara Kusenov), John Van Dreelen (Claude Martin), Donald Randolph (Luis Uribe), Roberto Contreras (Muñoz), Carlos Rivas (Hernandez), Roger Til (Jean Chabrier), Lewis Charles (Pablo Mendoza), Sándor Szabó (Emile Redon), Anna Navarro (Carlotta Mendoza), Lew Brown (Oficial Americano), John Roper (Thomas), George Skaff (Rene d’Arcy).