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Shichinin no samuraiSinopse:

Numa aldeia agrícola do Japão do século XVI, os camponeses são constantemente assaltados por um bando de ladrões que lhes roubam todas as colheitas. Em desespero, os camponeses decidem uma última tentativa de salvação, contratar um samurai que lute por eles. Dirigindo-se à vila mais próxima, e embora sem nada para oferecer em troca, conseguem a atenção do veterano Kambei Shimada (Takashi Shimura). Este resolve tentar salvar a aldeia, decidindo que são necessários sete samurais. A ele juntam-se outros seis, entre os quais o jovem Katsushirō (Isao Kimura) e o excêntrico Kikuchiyo (Toshiro Mifune). Chegados à aldeia, os samurais têm primeiro que vencer a desconfiança dos camponeses, para depois os treinarem na defesa do que é seu.

Análise:

O reconhecido mestre japonês do género jidai-geki (filmes de época sobre a era dos samurais) Akira Kurosawa, filmava com “Os Sete Samurais” o seu primeiro filme de samurais. Com a acção a decorrer em 1587, no período Sengoku (Período dos Estados Beligerantes”), Kurosawa mostra-nos um pouco a vida do Japão rural, numa época em que os senhores da guerra dividiam o Japão, e os camponeses estavam à mercê de grupos de bandidos.

Nesse desespero, uma aldeia camponesa tem a ideia de contratar samurais sem senhor (os chamados ronin) que montem a defesa da sua aldeia. Sem muito para lhes oferecer, os camponeses apelam à honra e humanidade dos samurais, que a troco de cama e comida defendam gente humilde e honrada. Estranhamente ou não, o apelo é ouvido por alguns samurais mais românticos, liderados pelo veterano Kambei Shimada (Takashi Shimura), que reúne um grupo de sete samurais para defender a aldeia.

Seja, como Shichirōji (Daisuke Katō) por fidelidade a Kambei, ou como o jovem Katsushirō Okamoto (Isao Kimura) por querer aprender lutando ao lado de samurais experientes ou outros, ou como o imprevisível Kikuchiyo (Toshiro Mifune) que quer simplesmente ser levado a sério, o grupo dirige-se à aldeia. Ali são recebidos com desconfiança por camponeses habituados a ser maltratados por todos, como o demonstra o episódio em que Manzō (Kamatari Fujiwara) obriga a filha Shino (Keiko Tsushima) a cortar o cabelo e disfarçar-se de homem. Aos poucos os samurais ganham a confiança dos camponeses, que acabam por aceitar os sacrifícios que se adivinham (como abandonar as casas menos defensáveis) para vencer definitivamente os bandidos.

Num filme sobre coragem, sacrifício e o exemplo de deixar desconfianças e interesses individuais de lado para atingir um bem comum, Kurosawa parece estar tanto a dar uma lição universal, como a apontar caminhos para a reconstrução do Japão seu contemporâneo, no pós-guerra. Mas é sobretudo a universalidade da mensagem que tornou “Os Sete Samurais” um clássico, e o mais conhecido filme japonês de sempre no Ocidente.

O filme foi, para a época, uma enorme produção, com Kurosawa a insistir na construção de um cenário completo, em condições o mais naturais possível, recusando-se a filmar em estúdio. À qualidade do cenário, número de figurantes e coreografia cuidada, junta-se a qualidade dos actores. Estes vão desde o carismático Takashi Shimura, ao visceral Toshiro Mifune que, com o seu modo imprevisível, e gestos quase animais, é sempre o centro de atenções em cada cena em que participa, e o responsável pelo lado mais emocional da história. Exemplo é a sequência em que ele explica aos samurais o porquê da desconfiança dos camponeses, dando uma completa inversão ao estado de espirito orgulhoso dos samurais, que punham o seu código de honra acima de tudo. Exemplos também são o modo como é a ele que os camponeses recorrem, é ele quem os chama pelo nome, é ele quem as crianças seguem, e é dele a morte mais dolorosa.

Ao longo de mais de três horas (que passam num instante), Akira Kurosawa deixa-nos conhecer lentamente uma série de personagens coloridos, e tão interessantes como complexos, que estão dos dois lados da barricada, entre honra e espírito de um lado (os samurais) e humildade e necessidades materiais do outro (os camponeses). Através de uns e outros ganhamos sucessivamente novos olhares sobre dever, honra, luta por sobrevivência, ou a tradição de uma vida simples. No fundo há em Kurosawa um questionar da velha ordem, e de conceitos ultrapassados de bem e mal, que são agora muito vais difíceis de definir. Para ele é a capacidade do homem em se superar e redefinir que supera as prisões de ordens estabelecidas.

Mas “Os Sete Samurais” espantou o Ocidente, tanto pelo tratamento dos valores em causa, como pelas cenas de acção, com batalhas realistas e cuidadosamente coreografadas, duelos viscerais e uma tensão permanente num vasto ensemble de personagens, de onde nem sequer se exclui uma comovente história de amor.

Kurosawa filmou “Os Sete Samurais” ao seu modo épico, nunca esquecendo a qualidade trágica (shakespearieana) dos seus personagens (note-se o final em que embora vitoriosos sobre os bandidos, os samurais sabem que perderam mais uma batalha naquilo que representam para o povo). Uma das suas imagens de marca é o uso das condições meteorológicas, seja a sua luz plana e intensa, no momento em que o amor desponta entre Katsushirō e Shino, ou quando o céu se parece abater perante a ameaça dos bandidos. Kurosawa tem ainda sido creditado com o criar de técnicas narrativas como a de mostrar o herói numa tarefa não relacionada com o resto do filme (primeira aventura de Kambei Shimada), ou de gastar o primeiro acto a mostrar o reunir de um grupo de heróis. Hoje ambos os momentos são recorrentes em filmes de acção.

O filme tem 206 minutos, sendo o mais longo da carreira de Kurosawa. Mas a sua exibição internacional requereu cortes que o diminuíram para outros tamanhos, por vezes bem abaixo doo original. Não obstante esses cortes, “Os Sete Samurais” exerceu uma enorme influência nos realizadores ocidentais, sendo um dos filmes preferidos da Film School Generation dos anos 70 nos Estados Unidos, e estando frequentemente colocado no topo das listas de melhores filmes, votadas por toda a parte. O filme receberia vários prémios (como o Leão de Prata de Veneza) e nomeações internacionais, tendo mesmo originado o remake em jeito de western “Os Sete Magníficos” (The Magnificent Seven, 1960) de John Sturges, com Yul Brynner, Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn e Eli Wallach. Tal é uma espécie de fecho de um ciclo, já que Kurosawa terá sido inspirado pelo cinema de John Ford.

Produção:

Título original: Shichinin no samurai; Produção: Toho Company; País: Japão; Ano: 1954; Duração: 206 minutos; Distribuição: Toho Company; Estreia: 26 de Abril de 1954 (Japão), 29 de Março de 1968 (Cinema Éden, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Akira Kurosawa; Produção: Sojiro Motoki; Argumento: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni; Fotografia: Asakazu Nakai [preto e branco]; Design de Produção: Takashi Matsuyama; Música: Fumio Hayasaka; Direcção Artística: Sō Matsuyama; Caracterização: Junjirō Yamada; Montagem: Akira Kurosawa; Figurinos: Kohei Ezaki, Mieko Yamaguchi; Director de Produção: Hiroshi Nezu.

Elenco:

Toshiro Mifune (Kikuchiyo), Takashi Shimura (Kambei Shimada), Keiko Tsushima (Shino), Yukiko Shimazaki (Mulher de Rikichi), Kamatari Fujiwara (Camponês Manzō), Daisuke Katō (Shichirōji), Isao Kimura (Katsushirō), Minoru Chiaki (Heihachi), Seiji Miyaguchi (Kyūzō), Yoshio Kosugi (Camponês Mosuke), Bokuzen Hidari (Camponês Yohei), Yoshio Inaba (Gorobei Katayama), Yoshio Tsuchiya (Camponês Rikichi), Kuninori Kôdô (Ancião Gisaku).