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Sanshō dayūSinopse:

Quando o governador de Tango, Masauji Taira (Masao Shimizu), um feudo do Japão do período Heian, mostra compaixão pelos seus subalternos, é exilado pelo seu senhor feudal, tendo de se separar da mulher e filhos. Anos mais tarde a mulher, Tamaki (Kinuyo Tanaka), e os filhos Zushiō e Anju viajam para reunir com ele, mas são enganados por uma falsa sacerdotiza que vende Tamaki para prostituição, e as crianças para escravatura nas terras administradas por Sanshō (Eitarō Shindō). Ali, depois de se tornarem adultos, Anju (Kyōko Kagawa) procura convencer o irmão Zushiō (Yoshiaki Hanayagi) que mais importante que sobreviverem nas graças de Sanshō é lutarem pela liberdade, e viverem seguindo o exemplo de dignidade e compaixão mostrado pelo seu pai.

Análise:

Continuando na produtora Daiei, depois do reconhecimento obtido com “Contos da Lua Vaga” (Ugetsu monogatari, 1953), Kenji Mizoguchi continuava a rodar filmes históricos (jidai-geki) para narrar os dramas humanos que lhe eram característicos. A partir de uma história de Ōgai Mori, Mizogushi conta de novo com a colaboração de Yoshikata Yoda no argumento, para se reportar ao século XII, no final do remoto período Heian (período do Japão feudal que abarcou de 794 a 1185, e que teve a sua capital em Quioto).

Logo na introdução, Mizoguchi dá o mote, explicando tratar-se de um período selvagem em que os homens tinham ainda que aprender a ser humanos. Fica desde logo claro que Mizoguchi irá mais uma vez dedicar-se aos seus temas preferidos, a pobreza, a injustiça, a condição social dos mais desfavorecidos, e a luta por uma maior igualdade.

O período descrito por Mizoguchi é um período feudal, em que a administração de Quioto coloca os terrenos nas mãos de governadores, a quem dá carta branca, desde que cumpram com os pagamentos devidos. Nessa realidade vão distinguir-se dois modos diferentes de estar. Por um lado o governador que luta pelo seu povo, e acaba destituído, não sem antes ensinar ao seu filho o sentido da justiça e compaixão pelos mais fracos. Do outro estão homens como Sanshō (Eitarō Shindō), cruéis, prepotentes, não olhando a meios para caírem nas graças de quem lhes está acima, usando para isso o povo como escravo.

“O Intendente Sansho” conta-nos a saga da família de Masauji Taira (Masao Shimizu), um desses governadores conscienciosos que, por poupar o seu povo, incorre na ira dos seus superiores, acabando isolado. Acompanhamos, na abertura o regresso da sua esposa, Tamaki (Kinuyo Tanaka), e dos filhos ainda crianças, Zushiō (Masahiko Kato) e Anju (Keiko Enami), num momento em que tudo parece luz e esperança, como o esperado de um ansiado reencontro. Mas para desgraça da família, estes são raptados e vendidos, a mãe para prostituição na ilha de Sado, os filhos para escravos nas terras de Sanshō.

Perante a maldade de Sanshō, e a crueldade com que trata os escravos, os dois jovens pensam fugir, mas percebem que não o conseguirão em tão tenra idade, pelo que aguardam até à idade adulta. Só que em adultos, o hábito leva à resignação, e Zushiō (Yoshiaki Hanayagi) é já visto como um fiel servidor de Sanshō, desgostando mesmo a sua irmã Anju (Kyōko Kagawa). A ruptura dá-se quando uma nova escrava traz notícias sob a forma de uma canção, que parece indicar que Tamaki está viva, em Sado. Tal dá coragem aos dois jovens, e Anju convence o irmão a fugir sem ela, preferindo suicidar-se depois, para não o trair sob tortura.

Zushiō consegue chegar a Quioto e mostrar quem é. É recebido pelo Ministro da Justiça, um antigo admirador do seu pai, que lhe restitui a governação de Tango, que pertencera ao pai. Para honrar a memória do pai Zushiō, decreta a libertação de todos os escravos, mesmo nas terras privadas, como a regida por Sanshō. Um encontro entre os dois leva ao exílio de Sanshō e destruição da sua casa, ao mesmo tempo que Zushiō descobre que a irmã morrera. Cumprido o seu propósito, Zushiō abdica da governação e viaja para encontrar o pai, descobrindo que este morreu meses antes. Viaja então para procurar a mãe (reconhecendo-a pela mesma canção antes aprendida pela irmã), agora uma ex-prostituta, cega e doente.

Tal como acontecera com “A Vida de O’Haru” (Saikaku ichidai onna, 1952), Mizoguchi conta uma história trágica de queda, neste caso de uma família. Se no filme de 1952 o catalisador dessa queda fora o carácter irreverente de uma mulher que queria gozar de mais liberdade de escolha que aquela a que tinha direito no seu tempo, neste filme esse catalisador é simplesmente a bondade, e humanidade para com os outros. É ela a causa da perdição do governador, que depois originará a venda da sua mulher e filhos. Indo mais longe nas desgraças individuais, é ainda a dignidade de Tamaki, que não se resigna ao destino a que a forçam, que lhe valem mutilações físicas. Do mesmo lado é o altruísmo e bondade de Anju que lhe valem a morte. Em ambos os casos, novos exemplos de Mizoguchi de como é a mulher o elo mais fraco, e a primeira a sofrer com a injustiça humana.

Tal como em “A Vida de O’Haru”, Mizoguchi socorre-se de alguns flashbacks (mostrando a queda do governador e as suas palavras ao filho), e deixa a narrativa de Zushiō e Anju por uma vez, para nos mostrar a desgraça da mãe. Mas é com os dois jovens que o filme permanece, e através seus olhos que testemunhamos a crueldade de uma era.

Num comovente melodrama, Kenji Mizoguchi narra-nos a saga de uma família no seu confronto com a injustiça de um mundo que faz dos homens menos que seres humanos. É um retrato doloroso, filmado com um ritmo próprio, em que cada cena (sejam curtos planos, ou longos plano-sequências) conta como mais um momento de opressão, nunca nos deixando descansar da ideia de que é de maldade que o filme trata. Mas como sempre, Mizoguchi fá-lo com distanciamento, preferindo a contemplação de um plano geral à exposição sentimental de um grande plano (veja-se o modo simples, distante, e tristemente belo, como nos mostra o suicídio de Anju).

“O Intendente Sansho” foi um sucesso imediato na Europa, recebendo o Leão de Prata do Festival de Veneza, e sendo desde então considerado por muitos críticos como um dos melhores filmes de sempre, celebrado pela riqueza de cenários e elegância da fotografia.

Produção:

Título original: Sanshō dayū; Produção: Daiei Studios; País: Japão; Ano: 1954; Duração: 124 minutos; Distribuição: Kadokawa Herald Pictures; Estreia: 31 de Março de 1954 (Japão), 16 de Dezembro de 1976 (Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Kenji Mizoguchi; Produção: Masaichi Nagata; Argumento: Fuji Yahiro, Yoshikata Yoda [a partir do conto “Sanshō dayū” de Ōgai Mori]; Fotografia: Kazuo Miyagawa [filmado em]; Direcção Artística: Kisaku Ito; Música: Fumio Hayasaka, Kinshichi Kodera, Tamekichi Mochizuki; Design de Produção: Hisakazu Tsuji; Montagem: Mitsuzō Miyata; Figurinos: Shima Yoshizane [como Shima Yoshimi]; Cenários: Kosaburō Nakajima; Director de Produção: Hiroshi Ozawa; Caracterização: Masanori Kobayashi.

Elenco:

Kinuyo Tanaka (Tamaki), Yoshiaki Hanayagi (Zushiō), Kyōko Kagawa (Anju), Eitarō Shindō (Intendente Sanshō), Akitake Kōno (Tarō), Masahiko Kato (Jovem Zushio), Keiko Enami (Jovem Anju), Masao Shimizu (Masauji Taira), Ken Mitsuda (Primeiro Ministro Fujiwara), Kazukimi Okuni (Norimura), Yōko Kosono (Kohagi), Kimiko Tachibana (Namiji), Ichirō Sugai (Ministro da Justiça), Teruko Ōmi (Nakagimi), Bontarô Akemi (Kichiji), Chieko Naniwa (Ubatake), Kikue Mori (Sacerdotiza), Ryōsuke Kagawa (Ritsushi Kumotake), Kanji Koshiba (Kaikudo Naito), Shinobu Araki (Sadaya), Reiko Kongo (Shiono), Shōzō Nanbu (Masasue Taira), Ryonosuke Azuma (Senhorio), Saburō Date (Kimpei), Sumao Ishihara (Yakko), Ichirō Amano (Guarda), Yukio Horikita (Jiro), Hachiro Okuni (Saburo Miyazaki), Jun Fujikawa (Kanamaru), Akiyoshi Kikuno (Guarda), Sōji Shibata (Homem de Sado), Akira Shimizu (Mercador de Escravos), Goro Nakanishi (Guarda).

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