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Torn CurtainApós o seu maior hiato temporal entre filmes consecutivos, e o abandono de três projectos em que começou a trabalhar, Alfred Hitchcock, decidiu-se por filmar uma história inspirada pela Guerra Fria e fuga de cientistas para lá da Cortina de Ferro. Foi uma rara cedência de Hitchcock à contemporaneidade, numa história sua, desenvolvida por Brian Moore, e já sem muitos dos seus habituais colaboradores dos anos anteriores. Sob pressão da Universal, Hitchcock confiou os principais papéis a duas das maiores estrelas de Hollywood no momento, Paul Newman e Julie Andrews.

Sinopse:

Michael Armstrong (Paul Newman) é um professor de Física, a caminho de uma conferência em Copenhaga, com a sua noiva e assistente Sarah Sherman (Julie Andrews). Quando Armstrong, surpreendentemente avisa Sarah que deve desligar-se dele, pois vai para Estocolmo, esta decide seguir-lhe os movimentos. Acabam os dois em Berlim Oriental, para lá da Cortina de Ferro, onde Sarah percebe que Armstrong se vendeu ao Bloco de Leste, como vingança por o seu projecto de defesa anti-nuclear ter sido rejeitado pelo governo dos Estados Unidos. Perante a vinda indesejada de Sarah, Armstrong não tem alternativa senão contar-lhe a verdade, ele é de facto um duplo espião, em busca de segredos científicos do professor Gustav Lindt (Ludwig Donath). A partir de então as vidas de Armstrong e Sarah estarão permanentemente em perigo.

Análise:

Com “Cortina Rasgada” Alfred Hitchcock entrava na fase final da sua carreira, marcada por uma produção mais infrequente, filmes geralmente considerados de menor qualidade, e uma atmosfera transparecendo uma maior contemporaneidade, distante do classicismo dos filmes da sua fase áurea. Perdem-se também alguns temas recorrentes, como o do papel da loura fria, e o da culpa, em favor de argumentos que se liguem mais ao momento. Disso é exemplo este filme de 1966, que tem na Guerra Fria o seu tema principal, tornando-o uma história de espionagem com ligações à realidade contemporânea, e sem o escapismo quase fantasioso ou onírico habitual na obra de Hitchcock.

Também o mais assíduo uso de cenários naturais é uma característica desta fase da carreira de Hitchcock, com “Cortina Rasgada” a ser filmado em Berlim e Copenhaga, para além de localizações na Califórnia, e nos estúdios da Universal. À multiplicidade de locais juntava-se um elenco multinacional, e uma enorme diversidade de línguas. Tudo a puxar para um maior realismo, como o de nomear directamente o grande inimigo (o Bloco de Leste), quando antes Hitchcock sempre preferira deixar os “maus” sem nacionalidade reconhecida (excepção feita a alusões ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial). Pela primeira vez ainda, vemos um casal na cama num filme de Hitchcock.

O argumento trata da história de Michael Armstrong (Paul Newman), um brilhante físico americano a caminho de Copenhaga, com a noiva e assistente Sarah Sherman (Julir Andrews). Só que, sem que a noiva o saiba, Armstrong tem um plano secreto, desertar para a Alemanha Oriental. O pretexto é um desaguisado com as autoridades do seu país que não o deixavam trabalhar mais num sistema de defesa contra mísseis. Percebendo que algo de estranho se passa, Sarah segue o noivo, e já em Berlim, Armstrong põe-na ao corrente da verdade. Toda a história de deserção é um embuste, e ele pretende apenas extrair segredos a um professor de Física de Berlim, que beneficiem o programa militar norte-americano. A partir desse momento o casal percebe que a sua história começa a ter buracos, e que devem rapidamente deixar o país, iniciando-se um jogo de gato e de rato.

Assim, com uma história simples, Hitchcock começa por nos enganar, colocando-nos no ponto de vista de Sarah, levando-nos a julgar, como ela, que Armstrong é um traidor. A habitual troca de perspectiva ocorre na ida de Armstrong ao campo, e confronto com a sua sombra, Gromek (Wolfgang Kieling), na tensa cena na casa da quinta. Percebemos então os verdadeiros intentos da sua missão, e passamos a temer pela segurança do casal de protagonistas. Todo o filme, a partir daí é uma constante perseguição, campo fértil para momentos de suspense, onde a tónica é ver se o casal vai ser apanhado dessa vez, ou conseguir fugir. Os principais cenários de fuga serão uma longa viagem de autocarro, uma corrida pelas ruas de Berlim, e uma passagem por um teatro. De lembrar que o interior de um teatro é um cenário muitas vezes usado por Hitchcock para os seus momentos climáticos. Fora assim em “Assassínio” (Murder!, 1930), “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935), “Pânico nos Bastidores” (Stage Fright, 1950) e “O Homem que Sabia Demais” (The Man who Knew too Much, 1956), sem esquecer outros momentos em que os heróis têm que se esconder numa multidão, como no comício político de “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935), no baile de “Sabotagem” (Saboteur, 1942) ou no leilão de “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959).

Ainda que acusado de se colar ao sucesso dos filmes da série 007, Hitchcock dava o seu toque pessoal no olhar menos glamoroso do seu espião. Exemplo é a célebre cena da morte de Gromek, depois de um combate deselegante, demorado, atrapalhado, utilizando como armas os mais comuns utensílios de cozinha, de uma panela ao fogão, e mostrando que matar alguém deve ser sempre difícil e amargo.

Nem o argumento escapa a críticas. Geralmente muito cuidado, vê-se aqui a braços com alguns erros fulcrais (como é possível que Armstrong vá enganando as autoridades dizendo que foi visitar uma tia no campo, se eles já mostraramsaber mais sobre a sua vida e de quem o rodeia que o próprio?). Escrito por Brian Moore sob instruções do próprio realizador, o argumento inicial foi depois rejeitado, por ser considerado muito fraco. Foram então trazidos para o projecto Willis Hall e Keith Waterhouse, que o modificaram, sem estarem creditados no filme. Não se esconde um certo desequilíbrio entre algumas sequências, como aquela em que Armstrong e Lindt discutem física num quadro negro, numa discussão que não nos diz coisa nenhuma (o MacGuffin levado ao exagero?).

Um dos problemas de “Cortina Rasgada” foi a escolha dos protagonistas, impostos a Hitchcock, e com quem o realizador manteve uma relação difícil. A Universal queria por força que o filme tivesse duas estrelas como cabeças de cartaz, e foi isso que encontrou em Paul Newman e Julie Andrews (para quem queriam inclusivamente canções). O resultado foi um par de actores que, ainda que competentes nos seus papéis, não mostravam a menor química, nem a capacidade de trazer ao filme as habituais e coloridas subtilezas de Hitchcock. Estas podem ser mais facilmente encontradas nos papéis secundários, como os da Condessa Kuchinska (Lila Kedrova), do Professor Lindt (Ludwig Donath), e o já citado Gromek.

Embora com uma parte final tensa, repleta de momentos de suspense (notáveis na sequência do autocarro), e filmada com a elegância habitual de Hitchcock, “Cortina Rasgada” decepcionava por não trazer nada de novo, e foi recebido com pouco entusiasmo por público e crítica.

Produção:

Título original: Torn Curtain; Produção: Universal Pictures; País: EUA; Ano: 1966; Duração: 122 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 14 de Julho de 1966 (EUA), 7 de Novembro de 1967 (Cinema Monumental, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Brian Moore, Willis Hall [não creditado], Keith Waterhouse [não creditado]; Música e Direcção de Orquestra: John Addison; Orquestração: Edward B. Powell [não creditado]; Design de Produção: Hein Heckroth; Fotografia: John F. Warren [cor por Technicolor]; Direcção Artística: Frank Arrigo; Director de Produção: Jack Corrick; Efeitos Visuais: Albert Whitlock; Montagem: Bud Hoffman; Cenários: George Milo; Caracterização: Jack Barron; Figurinos: Edith Head, Grady Hunt.

Elenco:

Paul Newman (Professor Michael Armstrong), Julie Andrews (Sarah Sherman), Lila Kedrova (Condessa Kuchinska), Hansjörg Felmy (Heinrich Gerhard), Tamara Toumanova (Bailarina), Wolfgang Kieling (Hermann Gromek), Ludwig Donath (Professor Gustav Lindt), Günter Strack (Professor Karl Manfred), David Opatoshu (Mr. Jacobi), Gisela Fischer (Dr. Koska), Mort Mills (Agricultor), Carolyn Conwell (Mulher do Agricultor), Arthur Gould-Porter (Freddy – O Livreiro), Gloria Gorvin (Fräulein Mann).

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