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Tokyo MonogatariSinopse:

Shukichi (Chishū Ryū) e Tomi (Chieko Higashiyam) são um velho casal que vive na província, em Onomichi, com a filha mais nova, Kyōko (Kyōko Kagawa). Um dia decidem ir a Tóquio, para visitar os restantes filhos, já adultos. Lá encontram o filho Kōichi (Sō Yamamura) e a filha Shige (Haruko Sugimura) ambos casados e com filhos, e a nora Noriko (Setsuko Hara), viúva do filho do casal morto na guerra. Embora felizes com as reuniões, os dois idosos não percebem que os filhos os vêem como um empecilho nas suas rotinas. Na viagem de regresso param em Osaka para ver o filho mais novo, Keizō (Shirō Ōsaka), mas Tomi sente-se mal, e virá a morrer ao chegar a casa. Todos os filhos e a nora acorrem ao casamento, mas enquanto os filhos são rápidos a querer partir e falar de heranças, só Noriko fica para fazer companhia ao sogro Shukichi e à cunhada Kyōko.

Análise:

Em 1953 Yasujirō Ozu apresentava aquele que ficou conhecido como o terceiro e último filme da trilogia de Noriko. Depois de “Primavera Tardia” (Banshun, 1949) e de “Early Summer” (Bakushû), “Viagem a Tóquio” foi o terceiro filme com a participação de Setsuko Hara no papel de uma rapariga de nome Noriko. Embora todas as Norikos sejam personagens diferentes, há uma certa unidade entre elas, representando raparigas adultas, independentes, envergando já alguma da modernidade do Japão do pós-guerra, e com relutância em casar.

Como habitual em Ozu, no período da chamada Era Dourada do cinema japonês, o filme insere-se no género “shomingeki”, histórias familiares de gente normal, passadas num momento contemporâneo, filmadas sem artifícios.

Ao contrário do que acontece nos outros dois filmes citados, em “Viagem a Tóquio” a história não se centra em Noriko (Setsuko Hara), mas sim no idoso casal Hirayama, constituído por Shukichi (Chishū Ryū) e Tomi (Chieko Higashiyam). Estes são um casal bondoso, tolerante, orgulhoso dos seus cinco filhos, desde a filha mais nova, Kyōko (Kyōko Kagawa), que vive com eles em em Onomichi, ao filho Shōji, morto na guerra e deixando a viúva Noriko. Mas principalmente, têm saudades dos restantes filhos. O filho Kōichi (Sō Yamamura), um médico, e a filha Shige (Haruko Sugimura), dona de um salão de beleza, que vivem em Tóquio, e o filho mais novo, Keizō (Shirō Ōsaka), que vive em Osaka.

Shukichi e Tomi, acompanhados de Kyōko, viajam até Tóquio, e ficam felizes de ver os seus filhos. Só que estes vêm os pais como uma perturbação nas suas vidas de casados, e fazem todo para que estes sejam o menos intrusivos possível. O contraste com a nora Noriko é enorme, já que esta é a única que os trata com calor. Depois de uma passagem por Osaka para verem Keizō, o qual está também sem tempo, Tomi sente-se mal, e virá a morrer já em casa.

Todos os filhos acorrem ao funeral, mas a frieza continua, com o pragmatismo a sobrepor-se ao apoio ao velho pai. Apenas Noriko fica, pelo que tem o agradecimento de Shukichi e da jovem Kyōko. Noriko defende os cunhados, e rejeita ser menos egoísta, confessando não aguentar mais a solidão, pelo que é aconselhada a casar de novo pelo sogro.

Com um olhar simples sobre a vida familiar do Japão nos anos 1950, Ozu volta ao seu tema preferido desta fase da sua carreira: as mudanças trazidas pela modernidade sobre a sociedade tradicional japonesa. Se por um lado temos um casal de aldeia, que recorda com saudade o passado, e se orgulha genuinamente daquilo em que os seus filhos se tornaram, em contraste temos as vidas agitadas dos filhos, com famílias, empregos, e a correria da grande cidade, que não deixa tempo para as coisas simples. Todo o filme é um combate entre tempo e falta dele, tradição familiar e compromissos modernos.

A ponte entre os dois estados de espírito é feita por Noriko, ela com tempo e sensibilidade para os sogros, mas rejeitando ser melhor que os outros, que compreende. Na conversa final com a cunhada Kyōko, Noriko aceita que é o crescimento (por outras palavras, o mundo moderno que conquista o Japão) que transforma as pessoas, sendo inevitável que todos (ela e Kyōko incluídas) mudem para pior ao crescer. Poucas são as críticas tão radicais de Ozu ao mundo que vê substituir aquele em que cresceu.

Como que num último grito contra esse avançar da pressa e frieza dos tempos modernos, Ozu filma com a sua habitual poesia e serenidade. Ângulos baixos e planos de conjunto fixos de interiores, enquadramentos geométricos, grandes planos nos diálogos continuam a ser os ingredientes principais da sua forma de filmar. A história é para Ozu quase secundária, insinuando-se aos poucos, por entre um realismo que nos mostra a vida familiar tal como é, feita de pequenos nadas, incidentes banais, conversas de circunstância, que paulatinamente formam o todo que é o tecido familiar. Como habitual no seu estilo narrativo, Ozu salta os momentos mais dramáticos (viagens de comboio, doença de Tomi) preferindo falar deles depois.

Apesar do seu estilo lento, “Viagem a Tóquio” foi um sucesso entre o público japonês, tornando-se mais tarde apreciado no resto do mundo, onde surge constantemente em listas dos melhores filmes de sempre.

Produção:

Título original: Tōkyō monogatari [Título inglês: Tokyo Story]; Produção: Shôchiku Eigi; País: Japão; Ano: 1953; Duração: 125 minutos; Distribuição: Shôchiku Eigi; Estreia: 3 de Novembro de 1953 (Japão), 5 de Setembro de 2013 (Cinema Nimas, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Yasujirō Ozu; Produção: Takeshi Yamamoto; Argumento: Kôgo Noda, Yasujirō Ozu; Fotografia: Yûharu Atsuta [preto e branco]; Direcção Artística: Tatsuo Hamada; Montagem: Yoshiyasu Hamamura; Música: Takanobu Saito; Figurinos: Taizō Saitō; Cenários: Toshio Takahashi.

Elenco:

Chishū Ryū (Shukichi Hirayama – O pai), Setsuko Hara (Noriko Hirayama), Chieko Higashiyama (Tomi Hirayama – A mãe), Haruko Sugimura (Shige Kaneko), Sō Yamamura (Kōichi Hirayama), Kuniko Miyake (Fumiko Hirayama – Mulher de Koichi), Kyōko Kagawa (Kyōko Hirayama), Eijirō Tōno (Sanpei Numata), Nobuo Nakamura (Kurazō Kaneko – Marido de Shige), Shirō Ōsaka (Keizō Hirayama), Hisao Toake (Osamu Hattori), Teruko Nagaoka (Yone Hattori), Mutsuko Sakura (Oden-ya no onna), Toyo Takahashi (Rinka no saikun – Vizinha).

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