Etiquetas

, , , , , , , , , , ,

JigokumonSinopse:

Após a reprimida revolta de 1159 no Japão, o samurai Moritoo (Kazuo Hasegawa) é chamado à presença do imperador Nobuyori (Masao Shimizu) para ser recompensado. Moritoo pede como recompensa a mão de Kesa (Machiko Kyō), dama de companhia da irmã do imperador. Só que Moritoo não sabia que Kesa era casada com o também samurai Wataru Watanabe (Isao Yamagata). O imperador resolve dar a Moritoo a chance de confrontar Kesa, mas esta decide manter a fidelidade ao marido. Moritoo, no entanto não desiste, usando todos os expedientes ao seu dispor para procurar Kesa, afrontar Wanatabe ou até tentar obter os seus fins através de crime.

Análise:

Famoso por ser o primeiro filme japonês a cores a ser exibido no Ocidente, “Amores de Samurai” foi ainda o primeiro filme a cores dos estúdios Daiei, e é hoje o mais conhecido filme da longa obra de Teinosuke Kinugasa. Kinugasa, um antigo actor, que a partir dos anos 1920 se tornou realizador, tinha já uma carreira conceituada quando a Segunda Guerra Mundial trouxe um hiato à criatividade cinematográfica do Japão. O seu filme “Jujiro” (1928) foi mesmo o primeiro filme japonês a ter exibição comercial na Europa.

No pós-guerra Kinugasa dedicou-se sobretudo aos jidai-geki, os dramas históricos passados na era dos samurais. É disso exemplo “Amores de Samurai”, um filme que marca pelo uso da cor e ecrã panorâmico, que permite a Kinugasa compor planos de rara beleza e riqueza cromática.

Com acção a decorrer no século XII, “Amores de Samurai” tem argumento baseado numa tragédia de Kan Kikuchi, que mostra que a tradição dramática japonesa não é assim tão distante da Europeia com raízes nos clássicos gregos e em Shakespeare.

A história inicia-se com um golpe e contra golpe contra o palácio imperial, que distingue, entre outros, o samurai de baixa patente, Moritoo (Kazuo Hasegawa). Quando chamado à presença do Imperador Nobuyori (Masao Shimizu), Moritoo escolhe como recompensa a mão de Kesa (Machiko Kyō), dama de companhia da irmã do imperador, e que ele ajudara a salvar durante a rebelião falhada. Só que, para desconhecimento de Moritoo, Kesa é casada com o samurai Wataru Watanabe (Isao Yamagata). Não querendo voltar atrás no pedido, Moritoo decide tentar convencer Kesa a deixar o marido para casar com ele, não hesitando em desafiar Watanabe, sempre que pode. Embora Kesa seja firme no seu propósito de ser fiel a Watanabe, Moritoo não vai desistir, levando a sua obstinação longe demais.

Começando em cenário de guerra, Teinosuke Kinugasa mostra-nos a sua mestria em jogar com acção e tensão, com precisos planos e movimentos de câmara, cobrindo vários cenários e muitos figurantes. A forma como move a câmara e faz a decoupage de cada sequência aproxima-o do cinema americano, sendo também por isso compreensível o sucesso do seu filme no Ocidente.

Por outro lado, todo o rápido acto inicial contrasta com o restante filme, lento, e onde a guerra é simplesmente interior. É aí que sobressai a peça de Kan Kikuchi, baseada em vontades de personagens, movidos por sentimentos de honra e dever, mas admitidamente humanos e dados a fraquezas. Esse é sobretudo o caso de Moritoo, que escolhe, sem o saber, uma mulher casada, e depois não vê como recuar. Movido, quer por amor a Kesa, quer pelo orgulho que não o pode fazer admitir voltar atrás, Moritoo teima em tentar o inatingível, mesmo que para isso tenha que chegar ao crime.

Essa fraqueza poderá também ser encontrada na própria Kesa. Embora sempre fiel ao esposo que não pretende deixar, sente-se incomodada pela intenção de Moritoo. Será esse incómodo apenas externo, ou devido ao facto de Kesa gostar de se sentir desejada por outro? Explicará isso o seu sacrifício (como uma pena que se auto-inflige para expiar a culpa de gostar da atenção de Moritoo), ou é ele um sincero acto altruísta para proteger o esposo da loucura do inusitado pretendente?

É o próprio Watanabe quem parece sugerir a primeira hipótese. Ele que se comportara sempre com cavalheirismo, e confiara a toda a prova na fidelidade de Kesa, só se vem a sentir traído pela morte desta, porque não compreende porque ela não lhe pediu ajuda.

Curioso é ainda o triplo sacrifício a que este triângulo. Kesa aceita morrer no lugar do marido, para o poupar (ou quererá de facto poupar Moritoo?), expiando assim a culpa de ter permitido a sedução de Moritoo. Wanatabe nega-se a matar Moritoo, para que a sua pena não termine ali (mas referir-se-á à pena de Moritoo ou à sua própria?). Por fim, Moritoo não concebe maior pena que saber que matou a amada. Por ela dispõe-se a uma vida de humilhação e penitência sem fim.

Tragédia sem possibilidade de redenção, proveniente da hubris do protagonista, coloca “Amores de Samurai” próximo da tragédia clássica europeia. Também isso ajuda a fazer de Teinosuke Kinugasa um dos realizadores japoneses mais ocidentalizados do seu tempo.

“Amores de Samurai” recebeu Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1954, e receberia ainda no mesmo ano dois Oscars: Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Guarda-roupa de Filme a Cores, bem como prémios de melhor filme do New York Film Critics Circle e do Festival de Locarno.

Produção:

Título original: Jigokumon [Título inglês: Gate of Hell]; Produção: Daiei Studios; País: Japão; Ano: 1953; Duração: 88 minutos; Distribuição: Daiei Motion Picture Company; Estreia: 31 de Outubro de 1953 (Japão), 13 de Dezembro de 1955 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Teinosuke Kinugasa; Produção: Masaichi Nagata; Argumento: Teinosuke Kinugasa, Masaichi Nagata [baseado na peça “Kesa’s Husband” de Kan Kikuchi]; Fotografia: Kôhei Sugiyama [cor por Eastmancolor]; Design de Produção: Hiroshi Ozawa; Montagem: Shigeo Nishida; Figurinos: Shima Yoshizane; Direcção Artística: Kisaku Ito; Cenários: Kosaburô Nakajima; Música: Yasushi Akutagawa; Caracterização: Toshikazu Noguchi; Director de Produção: Tomeo Adachi.

Elenco:

Kazuo Hasegawa (Moritoo Endo), Machiko Kyō (Kesa), Isao Yamagata (Wataru Watanabe), Yatarō Kurokawa (Shigemori), Kōtarō Bandō (Rokuro), Jun Tazaki (Kogenta), Koreya Senda (Gen Kiyomori), Masao Shimizu (Nobuyori), Tatsuya Ishiguro (Yachûta), Kenjirō Uemura (Masanaka), Gen Shimizu (Saburôsuke), Michiko Araki (Mano), Yoshie Minami (Tone), Kikue Mōri (Sawa), Ryōsuke Kagawa (Yasutada), Kunitarō Sawamura (Moritada), Ryôsuke Kagawa (Yasutada).

Anúncios