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MarnieUm ano depois de “Os Pássaros”, Alfred Hitchcock voltava a filmar Tippi Hedren, desta vez num papel para o qual tentara o regresso de Grace Kelly. Com argumento de Jay Presson Allen, baseado num livro de Winston Graham, Hitchcock voltava à psicanálise, numa história que misturava crime com sexualidade reprimida. O filme foi o fecho da era dourada de Hitchcock, e a sua última colaboração com o compositor Bernard Herrmann, o director de fotografia Robert Burks e o responsável de montagem George Tomasini. Para além de Tippi Hedren, Hitchcock contou ainda com as participações de Sean Connery, Diane Baker e Louise Latham.

Sinopse:

Marnie Edgar (Tippi Hedren) é uma ladra, que vai mudando de nome e saltando de emprego em emprego, desaparecendo depois de conseguir roubar o cofre dos locais onde trabalha. Quando se candidata ao emprego de secretária na firma Rutland’s, Marnie é reconhecida pelo dono, Mark Rutland (Sean Connery), que lhe oferece o lugar, na esperança de lhe compreender a motivação. Quando Marnie volta a roubar, Mark confronta-a com o roubo, mostrando saber tudo a seu respeito. Só que em vez de a denunciar, Mark tem um objectivo diferente, casar com ela. Quem acha isto estranho é a irmã da falecida primeira mulher de Mark, e actual pretendente a desposá-lo, Lil (Diane Baker).

Análise:

Em 1964 Alfred Hitchcock estreava “Marnie”, um filme que tem um pouco um sabor de fecho de ciclo. Não só a era dourada de Hollywood tinha já desapareceido, sendo Hitchcock um dos poucos resistentes (um pouco como Chaplin, outro inglês em Hollywood, o fora em relação ao fim do mudo), como o filme marca uma série de fechos. “Marnie” foi a sétima e última colaboração de Hitchcock com o célebre compositor Bernard Herrmann, a última vez que contou com o seu habitual director de fotografia, Robert Burks (num total de doze filmes conjuntos), e o último filme com o seu montador, George Tomasini, que morreria no ano seguinte. É por fim o último filme de Hitchcock com uma loura fria no centro da história.

“Marnie” teve um parto difícil, já que o primeiro argumento, baseado no romance de Winston Graham (que disse mais tarde que se soubesse que tinha tido os direitos comprados por Hitchcock, lho teria oferecido gratuitamente), foi escrito por Joe Stephano, partindo do princípio de que a actriz principal seria Grace Kelly. Hitchcock planeava o regresso de Kelly ao ecrã, mas quando a notícia se tornou pública, o povo do Mónaco protestou, abortando desde logo a possibilidade. Outro entrave era o contrato da princesa com a MGM que explicitava que Grace Kelly não podia voltar a filmar para outra produtora até fazer um último filme para aquela companhia.

Rumores dizem que actrizes como Eva Marie Saint, Lee Remick, Vera Miles, Claire Griswold e Susan Hampshire foram consideradas para o papel principal, mas a escolhida acabou por ser Tippi Hedren, que brilhara no recente “Os Pássaros” (The Birds, 1963). Pela mesma ordem de ideias, o argumentista do mesmo filme, Evan Hunter, foi encarregado de escrever um novo argumento. Só que Hunter discordou de Hitchcock em cenas essenciais, e o realizador despediu-o, dando o trabalho a Jay Presson Allen, que trabalhou em harmonia com as instruções do mestre inglês.

Para o papel masculino foram pensados e/ou contactados actores como Peter O’Toole, Rock Hudon e Paul Newman, mas a escolha acabou por recair em Sean Connery, após Hitchcock assistir a uma preview do primeiro filme da série 007, “007 – Agente Secreto” (Dr. No, 1962).

Tematicamente “Marnie” funciona um pouco como o sucessor de “A Casa Encantada” (Spellbound, 1945), com Hitchcock a mergulhar de novo no reino da psicanálise e dos segredos que a mente humana esconde de si própria. Mas como estávamos já a meio dos anos 60, com a revolução sexual que se vivia, e o assalto de novos temas ao cinema americano, Hitchcock provoca o seu público ao tornar a questão do sexo o tema principal do seu filme.

Tal como no filme de 1945, há em “Marnie” sempre uma ligação entre realidade e estado onírico, sugerido pelos pesadelos da protagonista, pelo quase fantasmagótico flashback final, e pelas lengalengas infantis cantadas em dois momentos do filme, que quase indicam a solução do mistério.

Nele, Marnie (Tippi Hedren) é uma ladra e mentirosa compulsiva, que vai mudando de emprego, visual e identidade sempre que consegue um assalto ao cofre dos escritórios em que trabalha. Só que um dia é reconhecida por Mark Rutland (Sean Connery), um milionário que decide contratá-la só para ver o que acontece. No processo Mark apaixona-se por Marnie, e quando confrontado com a realidade de novo roubo, Mark usa essa vantagem para desposar Marnie, ao invés de a denunciar. É então que Mark percebe que Marnie sofre de problemas psicológicos que não a deixam aceitar uma relação física, e por isso a afastam do mundo, numa fuga para a frente de consequências decididamente trágicas. Alheio a todos os conselhos externos (principalmente da cunhada – irmã da sua defunta esposa, e enamorada dele – Lil Mainwaring, interpretada por Diane Baker). Mark acredita que a explicação para as fobias (cor vermelha, trovoadas, pancadas nas janelas) e pesadelos de Marnie possa estar no passado, e que a solução esteja com a mãe dela (Louise Latham), permanecendo ao lado da esposa até que tudo possa ser esclarecido.

“Marnie” é por isso, ainda que disfarçado de thriller criminal sobre os sucessivos golpes da protagonista, um filme cujo tema essencial é a frigidez da personagem de Tippi Hedren, e a sua incapacidade de se relacionar com o género masculino, aqui representado pela figura do seu marido, interpretado pelo carismático galã Sean Connery. O sexo está presente quer explicita, quer subliminarmente durante grande parte do filme, e é ele afinal (na história da prostituição, e abuso de menores) a chave do solução.

Há ainda muito de “Vertigo” (1958) em “Marnie”. Temos a obsessão do personagem masculino, ou fetichismo, já que o próprio Hitchcock via Mark Rutland como tendo um fetiche por ladras. Lembre-se como roubo e sedução tinham sido já sinónimos em “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief, 1955). Temos também a frieza (frigidez) e distância do personagem feminino, como se nota no modo como Marnie se veste, penteia e comporta, fazendo recordar a Madeleine do filme de 1958. Tal é amplificado pela banda sonora de Bernard Herrmann, imponente e dramática, a espaços evocativa de “Vertigo”. Não esquecer a primeira cena de paixão entre Mark e Marnie ocorre num estábulo, tal como fora a última de Scottie e Madeleine em “Vertigo”, a tentativa de suicídio na água, as mudanças de cor de cabelo ou o “vertigo effect” do flashback.

Apesar de ser mais um passo em frente na provocação do seu público, “Marnie” foi visto pela crítica como um filme menor. Hitchcock tratava subtilmente um tema que outros autores já começavam a encarar de frente. Por outro lado a nível de efeitos especiais o filme parecia pouco arrojado, com várias cenas a não disfarçarem o uso de transparências e cenários pintados como, por exemplo, as cenas a cavalo a serem filmadas em estúdio (sobre tapetes rolantes), porque Hitchcock era avesso a exteriores. Como se não bastasse, o próprio tema, bem como o facto de o personagem de Sean Connery se impor ao de Tippi Hedren, praticamente chantangeando-a para que casasse com ele, e mais tarde sugerindo-se uma violação, caiu mal em parte do público, que não conseguiu um ponto de identificação com nenhum dos personagens.

Ainda assim, o filme foi um sucesso moderado nas bilheteiras, tendo o seu prestígio crescido com o tempo. O filme é hoje visto como talvez o último clássico do mestre inglês, servido por interpretações irrepreensíveis, sobretudo dos dois protagonistas. Tippi Hedren considerou-o mesmo o melhor filme de quantos fez, e Sean Connery viu-o como uma refrescante mudança em relação aos papéis tipo a que ficou associado desde que se tornou o famoso James Bond. Diane Baker e Louise Latham têm também interpretações convincentes, esta como mais uma das mães dominantes de Hitchcock.

Como curiosidade note-se o curto papel de Bruce Dern, que mais tarde protagonizaria o último filme de Hitchcock, “Intriga em Família” (Family Plot, 1976).

Produção:

Título original: Marnie; Produção: Alfred J. Hitchcock Productions; País: EUA; Ano: 1964; Duração: 125 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 9 de Julho de 1964 (Reino Unido), 22 de Julho de 1964 (EUA), 13 de Janeiro de 1967 (Cinemas S. Luiz e Alvalade, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Jay Presson Allen [baseado no livro de Winston Graham]; Música: Bernard Herrmann; Fotografia: Robert Burks [cor por Technicolor]; Design de Produção: Robert F. Boyle; Director de Produção: Hilton A. Green; Figurinos: Edith Head; Montagem: George Tomasini; Efeitos Especiais: Abert Whitlock; Caracterização: Jack Barron, Howard Smit, Robert Dawn; Cenários: George Milo; Guarda-roupa: Vincent Dee.

Elenco:

Tippi Hedren (Marnie Edgar), Sean Connery (Mark Rutland), Diane Baker (Lil Mainwaring), Martin Gabel (Sidney Strutt), Louise Latham (Bernice Edgar), Bob Sweeney (Primo Bob), Milton Selzer (Homem na Pista de Cavalos), Alan Napier (Mr. Rutland), Henry Beckman (Primeiro Detective), Edith Evanson (Rita – Mulher da Limpeza), Mariette Hartley (Susan Clabon), Bruce Dern (Marinheiro), S. John Launer (Sam Ward), Meg Wyllie (Mrs. Turpin).

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