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Saikaku ichidai onnaSinopse:

Oharu (Kinuyo Tanaka) é uma prostituta de 50 anos, que já não atrai cientes. Refugiando-se num templo após mais uma noite vã, Oharu relembra a sua vida. Tendo sido dama de companhia na corte imperial, Oharu deitou tudo a perder ao apaixonar-se por um homem de classe inferior. Exilada com os pais, estes obrigaram-na a aceitar ser concubina de um daimyo local, que a expulsou depois de ela lhe ter dado um filho. Seguiu-se a sua venda a uma casa de cortesãs para pagar as dívidas do pai, um casamento trágico com a morte prematura do marido, e a queda na prostituição.

Análise:

Considerado um realizador de histórias de mulheres, Kenji Mizoguchi tem em “A Vida de O’Haru” um dos seus projectos mais dramáticos. Com argumento do próprio Mizoguchi e do seu habitual colaborador Yoshikata Yoda, o filme baseia-se numa obra do poeta e romancista Ihara Saikaku, retirando-lhe a componente satírica e reforçando a trágica. A acção decorre no período Edo, momento da história do Japão, que vai de 1603 a 1868, marcado pelo governo dos xoguns da família Tokugawa, e em que o país estava dividido por cerca de 300 daimyos feudais).

Tendo como principal tema a condição feminina, “A Vida de O’Haru” conta a história de uma mulher (Kinuyo Tanaka), que vemos com 50 anos, prostituta sem sucesso. Ao entrar num templo, imagina uma cara conhecida num ídolo, e vemos, em flashback a história da sua queda desde que foi uma dama de companhia na corte imperial.

É exactamente essa cara que Oharu relembra, Katsunosuke (Toshiro Mifune), que a tentou em jovem, a seduziu, e levou a cair em desgraça, pois era um homem de condição abaixo da sua. Oharu e os pais (Tsukie Matsuura e Ichirō Sugai) foram expulsos da corte, o que a levou a ser sempre desprezada pelo pai, que via nela apenas uma oportunidade de lucro. Este surgiu quando o daimyo local, Lord Matsudaira (Toshiaki Konoe), procurava uma concubina que lhe desse um filho. Só que após o nascimento, o daimyo expulsou Oharu, que voltou para casa de um pai endividado a contar com recompensas principescas. Oharu foi então sucessivamente vendida a uma casa de cortesãs, adoptada por uma família que a maltratou depois de descobrir de onde vinha, e finalmente casada com um homem humilde (Jūkichi Uno), mas que morreu assassinado deixando-a sem herança e acossada por cobradores que exigiam pagamento por dívidas não contraídas. Depois de uma tentativa falhada de se tornar freira, Oharu resignou-se a prostituir-se.

A acção volta ao dia presente depois de vermos nova humilhação, quando Oharu é levada para ser exibida perante peregrinos como uma imagem do mal. Como se não bastasse, Oharu é chamada à corte do novo daimyo, o seu filho, que apenas a quer exilar por vergonha dela.

Num contínuo desenrolar de tragédias que tornam a vida de Oharu cada vez mais insuportável, Mizoguchi mostra-nos uma mulher que é, sobretudo, vítima do seu tempo e de decisões pouco sensatas, já que prefere seguir o coração e os seus impulsos, algo tremendamente proibido nos seus dias.

É assim que Oharu cai em desgraça por amor de Katsunosuke; que incorre na ira de Lord Matsudaira porque quer cuidar do seu proprio filho; que é expulsa da casa de cortesãs por não aceitar a humilhação de um cliente; que tem de deixar a família que a acolhe por se vingar da senhora que tinha ciúmes dela; que não é aceite no templo, porque por orgulho se despira perante um cobrador.

As situações sucedem-se, e todas nos mostram uma verdade simples, Oharu é mulher, e portanto está em situação fragilizada onde tudo pode ser usado contra si, e servir de desculpa para que seja condicionada, usada, humilhada, vendida, abandonada, e ainda por cima sempre julgada. O grande pecado de Oharu é desobedecer sempre à ordem estabelecida e aceite como sagrada. O filme é por isso um frontal ataque à discriminação sexual e sociedade patriarcal, onde as mulheres tinham poucos ou nenhuns direitos, sendo objectificadas como propriedade, fonte de lucro, trabalho ou desejo sexual.

Mizoguchi considerou sempre este filme como um dos seus preferidos e mais pessoais. Tal não é de estranhar quando, na sua infância, o realizador testemunhou a venda da irmã como geisha e a morte da mãe, por incapacidade familiar para a sustentar. Os temas da condição feminina, a exploração da mulher pela sociedade patriarcal, e mesmo a prostituição são por isso temas sempre presentes na obra de Mizoguchi, como este “A Vida de O’Haru” é um pungente exemplo.

Filmado a preto e branco, como quase todos os seus filmes, “A Vida de O’Haru” carrega as habituais marcas do realizador, dos seus longos e elegantes planos-sequência, ao afastamento propositado, num pudor pelas emoções que o leva a evitar dramatismo causado por grandes planos em momentos cruciais. Com isso Mizoguchi consegue em simultâneo transmitir-nos toda a dor da sua personagem, mantendo um discreta distância contemplativa.

“A Vida de O’Haru” foi distinguido em Veneza, um ano depois de Akira Kurosawa ter vencido o Leão de Ouro com “Às Portas do Inferno” (Rashomon, 1950). Depois de completado com vários cortes financeiros, o filme granjeou a Mizoguchi fama suficiente para passar a ter orçamentos mais generosos nos seus filmes seguintes.

Produção:

Título original: Saikaku ichidai onna; Produção: Koi Productions / Shintoho Film Distribution Committee; Produtor Executivo: Isamu Yoshiji; País: Japão; Ano: 1952; Duração: 136 minutos; Distribuição: Shintoho Film Distribution Committee; Estreia: 17 de Abril de 1952 (Japão), 6 de Dezembro de 1976 (Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Kenji Mizoguchi; Produção: Hideo Koi, Kenji Mizoguchi; Argumento: Kenji Mizoguchi, Yoshikata Yoda [baseado no livro “Koshuku Ichidai Onna” de Ihara Saikaku]; Fotografia: Yoshimi Hirano, Yoshimi Kono [preto e branco]; Design de Produção: Hiroshi Mizutani; Montagem: Toshio Gotō; Música: Ichirō Saitō.

Elenco:

Kinuyo Tanaka (Oharu), Tsukie Matsuura (Tomo, Mãe de Oharu), Ichirō Sugai (Shinzaemon, Pai de Oharu), Toshiro Mifune (Katsunosuke), Toshiaki Konoe (Lord Harutaka Matsudaira), Kiyoko Tsuji (Senhoria), Hisako Yamane (Lady Matsudaira), Jūkichi Uno (Yakichi Ogiya), Eitarō Shindō (Kahe Sasaya), Akira Ôizumi (Fumikichi, Amiga de Sasaya), Kyōko Kusajima (Sodegaki), Masao Shimizu (Kikuoji), Daisuke Katō (Tasaburo Hishiya), Toranosuke Ogawa (Yoshioka), Hiroshi Oizumi (Patrão Bunkichi), Haruyo Ichikawa (Iwabashi, Dama de Companhia), Yuriko Hamada (Otsubone Yoshioka), Noriko Sengoku (Sakurai, Dama de Companhia), Sadako Sawamura (Owasa), Masao Mishima (Taisaburo Hishiya), Eijirō Yanagi (Ferreiro), Chieko Higashiyama (Myokai, Velha Freira), Takashi Shimura (Velho), Benkei Shiganoya (Jihei).

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