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IkiruSinopse:

Kanji Watanabe (Takashi Shimura) é um burocrata há 30 anos, na Câmara Municipal da sua cidade. Quando visita o hospital para exames ao estômago, Watanabe é informado de que tem um cancro e morrerá em breve. Em casa Watanabe percebe que filho e nora apenas se preocupam com o seu dinheiro, pelo que não lhes conta. Desesperado, Watanabe não vai mais trabalhar, passando as noites a beber com um escritor. A visita de uma colega fá-lo procurar nela a juventude perdida. Quando nada o satisfaz, Watanabe percebe que deve passar os seus últimos dias vencendo a burocracia, e fazendo algo pela cidade, que inspire os colegas a fazer também alguma coisa de útil.

Análise:

Com “Viver”, Akira Kurosawa fez uma incursão fora do género jidai geki (filmes de época, passados no tempo dos samurais), para narrar uma história contemporânea, passada no Japão do pós-guerra. Não se pense, no entanto que Kurosawa invade o território de Ozu. Onde Ozu privilegia os pequenos eventos sobre a narrativa, os conflitos familiares sobre as ideias sociais, e filma sempre com planos estáticos, Kurosawa, fiel a si próprio, faz o oposto. Assim, mesmo sem samurais, “Viver” é uma história de determinação humana, e de luta por valores, no momento em que o protagonista atinge limites para os quais não estava preparado.

Mostrando a importância dada à narrativa, Kurosawa põe mesmo um narrador a expor-nos os acontecimentos em off. Com as suas palavras (bastante sarcásticas) aprendemos quem é Kanji Watanabe (Takashi Shimura). Este é um funcionário público, chefe de uma secção, que como todas as outras no município, mais não faz que acumular papel (note-se como as paredes são forradas com pilhas de documentos, e os próprios funcionários têm de espreitar por cima de pilhas de papel para se verem), e sacudir para a secção do lado qualquer questão trazida pelo povo. Watanabe trabalha ali há 30 anos, ou, como se descobrirá, ocupa ali o seu tempo, já que o trabalho acaba por ser irrelevante.

No dia em que ouve uma anedota sobre um homem que tinha medo de faltar ao trabalho pois nesse dia podiam aperceber-se de que ele não fazia falta nenhuma, Watanabe percebe ser esse o seu caso. Uma visita ao hospital para verificar porque sofre do estômago revela-lhe que tem um cancro e vai morrer brevemente. Watanabe entra então em crise existencial, não percebendo para que serviu a sua vida, de sacrifício pelo filho, depois de ter ficado viúvo. Watanabe decide não voltar a trabalhar, e vai passar o tempo com um escritor, e mais tarde com uma colega mais jovem, que o vai visitar, e lhe traz vontade de ser de novo jovem.

Quando nada parece mitigar a dor que sofre por uma vida sem objectivos, Watanabe lembra-se das petições públicas que passavam pelo seu gabinete, e eram sacudidas para o do lado. Volta então ao seu trabalho, com a resolução de resolver problemas reais.

Kurosawa decide então surpreender-nos com uma elipse de vários meses, situando o segundo acto do filme no dia do funeral de Watanabe. Através das palavras dos seus colegas, aprendemos que Watanabe conseguiu a construção de um Parque Infantil onde antes haviam esgotos ao ar livre. O engenho de Kurosawa está na forma criativa como nos vai revelando o que aconteceu. Embora ilustre a história com flashbacks, não se limita a deixá-los contar os factos. Na verdade estes surgem como uma construção resultante de conversas. É o caso do Acessor do Prefeito, que insiste com os jornalistas de que foi ele e não Watanabe a merecer os louros pela construção, desprezando o modo como Watanabe morreu no próprio Parque, sozinho, congelado, como um louco. E é o caso dos colegas de Watanabe, que após o Acessor sair, discutem entre si o estranho comportamento de Watanabe nos seus últimos dias.

Embriagando-se com sake, os colegas de Watanabe (que vemos agora filmados de baixo, como em Ozu) tentam compreender o que aconteceu. Primeiro atribuem os actos de Watanabe à loucura. Depois, compreendendo que ele sabia que ia morrer, aceitam que um homem a morrer naturalmente nada tem a perder. Finalmente percebem que pelo facto de estar a morrer, a sua última luta é ainda mais valorosa. Sob o feito do álcool a conversa vai subindo de entusiasmo, até todos prometerem que honrarão Watanabe seguindo o seu exemplo, e lutando contra a burocracia para serem úteis ao povo. Obviamente essa resolução dura apenas o tempo da bebedeira, e no dia seguinte tudo volta ao mesmo, com o sacudir de petições para a secção do lado.

Mostrando-nos a luta de um homem simples, que quer sentir que a sua vida não foi completamente em vão, Akira Kurosawa dá uma lição existencialista. Ao mesmo tempo põe o dedo na ferida da burocracia de um Japão onde ninguém parecia ter força para assumir responsabilidades ou ter a coragem de tomar decisões.

“Viver” tem tanto de alegórico e irónico, como de realista. Alegórico e irónico é o selo que Watanabe carrega, e quase o seu único papel no mundo. Realista é a sua dor e luta, desde o escapismo da descida à vida nocturna e vazia, oferecida pelo amigo escritor, ao desespero pelo contacto com alguém mais novo, como a sua colega. Alegórico é o canto de parabéns a uma rapariga, num restaurante onde Watanabe decide refazer a sua vida. Realista é o paralelo entre o início e o final, espelhos um do outro na falta de humanidade e coragem dos funcionários. “Viver” é um filme que nos mostra a pequenez da vida humana, a eterna questão por um sentido, não no sentido universal e metafísico, mas no real dia a dia de uma vida de tantos anos de trabalho e sacrifício.

Takashi Shimura, que filmou por 11 vezes com Kurosawa, especializara-se em personificar homens simples e vulgares. Mas raras vezes conseguiu que ao tornar-se o mais vulgar dos homens se tornasse tão extraordinário. A usa interpretação é soberba e a base de todo o filme, desde o momento em que um Raio X dá lugar ao rosto de Watanabe, até à morte deste, feliz, num baloiço do Parque que tanto quis construir. Graças ele, Kurosawa pode deixar o tempo decorrer a ritmo lento, pois cada cena com Shimura é intensa.

Devido a destoar dos seus habituais filmes de samurais, “Viver” só alguns anos depois teve lançamento comercial internacional. Ainda assim o filme venceu o Prémio Especial do Senado, do Festival de Berlim de 1954. O filme tinha originalmente 260 minutos.

Produção:

Título original: Ikiru [Título Inglês: Living]; Produção: Toho Company; País: Japão; Ano: 1952; Duração: 143 minutos; Distribuição: Toho Company; Estreia: 9 de Outubro de 1952 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Akira Kurosawa; Produção: Sôjirô Motoki; Argumento: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni; Fotografia: Asakazu Nakai [preto e branco]; Design de Produção: Takashi Matsuyama; Música: Fumio Hayasaka; Montagem: Kôichi Iwashita;

Elenco:

Takashi Shimura (Kanji Watanabe), Shin’ichi Himori (Kimura), Haruo Tanaka (Sakai), Minoru Chiaki (Noguchi), Miki Odagiri (Toyo Odagiri, empregada), Bokuzen Hidari (Ohara), Minosuke Yamada (Escrivão Subordinado Saito), Kamatari Fujiwara (Sub-chefe da Secção Ōno), Makoto Kobori (Kiichi Watanabe, Irmão), Nobuo Kaneko (Mitsuo Watanabe, Filho), Nobuo Nakamura (Acessor do Prefeito), Atsushi Watanabe (Paciente), Isao Kimura (Estagiário), Masao Shimizu (Médico), Yūnosuke Itō (Escritor).

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