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BakushûSinopse:

Noriko (Setsuko Hara) tem 28 anos, e vive na paz familiar com o irmão, o médico Koichi Mamiya (Chishū Ryū), a cunhada Fumiko (Kuniko Miyake), os filhos destes, e os seus pais (Ichirō Sugai and Chieko Higashiyama). A vida familiar é tranquila e feliz, com apenas uma nuvem a toldá-la, o facto de Noriko não pensar casar. Tal leva alguns membros da família, não só a pressioná-la, como a procurar um noivo para Noriko, que surge a conselho do patrão dela. Só que Noriko logo revela ideias próprias, que não só vão apontar noutro sentido, como vão originar o fim da vida familiar como a conhece.

Análise:

Com “Bakushû” (que no original significa “Tempo da colheita da cevada”), Yasujirō Ozu continuava a sua temática de pós-guerra, marcada pela mudança na sociedade, e na modernização do papel da mulher, agora já vestindo e conhecendo modas ocidentais, e já possuidora de emprego e alguma independência financeira.

A história traz-nos Noriko Mamiya (Setsuko Hara), que tal como no anterior “Primavera Tardia” (Banshun, 1949) é uma jovem mulher independente, aberta à modernização que chega do Ocidente, e sem vontade de casar e submeter-se a um marido. Noriko vive no seio de uma família alargada, que inclui os pais (Ichirō Sugai and Chieko Higashiyama), o irmão, o médico Koichi (Chishū Ryū), o verdadeiro chefe de família, a mulher deste, Fumiko (Kuniko Miyake) e os dois filhos do casal. A chegada de um idoso tio (Kokuten Kōdō) vem relembrar que Noriko está em idade de casar, o que faz Koichi insistir perante a irmã de que altura de dar esse passo.

Como habitual nos filmes de Ozu no pós-guerra, “Bakushû” (produzido durante a ocupação aliada) é mais uma contribuição de Ozu para o género “shomingeki” (histórias familiares contemporâneas de famílias simples), numa revisão de um mundo dividido entre o salto na modernidade e o peso do seu passado tradicional.

Noriko representa a modernidade. Trabalha, veste-se de modo ocidental, preza a sua independência (como se vê ao gastar dinheiro para apaparicar a cunhada), brinca com a amiga Aya (Chikage Awashima) sobre a prisão das mulheres casadas, e não quer casar. Em contraponto, o irmão Koichi representa a tradição, insistindo que a irmã deve casar, pois já todos falam do assunto.

Todo o filme é construído sobre um número de episódios que colocam o casamento no seu fulcro. Seja na felicidade da família Mamiya, seja nos confrontos de Noriko e Aya com as amigas já casadas, seja nas conversas com o patrão de Noriko, que lhe propõe um noivo, ou com os vizinhos, como Tami Yabe (Haruko Sugimura) e o seu filho Kenkichi (Hiroshi Nihon’yanagi). Mais uma vez Ozu joga com a ambiguidade dos dois mundos, levando-nos pela mão, paulatinamente, através de exemplos de ambos, onde os valores tradicionais estão presentes nas roupas de alguns personagens, nos cenários, como templos, e na veneração pelo teatro tradicional.

No final, embora se perceba na história de Noriko uma modernidade que a universaliza, não deixamos de sentir a estranheza dos casamentos arranjados, mesmo quando a decisão da protagonista é de rebeldia face à família (escolhendo um amigo pobre em detrimento do pretendente rico).

Filmando no seu modo habitual, Ozu dá-nos quase sempre planos fixos, com a câmara posicionada bastante em baixo (como se estivéssemos sentados em respeito, na habitual posição caseira familiar). Os enquadramentos são quase sempre definidos por corredores e molduras de portas, que nos permitem ver à distância, numa construção geométrica, e sem que sejam necessários movimentos panorâmicos quando os personagens se movem. Também habitual em Ozu é o modo como os diálogos nos são trazidos com os actores encarando a câmara de muito próximo, perdendo-se assim a noção espacial, de resto definida nos planos de conjunto.

Com a sua graciosidade natural, e o seu estilo narrativo de elipses sucessivas, Ozu deleita-se, e deleita-nos, como se tivesse todo o tempo do mundo, deixando que a vida e comportamentos familiares dos Mamiya nos cheguem naturalmente, através de episódios pueris do dia a dia, quase como se não se adivinhasse qualquer encenação. Entende-se nesse testemunho uma reverência à vida familiar tradicional, questionada pela mudança que se aproxima, e que no caso dos Mamiya é simbolizada pela fragmentação natural da família, simbolizada naquela última foto, que antes de ser tirada é já objecto de nostalgia.

Produção:

Título original: Bakushû [Título inglês: Early Summer]; Produção: Shôchiku Eiga; País: Japão; Ano: 1951; Duração: 125 minutos; Distribuição: Shôchiku Eiga; Estreia: 31 de Outubro de 1951 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Yasujirō Ozu; Produção: Takeshi Yamamoto; Argumento: Kôgo Noda, Yasujirō Ozu; Fotografia: Yûharu Atsuta [preto e branco]; Direcção Artística: Tatsuo Hamada; Montagem: Yoshiyasu Hamamura; Música: Senji Itō; Figurinos: Taizô Saitô; Cenários: Shôtarô Hashimoto.

Elenco:

Setsuko Hara (Noriko Mamiya), Chishū Ryū (Koichi Mamiya), Chikage Awashima (Aya Tamura), Kuniko Miyake (Fumiko Mamiya), Ichirō Sugai (Shukichi Mamiya), Chieko Higashiyama (Shige Mamiya), Haruko Sugimura (Tami Yabe), Hiroshi Nihon’yanagi (Kenkichi Yabe), Kuniko Igawa (Takako), Toyo Takahashi (Nobu Tamura), Kokuten Kōdō (Tio), Seiji Miyaguchi (Nishiwaki), Shûji Sano (Sotaro Satake).

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