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Com vários enormes sucessos às costas, Alfred Hitchcock sentiu que era altura de uma mudança de rumo nos seus filmes, quando encontrou um livro de Robert Bloch que quis transformar num filme de terror. Sem ver apoio na Paramount Pictures, o realizador comprometeu-se a produzir o filme pelos seus meios e usando a sua equipa de televisão. O filme foi por isso produzido pela sua Shamley Productions, a preto e branco, com o realizador a transferir-se gradualmente para a Universal. Com argumento de Joseph Stefano, Hitchcock trouxe-nos um dos serial killers mais famosos do cinema, com interpretações de Janet Leigh, Anthony Perkins e Vera Miles, e mais uma banda sonora inesquecível de Bernard Herrmann.

Sinopse:

Marion Crane (Janet Leigh) é uma empregada num escritório, a quem um dia são confiados 40 000 dólares para depositar na conta da empresa. A braços com uma relação não assumida com um amante (John Gavin) ainda a tentar divorciar-se, Marion vê no dinheiro uma solução para todos os problemas, e foge com ele. A sua fuga leva-a ao remoto motel gerido por Norman Bates (Anthony Perkins), um jovem que vive recluso, dominado pela presença da sua mãe que tudo observa da sinistra mansão gótica que se ergue junto ao motel.

Análise:

Em 1960, Alfred Hitchcock era já um reconhecido mestre de filmes de suspense. Era um nome seguido por todos, com fama acrescida pela sua participação na série “Alfred Hitchcock Presents”, e com um estilo de construção de histórias e de emoções que começava a ser imitado. Era, para Hitchcock, tempo de se reinventar, e ir mais longe do que nunca na manipulação das emoções dos seus espectadores, e o veículo para tal surgiu-lhe quando o livro “Psycho” lhe chegou às mãos, depois dos dois projectos abortados: “Flamingo Feather” e “No Bail for the Judge”.

“Psycho”, publicado por Robert Bloch em 1959, narrava a história do assassino real Ed Gein, recentemente condenado por duas mortes, entre elas a da própria mãe, cuja figura sempre o dominara. Envolto em contornos psicologicamente complexos, o livro agradou a Hitchcock pela crueldade da história, mistério interno do retratado, e possibilidade de surpreender com o macabro nele contido.

Os problemas surgiram quando Hirthcock apresentou o projecto à Paramount Pictures, cujos executivos o rejeitaram categoricamente, por o acharem demasiado repugnante. Fiel aos seus princípios, Hitchcock não desistiu, decidindo financiar ele próprio o filme, usando para isso a sua produtora e equipa televisiva, a Shamley Productions, bem como meios habitualmente usados em televisão, como o preto e branco, que tinha além do baixo custo, a vantagem de atenuar o efeito visual do sangue. “Psico” surgia assim, como um projecto híbrido, com o patrocínio da Paramount (que terminaria a ligação a Hitchcock com este filme), produção a cargo da Shamley Productions, e filmado nos estúdios da Universal, com quem Hitchcock assinaria de seguida, e que passaria mais tarde a ter os direitos do filme.

Com luz verde para o projecto, Hitchcock trabalhou de perto com o, até então bastante inexperiente, argumentista Joseph Stefano. Foi ao decidirem pela escolha de Anthony Perkins para o papel principal, que o personagem do protagonista, Norman Bates, foi redesenhado. Ao contrário de Ed Gein, Bates é jovem, atraente, não bebe, e parece desde o início uma figura simpática, sofrendo de um sacrifício em demasia pela mãe. O objectivo era fazer o espectador tomar o partido de Norman Bates. Ao mesmo tempo foi evitada a presença da Mãe (no livro existem longos diálogos, e descrições do que está a fazer), e sendo filmada de modo elusivo, mas sem se dar a perceber que se está a evitar mostrá-la. Tal é notório na cena da morte do detective Arbogast (Martin Balsam), na qual não vemos claramente a mãe de Norman, mas entendemos pela construção do plano que o mais importante era o momento dramático, e não esconder o rosto da personagem.

Passando ao enredo, “Psico” conta-nos a história de Marion Crane (Janet Leigh), que após desviar dinheiro do seu escritório, que devia depositar na conta da empresa, foge, indo parar no motel dirigido por Norman Bates (Anthony Perkins). Este procura a companhia dela, que apenas se quer esconder, mas se interessa pela história do rapaz, aparentemente dominado pela mãe, e por isso impedido de ter uma vida normal fora daquele deserto. Enquanto toma um duche, Marion é barbaramente assassinada pela figura de uma mulher, e Norman, atribuindo a culpa à mãe, não tem alternativa senão desfazer-se do corpo de Marion e de todas as evidências da sua passagem pelo motel. A investigação pela fuga e desaparecimento de Marion traz ao local a sua irmã Lila (Vera Miles), o amante daquela, Sam (John Gavin) e o detective Arbogast (Martin Balsam). Os assassínios voltam a acontecer, e tudo indica que a chave do mistério está na misteriosa mãe de Norman, que segundo as autoridades locais, já morreu há vários anos.

Nitidamente um produto de uma era em que o Código de Hays estava defunto, “Psico” baseia o seu argumento temas como atracção sexual, desvios comportamentais, crime violento e muito sangue. É, nesse sentido, o mais moderno filme de Hitchcock, e quase uma total rejeição pelas regras do cinema clássico de Hollywood. Há em “Psico” um completo desprezo pelo romantismo, regeneração dos personagens ou finais felizes.

Note-se como Hitchcock subverte mesmo em termos narrativos. Não só “mata” a estrela Janet Leigh com apenas 50 minutos de filme (só por si, um choque na altura), como toda a construção da história do dinheiro roubado, motivadora dos diversos momentos de suspense até então (com a sequência do polícia a ser a mais evidente), a ser literalmente atirada ao pântano, quando Norman nem sequer descobre o dinheiro roubado, e ele deixa de ser importante para o resto do filme. Como curiosidade acrescente-se que “Psico” é reputado como sendo o primeiro filme de Hollywood a mostrar uma sanita.

Tudo começa com Marion, que vemos inicialmente numa relação pecaminosa, que acompanhamos num roubo, e de quem testemunhamos a morte brutal, como se estivéssemos impávidos e vê-la ter o que merece (a própria Janet Leigh salientou o quão vulnerável uma pessoa se sente debaixo de um chuveiro). Temos depois Norman Bates, atormentado, visivelmente perturbado, deixando que alguma coisa (a presença da mãe) leve a melhor sobre si, sem que haja redenção possível. O facto de Hitchcock decidir eliminar o que no livro era um nascente romance entre Lila e Sam, mostra bem quais os seus intentos com este filme.

Estas assumpções quanto a histórias de perturbação e desvio da norma são tão mais evidentes no personagem de Norman Bates. Um solitário com um passado envolto em mistério, Norman mostra irritação quando Marion lhe suegere que se mude. A investigação de Lila leva-a a encontrar algo sobre o qual se enoja (no filme não vemos, no livro é pornografia). Tudo deixa no ar comportamentos impróprios, como o voyeurismo sobre o quarto de Marion, a relação com a mãe (fica no ar a ideia de incesto), e uma certa necrofilia evidente na sua paixão por seres mortos (empalhar pássaros é no original “stuffing birds” calão para ter relações sexuais com uma mulher). Por tudo isto e muito mais, “Psico” tem sido chamado de thriller psicanalítico, inaugurando uma tendência que perdura ainda hoje.

Mas também visualmente o filme se destaca. Com o uso do preto e branco, Hitchcock consegue dar um papel predominante à contraluz, como o usado na famosa cena do duche. Toda a sequência, aliás, é das mais célebres da história do cinema, pelo modo chocante e inesperado como surge, com os seus imensos ângulos e cortes rápidos (segundo o próprio realizador, 70 posições de câmara, filmadas em sete dias, para 45 segundos de filme), num extraordinário trabalho de montagem que nos deixa a sensação de ter visto o corpo nu de Janet Leigh e imagens de apunhalamento, quando de facto nenhuma dessas coisas acontece.

Toda a atmosfera é brilhantemente criada, num filme onde tudo parece acontecer à noite, e onde, mais uma vez, tudo o que de mais importante acontece, não necessita de palavras. Destaque para a casa vitoriana (reprodução da desenhada por Edward Hopper no seu quadro “The House by the Railroad”), no topo da colina de onde, de posição altiva, a mãe domina o que se passa no motel, esse ao nosso nível. Desde as sombras da mãe à janela, ao famos plano filmado de cima, mostrando a morte de Arbogast, muitas são as sequências que contribuem para o adensar da opressão que sentimos ao entrar naquele mundo de mistério, segredo, e acima de tudo, irrealidade de desvios psicológicos.

De particular importância é a música de Bernard Herrmann (com uma orquestra de apenas cordas, para, segundo o compositor, dar um aspecto de preto e branco também na música). Célebre por várias bandas sonoras para Hitchcock, Herrmann foi aqui ainda mais longe, conseguindo momentos arrepiantes, em que a sua música é um culminar climático do que Hitchcock criava com imagens. O exemplo mais claro é a cena do duche, onde a música de Herrmann nos grita aos ouvidos de modo assustador. De salientar que Hitchcock imaginara essa cena sem som, mas quando Herrmann, sem o ter percebido, lhe mostrou a cena com música, Hichcock ficou imediatamente rendido.

Falta ainda destacar Anthony Perkins, no papel da sua vida, como o jovem aparentemente inocente, bem comportado, ingénuo, nervoso, mas com muitos segredos mal acondicionados dentro de si. Ao lado da então estrela Janet Leigh, e da competente Vera Miles, é Perkins quem entra para a história, como um dos mais icónicos psicopatas da história do cinema. Tanto Perkins como Leigh tiveram liberdade para improvisar, desde que isso não prejudicasse os planos previamente estudados. Perkins, um actor do Actors Studio usou essa liberdade com grande efeito criando maneirismos que se tornaram identificativos do personagem.

Apesar dos fracos apoios recebidos para a sua produção, e de ter sido filmado em apenas 30 dias, Hitchcock tornou “Psico” num estrondoso sucesso junto de público e crítica. O filme receberia quatro nomeações para os Oscars, incluindo a de Melhor Actriz Secundária (Janet Leigh, que ganharia o Globo de Ouro desse ano) e de Melhor Realizador. “Psico” tornou-se mesmo a maior receita de Hitchcock, que detinha grande percentagem sobre os lucros, por ser um filme que quase saiu do seu bolso.

O filme ficou ainda famoso pelas estratégias de marketing adoptadas, em particular a enorme campanha publicitária sobre a pontualidade dos espectadores. Quer na rádio, quer nos jornais, em anúncios de rua, e nos próprios cinemas, era repetida a necessidade de se entrar no filme no início, sendo os cinemas instruídos a não deixar entrar ninguém depois do início do filme. Foram inclusivamente gravadas mensagens de Hitchcock para irem passando em momentos determinados, enquanto as pessoas esperavam pelo filme em filas. Tal ajudou a curiosidade, e originava filas enormes à entrada dos cinemas, onde as pessoas eram separadas de quem saía das instalações para não ouvirem comentários sobre o final. A isto aliava-se um trailer de 6 minutos, em que Hitchcock fazia uma visita guiada, muito humorística, pelos locais onde decorrem os acontecimentos.

Hitchcock foi tão longe no tentar manter o segredo quanto ao final, que não só tentou comprar todos os livros ainda à venda, como pôs a circular o rumor de que havia um casting para o papel da mãe de Norman Bates.

Ainda hoje “Psico” é tido como sendo o inspirador do novo terror que a partir de Halloween (1979) de John Carpenter, colocaria em destaque os assassinos em série e as mortes violentas. O filme de Hitchcock tornava-se assim um dos mais influentes do cinema de terror. A própria Universal Pictures (detentora dos direitos do filme) produziria três sequelas, “Psico II” (Psycho II, 1983) de Richard Franklin, “Psico III” (Psycho III, 1986) de Anthony Perkins, e “Psico IV: O Começo” (Psycho IV: The Beginning, 1990) de Mike Garris. Foram todos filmados já após a morte de Hitchcock e todos com Anthony Perkins como protagonista. Vera Miles repetiu o seu papel no filme de 1983, e Joseph Stefano foi argumentista no quarto episódio.

Mais recentemente surgiria, com Vince Vaughn, Anne Hech e Julianne Moore, o remake “Psico” (Psycho, 1998) de Gus van Sant, famoso por reproduzir, plano a plano, o filme original. Já em 2013 teve início a série de televisão “Bates Motel”, criada por Anthony Cipriano, mostrando a juventude de Norman Bates, interpretado por Freddie Highmore, com Vera Farmiga no papel da sua dominante mãe.

O próprio filme de “Hitchcock” (2012) de Sacha Gervasi é um relato dos acontecimentos durante as filmagens de “Psico”. O filme conta com Anthony Hopkins no papel do realizador, e Helen Mirren como a sua esposa Alma.

Finalmente a verdadeira história do assassino, Ed Gein, serviu ainda de inspiração para filmes como “Deranged” (1974) de Jeff Gillen e Alan Ormsby, “Massacre no Texas” (The Texas Chain Saw Massacre, 1974) de Tobe Hoper, e “O Silêncio dos Inocentes” (Silence of the Lambs, 1991) de Jonathan Demme.

Produção:

Título original: Psycho; Produção: Shamley Productions; País: EUA; Ano: 1960; Duração: 108 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 16 de Junho de 1960 (EUA), 22 de Novembro de 1960 (Cinemas Alvalade e S. Luiz, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Joseph Stefano [baseado no livro de Robert Bloch]; Música: Bernard Herrmann; Fotografia: John L. Russell [preto e branco]; Direcção Artística: Joseph Hurley, Robert Clatworthy; Cenários: George Milo; Genérico Inicial: Saul Bass; Guarda-roupa: Helen Colvig; Figurinos: Rita Riggs [não creditada]; Caracterização: Jack Barrow, Robert Dawn; Efeitos Especiais: Clarence Champagne.

Elenco:

Anthony Perkins (Norman Bates), Vera Miles (Lila Crane), John Gavin (Sam Loomis), Janet Leigh (Marion Crane), Martin Balsam (Detective Milton Arbogast), John McIntire (Xerife Al Chambers), Simon Oakland (Dr. Fred Richman), Frank Albertson (Tom Cassidy), Patricia Hitchcock (Caroline), Vaughn Taylor (George Lowery), Lurene Tuttle (Mrs. Chambers), John Anderson (California Charlie), Mort Mills (Polícia), Virginia Gregg, Paul Jasmin, e Jeanette Nolan [não creditadas] (Voz da Mãe).

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