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Banshun [Late Spring]Sinopse:

Noriko (Setsuko Hara) é uma mulher solteira de 27 anos, que vive a cuidar do seu pai viúvo, o professor universitário Shukichi Somiya (Chishū Ryū). À sua volta todos parecem alertá-la para o facto de não ter ainda casado. É o caso do pai, da tia Masa (Haruko Sugimura), da amiga divorciada Aya (Yumeji Tsukioka), e do colega do pai, o viúvo e recentemente casado pela segunda vez, Jo Onodera (Masao Mishima). Noriko responde que é feliz a cuidar do pai, e quando este percebe que a amizade de Noriko por Shôichi Hattori (Jun Usami) não é mais que isso, já que ele é comprometido, decide precipitar os acontecimentos anunciando o seu próprio noivado.

Análise:

Quando realizou “Primavera Tardia”, Yasujirō Ozu era já um realizador veterano, com cerca de 40 filmes, alguns do período mudo. “Primavera Tardia” surge, no entanto, numa fase em que o Ocidente ganhava consciência da cinematografia do pós-guerra japonês, marcando aquilo que ficou conhecido como a Era dourada do cinema japonês, e sendo o filme de Ozu que inaugura a fase final, e mais apreciada internacionalmente, da sua carreira.

Produzido numa altura em que o Japão sofria a ocupação dos Aliados, que supervisionavam a desmilitarização e transição para a democracia, “Primavera Tardia” integra-se no género que no Japão ficou conhecido como “shomingeki“, isto é histórias familiares de gente normal, passadas num momento contemporâneo. As histórias são, geralmente, simples, filmadas sem artifícios.

Considerado o primeiro filme de Ozu da chamada trilogia Noriko (por em todos eles haver uma personagem chamada Noriko, interpretada por Setsuko Hara, embora sem relações entre elas) “Primavera Tardia” fala-nos de uma família do pós-guerra, constituída por um professor universitário, o viúvo Shukichi Somiya (Chishū Ryū), e a sua filha Noriko. Noriko é notada por estar já em idade de casar, e não parecer querer fazê-lo. Desde a tia (Haruko Sugimura), que tenta conseguir-lhe pretendentes, até uma amiga divorciada, Aya (Yumeji Tsukioka), que a incentiva a procurar namorado, todas as histórias e personagens que passam por casa de Noriko estão relacionadas com o casamento, as suas ilusões e desilusões.

Noriko rebate todas as insistências, dizendo que está bem a cuidar do pai e não precisa de mais nada. Mas quando o seu próprio pai decide casar, Noriko fica sem argumentos, aceitando conhecer o noivo que lhe fora proposto. Após uma viagem a Quioto com o pai, Noriko revê a sua atitude perante o casamento, e aceita casar, para o que o pai não tenha que o fazer.

Muito se tem discutido qual o verdadeiro motivo do filme (comentar os ciclos da vida? Criticar o casamento?) e mesmo a posição de Ozu perante a mudança no Japão. Perante a modernização forçada por parte dos Aliados, após o final da Segunda Guerra Mundial, com consequente repressão do tradicionalismo feudal, “Primavera Tardia” pode ser interpretado tanto como um exemplo da coexistência passado-futuro e evolução das tradições, como pode ser visto como um redescobrir da antiga tradição, agora que o Japão fugia dela.

De facto esta ambiguidade é transversal ao filme e suas personagens. Se Aya, uma mulher divorciada e até admirada por tal pelo professor Shukichi Somiya, representa a modernidade (note-se como surge sempre em cenários modernos, e rodeada de objectos modernos), já a tia de Noriko representa a tradição, com a sua necessidade de casar a sobrinha (e note-se como surge em cenários tradicionais, como jardins, templos, etc.). Quanto a Noriko, pode por um lado ser vista como uma mulher emancipada, resistindo ao casamento e tendo amizades masculinas, para logo ser mostrada como considerando o casamento de um viúvo algo sujo, e apegando-se à dedicação à família.

Os exemplos deste jogo entre tradição e modernidade são imensos, tanto nos personagens, como nos cenários, onde tanto temos uma longa sequência num teatro Nô, como anúncios de Coca-cola, que nos lembram da situação que o Japão atravessa.

O filme teve, aliás, problemas com a censura dos Aliados. O casamento arranjado de Noriko foi por isso disfarçado, e a visita à campa da mãe de Noriko foi completamente eliminada. O motivo era o medo de que no filme se fizesse o elogio de práticas ancestrais (casamentos combinados, cultos dos mortos), que lembrassem o Japão feudal. Do mesmo modo foram removidos do argumento quaisquer referências à devastação causada pela guerra.

Mas polémica à parte, “Primavera Tardia” é um filme que bem documenta o modo de filmar de Ozu. Por um lado destaca-se a sua forma narrativa feita de elipses imprevisíveis (vê-se Noriko comentar que vai a uma exposição de arte, para a vermos no café após a exposição), ou o ocultar de informação importante (não sabemos até Noriko se rir – do pai e de nós – que Hattori já estava comprometido, e tal como o pai dela víamos um romance a surgir), para depois se delongar em factos irrelevantes. Como num haiku, interessam a Ozu os momentos pelo seu significado inerente, e não por construções artificiais de causa e efeito. Também como um haiku (com três versos separados) Ozu tipicamente construía os seus filmes de modo que uma introdução e um final contemplativos encaixassem a acção, sem se relacionarem com ela.

Distintos são os ângulos de Ozu, quase sempre filmando de baixo, numa posição que lembra a posição tradicional em que os japoneses se sentam em casa. Somos quase sempre confrontados com planos gerais da casa, da rua, etc., onde todo o espaço fica definido, e quase geometricamente traçado pelas formas geométricas do cenário. Tal dá, não só, uma perfeita definição do espaço, como permite que os personagens continuem enquadrados, mesmo que se movam, sem necessidade de mover a câmara.

Ozu usa quase sempre planos estáticos, e filma os diálogos de forma única, com a câmara encarando frontalmente o personagem, que olha num ângulo diminuto, quase como se olhasse a câmara. Perde-se assim a definição do espaço que se obtêm com a informação visual de que um personagem olha para a esquerda e o outro para a direita. Ganha-se, porém, uma proximidade que nos faz sentir desconfortavelmente perto dos interlocutores.

“Primavera Tardia” foi extremamente bem recebido no Japão, onde recebeu o prémio da crítica para melhor filme do ano. Mesmo assim, o filme só chegaria aos Estados Unidos em 1972. O seu prestígio internacional não tem parado de crescer, sendo geralmente considerado o melhor filme de Ozu, e aquele que definiu o seu estilo.

Produção:

Título original: Banshun [Título inglês: Late Spring]; Produção: Shôchiku Eiga; País: Japão; Ano: 1949; Duração: 108 minutos; Distribuição: Shôchiku Eiga; Estreia: 13 de Setembro de 1949 (EUA), 15 de Julho de 1994 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Yasujirō Ozu; Produção: Takeshi Yamamoto; Argumento: Kôgo Noda, Yasujirō Ozu [baseado no romance “Chichi to musume” de Kazuo Hirotsu]; Música: Senji Itô; Fotografia: Yûharu Atsuta [preto e branco]; Montagem: Yoshiyasu Hamamura; Direcção Artística: Tatsuo Hamada; Cenários: Mototsugu Komaki; Figurinos: Bunjiro Suzuki; Director de Produção: Dai Watanabe.

Elenco:

Chishū Ryū (Shukichi Somiya), Setsuko Hara (Noriko Somiya), Yumeji Tsukioka (Aya Kitagawa), Haruko Sugimura (Masa Taguchi), Hohi Aoki (Katsuyoshi), Jun Usami (Shôichi Hattori), Kuniko Miyake (Akiko Miwa), Masao Mishima (Jo Onodera), Yoshiko Tsubouchi (Kiku), Yôko Katsuragi (Misako), Toyo Takahashi (Shige), Jun Tanizaki (Seizô Hayashi).

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