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North by NorthwestEm 1959, embora ainda em contrato com a Paramount (para quem realizaria 6 filmes), Afred Hithcock filmou o seu único filme para a mais conservadora Metro-Goldwyn-Mayer. Contando com a sua habitual equipa (Herbert Coleman, Robert Burks, Bernard Herrmann, George Tomasini, Robert F. Boyle), Hitchcock contou com um argumento de Ernest Lehman, para filmar aquele que ficou conhecido como a síntese da sua fase americana. Era mais um filme de espionagem com um falso culpado que tinha que se imiscuir numa história que não era sua para provar a própria inocência. Também na galeria de personagens estavam os lugares comuns do mestre, o herói (Cary Grant pela quarta vez), a loura fria (Eva Marie Saint) e o vilão charmoso (James Mason).

Sinopse:

Roger Thornhill (Cary Grant) é um cinzento agente publicitário que um dia é confundido com um tal George Kaplan. Tal confusão de identidade leva ao seu rapto, por alguém que se apresenta como Lester Townsend (James Mason), que está convencido de que Thornhill é um agente secreto. Townsend orquestra a morte de Thornhill, o qual consegue escapar, mas ao confrontar o verdadeiro Townsend, não só percebe que fora enganado antes, como logo tem que se haver com a morte deste. Thornhill inicia então uma fuga, para limpar o seu nome, em busca do verdadeiro George Kaplan, que ninguém parece ter jamais visto, sendo ajudado por Eva (Eva Marie Saint), uma inesperada companheira de viagem.

Análise:

Continuando um conjunto de filmes consecutivos, hoje considerados obras-primas, Alfred Hitchcock realizou em 1959 uma das mais famosas histórias de espiões do cinema. Com argumento de Ernest Lehman, que trabalhava pela primeira vez para Hitchcock (segundo consta, a conselho do compositor e amigo comum Bernard Herrmann), a história partiu de uma ideia do realizador, que, ao que é citado nalgumas biografias, teria ouvido um relato do jornalista Otis C. Guernsey, de um caso de um espião não existente ocorrido na espionagem da Segunda Guerra Mundial. Tal levou Hitchcock a trabalhar a ideia durante nove anos, até a conseguir tornar no argumento de um filme.

Trabalhando pela primeira e única vez para a Metro Goldwyn Mayer, Hitchcock teve de impor as usas ideias quando a MGM queria nos principais papéis Gregory Peck e Cyd Charisse. No principal papel masculino, Hitchcock teve ainda outro problema, pois o seu habitual actor e amigo James Stewart estava convencido de que o papel era seu. O realizador, que o achava velho demais para o papel, esperou, até Stewart ter um novo filme, para o convidar falsamente, sabendo da sua impossibilidade. Só então contratou a sua primeira escolha, Cary Grant (curiosamente 4 anos mais velho que Stewart, mas talvez não o aparentando). Este terá ainda sugerido Sophia Loren para o principal papel feminino, mas problemas contratuais levaram à escolha de Eva Marie Saint.

Outro triunfo de Hitchcock sobre a MGM foi no uso do formato VistaVision, que o realizador conhecia de trabalhar com a Paramount, e a MGM não queria usar. Findo o filme, a MGM queria encurtá-lo para menos de duas horas, mas Hitchcock detinha direitos sobre a montagem final, e não cedeu. Houve no entanto cedências de detalhe a fazer, como quando a puritana MGM exigiu que a linha de Eva Marie Saint “I never make love on an empty stomach” mudasse para “I never discuss love on an empty stomach“. Isto num filme com momentos e diálogos extremamente ousados, nos quais Hitchcock continuava a divertir-se e a provocar Hollywood. Note-se a sequência final do filme, quando Thornhill e Eve celebram a lua de mel no comboio, Hitch corta para um comboio a penetrar um túnel.

Assim, apenas três anos depois de “O Homem que Sabia Demais” (The Man who Knew too Much, 1956), Hitchcock voltava a filmar a sua mais antiga história, a do falso culpado que se vê envolvido numa história de mistério, na qual tem que participar para provar a sua inocência. Como Truffaut notaria no seu diálogo com o realizador, tratava-se da síntese do seu período americano, como “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935) o havia sido para a fase inglesa.

Em “Intriga Internacional”, Cary Grant é Roger Thornhill, um agente publicitário, cuja maior fonte de tensão é a figura da mãe (Jessie Royce Landis), que continua a trata-o como criança. Só que um dia, quando por acidente alguém pensa que ele respondeu ao chamamento de um tal George Kaplan, a sua vida muda. Kaplan é um agente secreto, e é Thornhill quem é raptado no seu lugar, para ser levado ao criminoso Phillip Vandamm (James Mason) que dele se quer livrar. A partir de então Thornhill escapa a uma tentativa de assassinato, vê-se a mãos com um crime que não cometeu, é seduzido pela loura Eve Kendall (Eva Marie Saint), que sem que ele saiba, trabalha para Vandamm, é perseguido num campo de milho no meio de nada, e acaba no Monte Rushmore a tentar desmascarar os criminosos (Hitchcock voltava aos seus finais apoteóticos junto de monumentos famosos).

“Intriga Internacional” é assim um verdadeiro périplo, passando do edifício das Nações Unidas (cujo interior foi recriado em estúdio, depois de filmado em segredo in loco) em Nova Iorque, à estação ferroviária de Chicago, e ao parque natural de Rushmore no Dakota do Sul, com viagens de carro, comboio, avião. Tal variação de cenário, atmosfera e velocidade constitui uma das características do filme, e segundo alguns a principal fonte de inspiração para a série de filmes baseados na personagem de Ian Fleming, 007. Pelo meio ficam ainda sequências emblemáticas, como Thornhill a fugir ao ataque de um avião num campo árido, que dura cerca de sete minutos sem palavras, e se tornou um dos momentos mais conhecidos do cinema americano; o inspirado expediente como Thornhill se livra da perseguição num leilão (recordando a conferência de “Os 39 Degraus”); e o clímax final sobre as cabeças presidenciais de Monte Rushmore.

Com o seu habitual humor, Cary Grant interpreta o galã, charmoso, mas inquieto, sedutor perante as mulheres, e uma criança junto da mãe (de notar o recorrente tema hitchcokiano da mãe opressora). Faz-nos tanto simpatizar com o seu infortúnio, como desejar que ele continue a sua saga na resolução do mistério. Grant conduz-nos por uma história de acção sempre surpreendente, mercê de um argumento inspiradíssimo, num filme onde nenhum plano está a mais.

Ao seu jeito peculiar, Hitchcock voltava a provocar-nos dando-nos e retirando-nos informação, como seus cúmplices, a seu contento. Note-se, a título de exemplo, como ao contrário de Thornhill e Vandamm, sabemos quase desde o início que Kaplan não existe. Também, antes de Thornhill, ao acompanharmos o travelling da nota que Eve passa a Vandamm, sabemos que ela é agente deste. Já com Thornhill, observamos a arma que Leonard (Martin Landau) empunha atrás das costas e que servirá para desmascarar Eve. Pela inversa não sabemos nada do plano do Professor (Leo G. Carroll no seu último de seis filmes com Hitchcock) até ao momento em que Eve dispara sobre Thornhill. Como nos habituou, Hitchcock dá uma lição do que é divulgar ou reter informação do espectador para aumentar o suspense de cada momento.

“Intriga Internacional” foi planeado por Hitchcock como um modo de dar aos seus espectadores algo mais leve, e menos marcado pelo simbolismo, depois de um filme tão carregado, como foi “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo, 1958). No entanto, é fácil encontrar nele temas recorrentes e figuras de estilo caras ao realizador, como o citado tema do falso culpado, o espectro da guerra fria, o humor macabro, a ambiguidade feminina, e claro, o célebre MacGuffin. Note-se como nunca chegamos a saber o que Vandamm trafica nem com que finalidade. Como habitualmente nos filmes de Hitchcock, é a história do protagonista que nos interessa, e não algo que lhe transcenda. Como se não bastasse, tudo decorre em torno de alguém que nem sequer existe. Por fim ainda o carácter onírico do filme (tão presente em Hitchcock) como nos lembra a elipse final em que, com num sonho, a cena de queda final (o filme termina como “A Mulher que Viveu Duas Vezes” começara) se transforma num momento romântico no comboio.

Como curiosidade, note-se o detalhe de quando Roger O. Thornhill é questionado sobre o significado do “O”, este responder que não significa nada. Tal é uma alusão ao nome do antigo produtor de Hitchcock, David O. Selznick, cujo “O” foi acrescentado por uma questão de estilo, não significando nada.

“Intriga Internacional” voltou a ter créditos iniciais, muito elogiados, da autoria de Saul Bass. É também a sexta banda sonora consecutiva de Bernard Herrmann num filme de Hitchcock, e o décimo filme consecutivo de Hitchcock com Robert Burks como director de fotografia.

O filme foi um enorme sucesso junto do público, sendo ainda nomeado para três Oscars (Melhor Montagem, Melhor Design de Produção e Melhor Argumento), no ano em que “Ben-Hur”, de William Wyler, arrecadaria onze estatuetas.

Produção:

Título original: North by Northwest; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer; País: EUA; Ano: 1959; Duração: 130 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer; Estreia: 17 de Julho de 1959 (EUA), 8 de Março de 1960 (Cinemas S. Luiz e Alvalade, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Produtor Associado: Herbert Coleman; Argumento: Ernest Lehman; Música: Bernard Herrmann; Fotografia: Robert Burks [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Design de Produção: Robert F. Boyle; Direcção Artística: William A. Horning, Merrill Pye; Cenários: Henry Grace, Frank R. McKelvy; Efeitos Especiais: A. Arnold Gillespie, Lee LeBlanc; Genérico Inicial: Saul Bass; Montagem: George Tomasini; Directora de Produção: Ruby Rosenberg [não creditada]; Caracterização: William Tuttle; Guarda-roupa: Harry Kress.

Elenco:

Cary Grant (Roger O. Thornhill), Eva Marie Saint (Eve Kendall), James Mason (Phillip Vandamm), Jessie Royce Landis (Clara Thornhil), Leo G. Carroll (O Professor), Josephine Hutchinson (Mrs. Townsend), Philip Ober (Lester Townsend), Martin Landau (Leonard), Adam Williams (Valerian), Edward Platt (Victor Larrabee), Robert Ellenstein (Licht), Les Tremayne (Leiloeiro), Philip Coolidge (Dr. Cross), Patrick McVey (Sargento Flamm), Edward Binns (Capitão Junket), Ken Lynch (Charley – Polícia de Chicago).

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