Etiquetas

, , , , , , , , , ,

VertigoDepois de 1957 ter sido um raro ano sem estrear qualquer filme, Alfred Hitchcock voltou em 1958, de novo com a Paramount, para um filme que o próprio autor consideraria um dos seus filmes mais pessoais. Numa história de obsessão e desejo, baseada num livro dos franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, Hitchcock filmou nas ruas de São Francisco aquela que é para muitos a sua obra-prima. Com uma banda sonora famosa de Bernard Herrmann, James Stewart (no seu quarto filme com Hitch) e Kim Novak foram os protagonistas, secundados por Barbara Bel Geddes e Tom Helmore.

Sinopse:

O detective John Ferguson (James Stewart) tem um acidente causado por vertigens, quando perseguia um criminoso pelos telhados de São Francisco. Após recuperar fisicamente decide deixar a polícia, quando recebe a chamada de um ex-colega, Gavin Elster (Tom Helmore) que lhe pede que vigie a sua mulher. A princípio relutante, Ferguson acaba por aceitar, ao perceber que não se trata de um simples caso de ciúmes. É que Madeleine Elster (Kim Novak) parece deambular por São Francisco, sem saber quem é, nem onde anda, aparentemente possuída pelo espírito da sua bisavó, Carlotta Valdes. Para piorar tudo, Carlotta suicidou-se com 26 anos, a idade actual de Madeleine.

Análise:

Se é verdade que todos os filmes de Alfred Hitchcock têm um carácter onírico, nos quais, apesar da aparência puramente realista, se quisermos podemos suspender a lógica da realidade e crer-nos num ambiente de sonho, poucos vão tão longe nesse propósito como “A Mulher que Viveu Duas Vezes”.

Baseado no livro “D’Entre Les Morts” de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, Hitchcock traz-nos uma história de obsessão, fobia, fetichismo, no que parece um mergulhar profundo na psique humana. Por esse motivo muitos (incluindo o próprio) têm considerado “A Mulher que Viveu Duas Vezes” como o filme mais pessoal da carreira de Hitchcock, isto é, aquele em que o realizador usou mais intimamente o seu mundo interior na construção da história.

Estando Hitchcock na fase mais madura da sua carreira, nenhum pormenor é descurado na criação daquele que é geralmente considerado a sua obra-prima. Tudo começa nos créditos iniciais, desenhados por Saul Bass, onde uma série de formas espirais (a espiral descendente, foi sempre um motivo hitchcockiano) emergem de dentro de um olho, e nos vão fazendo rodopiar, de modo declaradamente hipnótico. Este efeito será novamente usado na segunda metade do filme, no sonho obsessivo e perturbante de John Ferguson (James Stewart), da responsabilidade do artista John Ferren (que também pintou o retrato de Carlotta Valdes), numa evidente mostra de que é o mundo interior dos seus personagens que está aqui em análise.

Com os créditos iniciais chega-nos desde logo a música de Bernard Herrmann, agora na sua sua quinta colaboração consecutiva com o realizador inglês. Construindo uma melodia recorrente (também ela espiral) e melodramática, Herrmann traz-nos temas que são por si só hipnóticos e arrebatadores, inspirando-se em “Tristão e Isolda” de Wagner (uma história trágica de amor impossível), conseguindo aquela que será certamente a sua melhor banda sonora para Hitchcock, e uma das mais célebres da história do cinema.

Passando ao argumento, ele gira em torno de um pedido de Gavin Elster (Tom Helmore) um velho amigo do protagonista, John ‘Scottie’ Ferguson (James Stewart), para que este siga os passos da mulher, Madeleine (Kim Novak). Esta erra sem destino por São Francisco, possivelmente possuída pelo espírito da antepassada Carlotta Valdes, que enlouqueceu no final de uma vida trágica que a levou ao suicídio. Obviamente John não acredita em nada do que ouve, mas por respeito ao amigo aceita a tarefa, e desde o primeiro dia fica fascinado, não só pela mulher do amigo, como pela sua estranha obsessão com a morte.

Com argumento de Samuel A. Taylor (para o qual Alec Coppel pouco ou nada terá contribuído), Hitchcock constrói um filme pouco menos que perfeito, de sedução, obsessão, mistério e resoluções surpreendentes, filmado com extrema elegância e um sentido de tempo admirável. Mas como em todas as grandes obras, há sempre muito mais que nos marca que a história factual.

Se a história é inicialmente detectivesca (com todo o lento descobrir de quem foi Carlotta), de mistério, possível possessão, e por fim de crime e morte, mais do que isso é a história de uma obsessão que nos fica, depois de terminado o filme. Mais que uma obsessão, “A Mulher que Viveu Duas Vezes” é, ele próprio, um filme de várias obsessões em espiral (com o corpo feminino, com a morte). Temos por um lado a obsessão crescente de John por Madeleine, que conduz todo o filme. Dentro dela temos a obsessão doentia de Madeleine por Carlotta, a qual, por sua vez, é baseada numa antiga obsessão de Carlotta que a levou à loucura. É o definir da espiral, tão querida a Hitchcock, e que nos surge inusitadamente, seja nas escadarias (como a vertiginosa torre da Missão Espanhola) ou no efeito do cabelo de Carlotta e Madeleine.

É ainda um filme de voyeurismo, um pouco à luz do que acontecera em “Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954). Também aqui (e novamente com James Stewart a ser os nossos olhos) começamos com um acidente (desta vez visível aos nossos olhos), que de algum modo incapacita o protagonista, atirando-o para uma nova actividade, que passa por espiar alguém de um modo despudorado. Note-se como nunca sabemos como Scottie sobreviveu às alturas, sendo a elipse que o mostra na casa da amiga Midge (Barbara Bel Geddes) já de si uma porta para o mundo de sonho em que o filme parece decorrer. Há ainda um certo paralelo entre o papel de Midge e o de Grace Kelly no filme de 1954, ambas artistas e o contacto entre James Stewart e a realidade. Só que ao contrário de Kelly, que dá o salto no escuro para o mundo do voyeurismo, conquistando assim um marido, Midge assume um papel maternal, desligando-se gradualmente de Scottie.

Scottie, John, Mr. Ferguson, Johnnie O, são os múltiplos tratamentos dados ao protagonista, no que constitui uma velada confusão de identidade, que no final será o tema para a compreensão do mistério de Madeleine. Existem afinal duas Madeleines (uma real, uma falsa), como existem duas Carlottas (a verdadeira já morta e a sua imitação, Madeleine), e duas personagens para Kim Novak (Madeleine e Judy). Hitchcock mostra-nos e brinca com isso, na repetição do tema dos espelhos, nas confusões de identidade, confundindo-nos como confunde James Stewart numa queda em espiral para uma verdade que é ela própria uma vertigem de que não conseguimos escapar.

Sendo desde o início os nossos olhos, John Ferguson (cuja perspectiva acompanhamos durante quase todo o filme, até à revelação de Judy que nós vemos e ele não), guia-nos o olhar em longos planos subjectivos pelas ruas de São Francisco. A cidade torna-se um palco labiríntico, pretexto para longas sequências sem uma palavra (a primeira perseguição de Madeleine, dura 10 minutos sem uma palavra). Como é sua imagem de marca, Hitchcock leva-nos em suspenso, apenas com imagens, nas quais descreve histórias e motivações, sem que uma palavra seja necessária. Aliás, pouca gente dará por isso, mas Kim Novak fala pela primeira vez aos 40 minutos de filme.

Desse modo voyeurístico acompanhamos (e partilhamos) a crescente obsessão de John ‘Scottie’ Ferguson, que do olhar distante passa a presença próxima, numa perversão hitchcockiana, que nessa teia hipnótica nem daremos conta. Talvez a surpresa de Madeleine quando se vê nua debaixo dos lençóis de Scottie nos alerte um pouco para esses excessos, principalmente depois de Hitchcock não resistir ao seu humor, quando coloca Scottie a dizer que foi um prazer. A perversão ganha contornos de fetiche quando Scottie encontra Judy e insiste em torná-la em Madeleine (a transformação é outro motivo hitchcockiano), depois de uma série de confusões de identidade durante o período de loucura de Scottie (note-se como ele busca Madeleine por todo o lado como em tempos Carlotta buscara o filho) não nos deixarem mais saber quem é quem.

Só que, quando a aceitação desse fetiche e dessa humilhação por Judy poderia parecer-nos demasiado irreal (será alguma coisa irreal num mundo de sonho?), Hitchcock quebra todas as regras ao revelar-nos toda a verdade sobre Judy. Sai o mistério, regressa o suspense de não sabermos como vai Scottie reagir a essa verdade. Começa então um segundo filme, feito do doentio fetichismo de Scottie (alguns chamam-lhe necrofilia, na morte sempre presente, dos cemitérios, árvores milenares, tentativas de suicídio), e no qual só nós sabemos o quanto Judy está disposta a submeter-se para, agora ela, levar a sua obsessão a bom porto. O filme torna-se ainda um filme de um erotismo invertido, onde vestir Judy surge como um simbolismo velado de despi-la, como o próprio realizador explicaria a Truffaut.

Tanto quanto pelas sinuosas espirais que conduzem os personagens de “A Mulher que Viveu Duas Vezes”, o filme seria ainda icónico por algumas das suas mais belas sequências. A queda em San Francisco Bay, a queda inicial na perseguição pelos telhados, o retrato de Carlotta no Palace of the Legion of Honor, as mudanças de luz em momentos de revelação de Madeleine (a sua primeira aparição no Ernie’s, a revelação do passado de Carlotta na livraria, a transformação final no hotel), e claro a famosíssima Vertigo-shot (também chamada “contra-zoom” ou “trombone shot”), a técnica criada para este filme, que consistia e recuar a câmara aumentando o zoom (filmada num plano horizontal numa maqueta que reconstituia o interior da torre da Missão). A própria Missão Espanhola de San Juan Batista foi modificada para o ecrã, pois a sua torre já não existia, tenho que ser desenhada (tal como o céu, que cria um efeito intenso e quase sobrenatural) e sobreposta às imagens reais.

Anúncios