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FantasiaCom direcção do maestro Leopold Stokowski, a Philadelphia Orquestra interpreta peças conhecidas de compositores com Bach, Beethoven, Tchaikovsky, Mussorgsky e Schubert, entre outros. Para cada uma, a Disney apresenta, em animação, a sua interpretação por imagens, que vai desde pequenas histórias, como no caso de “O Aprendiz de Feiticeiro”, de Paul Dukas, a construções abstractas, como é o caso da Tocata e Fuga em Ré menor, de Johann Sebastian Bach. Cada peça tem a apresentação e contextualização do crítico de música Deems Taylor.

Análise:

Em 1940 Walt Disney estreou a sua terceira longa-metragem. Assente nos sucessos de “Branca de Neve e os Sete Anões” (Snow White and the Seven Dwarves, 1937) e “Pinóquio” (Pinocchio, 1940) era tempo de inovar, o que a Disney fez com este filme diferente, uma forma de traduzir por imagens várias peças conceituadas de música clássica.

Apresentado pelo crítico Deems Taylor, que desde logo nos explica que existe música feita para uma história, música que sugere histórias, e música puramente abstracta, o filme conta com a imaginação dos desenhadores da Disney, para pegar nos três tipos de conceitos e transformá-los em pequenos filmes. Estes são por vezes abstractos, noutros casos têm narrativas perfeitamente delineadas, mas em qualquer dos casos trata-se de exercícios de imaginação e entretenimento. A música é da responsabilidade da Philadelphia Orchestra, conduzida pelo célebre Leopold Stokowski, que apenas vemos em silhueta, e este foi o primeiro filme comercial a ser apresentado nas salas com som estereofónico.

Um por um vejam-se os vários segmentos do filme:

1) Johan Sebastian Bach – Tocata e Fuga em ré menor

Começando com a silhueta em contraluz do próprio Stokowski, sucedem-se as silhuetas e sombras projectadas dos músicos, sublinhando cada frase musical. A partir da fuga, ilustrando a capacidade de deixarmos a sala de concertos para nos perdermos na música, a imagem evolui para padrões abstractos, por vezes relacionados com instrumentos musicais, que pairam acima das nuvens. Os padrões tornam-se mais complexos até ao final grandioso, em que se ilustra uma elevação transcendente, com construções de arcos celestiais.

2) Piotr Tchaikovski – Suíte de Ballet “O Quebra-nozes”

Dividido em vários andamentos, vemos: uma dança de pirilampos e fadas, cujo movimento deixa rastos luminosos; um conjunto de cogumelos que se transforma em chineses de fato tradicional, que dançam em círculo; flores caem na superfície de um riacho, para logo se transformarem em bailarinas, que dançam e rodopiam delicadamente ao sabor da música; o fundo do mar, onde peixes dançam preguiçosamente; plantas que se transformam em cossacos, que dançam energicamente ao jeito russo; fadas que tocam folhas que passam a douradas, e caem das árvores, simbolizando o Outono, cheio de folhas que vão esvoaçando ao som da valsa. A apoteose dá-se já em tom invernal com as fadas a patinar sobre uma superfície gelada, desenhando complexos padrões no seu ballet.

3) Paul Dukas – Poema sinfónico “O Aprendiz de Feiticeiro”

Conta a história do aprendiz de feiticeiro, aqui interpretado por Mickey. É uma narrativa com princípio, meio e fim, fazendo uso dos vários registos da música de Dukas para os transformar em acções e acontecimentos. Assim, com uma estética expressionista, vemos como Mickey usa indevidamente o chapéu mágico do seu mestre, para pôr uma vassoura a trabalhar por si. Só que esta não pára nunca, o que tem consequências catastróficas. Do pontuar do caminhar dos personagens, até aos vários clímaces e momentos de suspense, tudo no filme surge maravilhosamente ligado à música de Dukas.

4) Igor Stravinsky – Bailado “A Sagração da Primavera”

Um estudo coreografado da criação do mundo, de uma forma que Disney pretende documental. Acompanha-se desde a origem do universo, formação da Terra, evolução da crosta, origem da vida, até à era dos dinossauros e sua extinção.

5) Intervalo – seguido de mais uma apresentação de Deems Taylor que chama a si a banda sonora. Esta é uma linha vertical animada que se vai transformando no espectro sonoro de cada instrumento, na demonstração das diferenças de timbre.

6) Ludwig van Beethoven – Sinfonia Nr. 6, “Pastoral”

No reino da mitologia, a música de Beethoven é motivo para momentos de paz e alegria em clima sereno. Vemos pequenos faunos brincalhões no bosque, e cavalos alados que desenham voos magníficos, acompanhando os mais pequenos e por vezes ainda desastrados no uso das asas. No bosque as centauretes banham-se e, com a ajuda de pequenos anjos alados, preparam-se para conhecer os centauros, que delas se vão enamorar. Juntos trabalham na apanha da uva, que os pequenos faunos transformam em vinho. Chega Baco, embriagado e bonacheirão, presidindo às festas rurais. Mas Júpiter numa nuvem escura, usando os raios forjados por Neptuno, lança uma tempestade sobre a Terra. A esta segue-se a bonança, com todos a voltar à sua vida idílica e brincalhona, até ao pôr-do-sol, que manda todos dormir.

7) Amilcare Ponchielli – “Dança da Horas” do bailado “La Gioconda”

As horas da manhã, meio-dia, tarde e noite são representadas, respectivamente por avestruzes, hipopótamos, elefantes e crocodilos. Todos ágeis e graciosos bailarinos, recriando-se docemente num jardim. Um frenético pas-de-deux entre um crocodilo e uma hipopótamo precipita um final em que os crocodilos trazem todos os outros animais de volta ao jardim.

8) Modest Mussorkgski – Poema sinfónico “Uma Noite no Monte Calvo” e Franz Schubert – Ave Maria

No segmento visualmente mais arrojado do filme, Satanás surge sob um céu que parece pintado por Chagall, lançando as trevas sobre a Terra e chamando a si as almas dos mortos, para um dança infernal entre as chamas. Mas rompe a aurora e as trevas de Satanás dão lugar à luz, com um cortejo que canta a Ave Maria trazendo a paz a um mundo de jardins celestiais.

O filme foi um enorme sucesso, e tem sido desde sempre elogiado pela crítica, e frequentemente eleito para listas dos melhores filmes de sempre. Desde então tem sido alvo de periódicas reposições, as quais trazem quase sempre novas misturas de som. A mais célebre foi a adaptação à tecnologia digital de som e imagem, tendo em vista o mercado de DVDs, e chamada “Fantasia 2000”.

Produção:

Título original: Fantasia; Produção: Walt Disney Pictures; País: EUA; Ano: 1940; Duração: 124 minutos; Distribuição: Walt Disney Productions / RKO Radio Pictures; Estreia: 13 de Novembro de 1940 (EUA), 16 de Março de 1942 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Norman Ferguson (segmento “Dance of the Hours”), James Algar (segmento “The Sorcerer’s Apprentice”) [não creditado], Samuel Armstrong (segmentos “Toccata and Fugue in D Minor”, “The Nutcracker Suite”) [não creditado], Ford Beebe Jr. (segmento “The Pastoral Symphony”) [não creditado], Jim Handley (segmento “The Pastoral Symphony”) [não creditado], T. Hee (segmento “Dance of the Hours”) [não creditado], Wilfred Jackson (segmento “Night on Bald Mountain/Ave Maria”) [não creditado], Hamilton Luske (segmento “The Pastoral Symphony”) [não creditado], Bill Roberts (segmento “Rite of Spring”) [não creditado], Paul Satterfield (segmento “Rite of Spring”) [não creditado], Ben Sharpsteen [não creditado]; Produção: Walt Disney [não creditado], Ben Sharpsteen [não creditado]; Argumento: Joe Grant, Dick Huemer; Fotografia: James Wong Howe [cor por Technicolor]; Música: Johann Sebastian Bach, Piotr Tchaikovsky, Paul Dukas, Igor Stravinsky, Ludwig van Beethoven, Amilcare Ponchielli, Modest Mussorgsky, Franz Schubert; Direcção Musical: Leopold Stokowski; Direcção Artística: Ken Anderson, Bruce Bushman, Arthur Byram, Tom Codrick, Robert Cormack, Harold Doughty, Yale Gracey, Hugh Hennesy, John Hubley, Dick Kelsey, Gordon Legg, Kay Nielsen, Lance Nolley, Ernie Nordli, Kendall O’Connor, Charles Payzant, Curt Perkins, Charles Philippi, Thor Putnam, Herbert Ryman, Zack Schwartz, Terrell Stapp, McLaren Stewart, Al Zinnen.

Elenco:

Leopold Stokowski (O Próprio, Maestro), Deems Taylor (O Próprio, Apresentador), Walt Disney (Voz de Mickey Mouse (Mickey Mouse (segmento ‘The Sorcerer’s Apprentice’) [não creditado].

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