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The Wrong ManVoltando a estrear dois filmes num mesmo ano (algo que já fizera em 1954 e 1955), Alfred Hitchcock mostrava-se em grande forma, com mais um filme muito elogiado pela crítica. “O Falso Culpado” foi o último filme de Hitchcock para a Warner Bros., distribuidora com quem estava desde 1948, altura em que deixou a Paramount Pictures para filmar dois filmes com a sua Transatlantic Pictures. Partindo de uma história verídica, Hitchcock compôs um filme que é uma viagem quase documental sobre um homem acusado de um crime que não cometeu. No principal papel estava Henry Fonda, ao lado de Vera Miles e Anthony Quayle.

Sinopse:

Manny (Henry Fonda) é um pacato contrabaixista num clube de jazz, casado com Rose (Vera Miles), e com dois filhos, eternamente em dificuldades financeiras, que vai debelando com esforço e união familiar. Mas um dia, a polícia chega a sua casa para o prender, pois alguém o identificou como o autor de alguns roubos. Sabendo que é inocente, Manny vai seguindo os procedimentos com serenidade, vendo, incrédulo, como os factos se vão acumulando contra si. O que a princípio parecera um simples mal-entendido vai-se tornando um pesadelo, do qual Manny tem cada vez menos esperanças de se libertar, ao mesmo tempo que vê a frágil saúde da esposa desmoronar.

Análise:

Os anos 50 foram aqueles que tornaram Alfred Hitchcock uma estrela, dando-nos uma série de obras-primas das quais este “O Falso Culpado” não deve ser excluído. Baseado numa história verdadeira, o filme foi primeiro encomendado ao habitual argumentista de Hitichcock, John Michael Hayes, o qual declinou por desacordo quanto ao seu contrato, levando ao fim da sua colaboração com o realizador. Maxwell Anderson, Angus MacPhail foram então os responsáveis por um argumento no qual Hitchcock deixou de fora alguns elementos para manter a tensão sobre o protagonista.

O tema é o mais hitchcockiano dos temas – o do falso culpado, – já presente em tantos filmes, e que aqui merece lugar de honra, sendo explorado no máximo detalhe. É bom lembrar que Hitchcock contava a história de, em tenra idade, por alguma peripécia caseira, ter sido levado pelo pai para ser trancado umas horas numa cela de polícia. Esse episódio marcou-o ao ponto de confessar ter ficado para sempre com medo da polícia. Por isso nos seus filmes os polícias são quase sempre arrogantes, raramente estão na pista certa ou ajudam a resolver um crime, e nunca são os heróis da história. Por isso também, o tema da culpa é caro a Hitchcock. A culpa de facto, de quem comete um delito, bem como a culpa de intenção ou pensamento, muitas vezes advinda de alguma transferência que entrelaça aqueles que cometem o delito e aqueles que dele beneficiam, que o desejam, ou que simpatizam com o criminoso.

Muito disso pode ser encontrado em “O Falso Culpado”, uma história em que Manny (Henry Fonda), um homem tranquilo e acima de qualquer suspeita, é erroneamente identificado como o autor de alguns assaltos. A partir daí a vida de Manny é uma espiral descendente, na qual todos os factos e coincidências parecem concorrer para o incriminar ainda mais. A história de Manny é ainda mais assustadora por a sabermos real, o que Hitchcock faz questão de nos lembrar na introdução do filme, falando-nos com a sua própria voz (em off) quase como se de uma apresentação do seu “Alfred Hitchcock Presents” se tratasse.

Abdicando do suspense (o único suspense do filme prende-se com a angustiante espera pela inocentação de Manny), Hitchcock mergulha aqui, mais uma vez, no domínio do Film Noir. Filmando a preto e branco (sempre Robert Burks), Hitchcock mostra-nos um mundo pleno de cinismo, em que a honra humana não é tida em conta e os valores não parecem importantes. É um mundo negro e frio, onde ninguém está a salvo de se tornar vítima de um sistema que o trata desumanamente, como que num labirinto kafkiano.

Pelas mãos de Hitchcock assistimos à caminhada de Manny, de forma vagarosa. Como se o realizador nos quisesse amargurar plano a plano. Por isso vemos em detalhe o modo como Manny é levado, como é humilhado a fazer-se identificar por testemunhas, como é interrogado, como lhe são recolhidas as impressões digitais, retirados os pertences, e levado a uma exígua cela. Acompanhamos sobretudo os seus passos, vemos as suas caminhadas (muitas vezes de longe), vemos as portas que ele tem de transpor para que se encerrem por trás de si. Vemos uma descida que não tem nada de romântico ou poético, sendo ao invés crua, desumana e assustadora pela impotência em que deixa um homem que sabemos honesto, e que podia ser qualquer um de nós.

Na sua busca por autenticidade Hitchcock filmou sempre que possível nos locais onde a história verdadeira ocorreu (prisão, tribunal, hospital psiquiátrico), utilizando actores pouco conhecidos, e nalguns casos pessoas que tinham vivido os acontecimentos.

A nível de interpretações o filme é Henry Fonda. Com a sua habitual mestria, Fonda desempenha um personagem sereno, completamente regular, sem nada que o distinga, e que poderia ser qualquer pessoa. É através da sua interpretação exemplar que nos apercebemos do perigo da sua situação, e é graças ao seu modo de reagir que nos compadecemos e acreditamos nele. Fonda é o homem americano típico, que acredita na salvação para lá do razoável, e coloca na fé religiosa o seu último recurso (de notar como rezava no momento em que é capturado aquele que o ilibará). Ao seu lado Vera Miles traz-nos uma esposa dedicada até ao limite da sua saúde, e cujo colapso nervoso é só mais uma das agruras que Manny tem de enfrentar num mundo que parece ter-se virado contra ele sem nenhuma razão. Por este papel a actriz voltaria a trabalhar com Hitchcock, no famoso “Psico” (Psycho, 1960).

No final Hitchcock cede a adocicar a conclusão, com a revelação de que a senhora Ballestrero ficaria bem. Não evita no entanto a amargura que o filme nos deixa, como a de um pesadelo recorrente. Afinal, quando o verdadeiro culpado é preso, profere as mesmas palavras que Manny, “Tenho mulher e dois filhos”, quase que nos dando a entender uma repetição da história. Este paralelo é ainda mais claro no processo de identificação, pelas mesmas testemunhas que identificaram (erradamente) Manny, e que estão agora tão seguras quanto antes tinham estado. O que nos garante que não estejamos a testemunhar outro erro e a condenar outro falso culpado?

Dado o seu tema negro, e a falta dos crescendos de suspense que caracterizavam o realizador, o filme foi um fracasso comercial, mas foi desde logo um dos seus filmes criticamente mais aclamados.

“O Falso Culpado” é o único filme de Hitchcock em que a sua voz de pode ser ouvida.

Produção:

Título original: The Wrong Man; Produção: Warner Bros.; País: EUA; Ano: 1956; Duração: 105 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 22 de Dezembro de 1956 (EUA), 15 de Outubro de 1957 (Cinemas S. Luiz e Alvalade, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Produtor Associado: Herbert Coleman; Argumento: Maxwell Anderson, Angus MacPhail [a partir de uma história de Maxwell Anderson]; Música: Bernard Herrmann; Fotografia: Robert Burks [filmado a preto e branco]; Direcção Artística: Paul Sylbert; Montagem: George Tomasini; Cenários: William L. Kuehl; Caracterização: Gordon Bau.

Elenco:

Henry Fonda (Christopher Emmanuel Balestrero ‘Manny’), Vera Miles (Rose Balestrero), Anthony Quayle (Frank D. O’Connor), Harold J. Stone (Detective Bowers), Charles Cooper (Detective Matthews), John Heldabrand (Tomasini), Esther Minciotti (Mama Balestrero), Doreen Lang (Ann James), Laurinda Barrett (Constance Willis), Norma Connolly (Betty Todd), Nehemiah Persoff (Gene Conforti), Lola D’Annunzio (Olga Conforti), Kippy Campbell (Robert Balestrero), Robert Essen (Gregory Balestrero), Richard Robbins (Daniel – O Culpado), Dayton Lummis (Juiz Groat), Peggy Webber (Miss Dennerly).

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