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The Seven Year ItchSinopse:

Todos os Verões é tradição os homens de Manhattan enviarem as famílias para passar algumas semanas num lugar mais fresco, enquanto eles ficam a trabalhar. Só que a maioria vê isso como um período de liberdade, em que podem comportar-se como quiserem, sem regras nem horários, aproveitando mesmo para escapadelas amorosas. Avesso a tudo isso está Richard Sherman (Tom Ewell), um editor literário, casado, e com um filho, que está decidido a manter a promessa de não fumar, não beber, e claro, nunca olhar para outra mulher. O problema é a chegada de uma jovem e voluptuosa loura (Marilyn Monroe) para o andar de cima, que vai abalar todas as resistências de Tom.

Análise:

Se há imagens imortais na iconografia que nos chegou de Hollywood, aquela de Marilyn Monroe com a saia do vestido levantada pelo ar que chega de baixo é uma das mais conhecidas. Curiosamente a imagem que todos conhecem (de corpo inteiro) não aparece no filme, que mostra sempre Marilyn parcialmente. O filme a que pertence é “O Pecado Mora ao Lado”, uma comédia que Billy Wilder realizou, e que se tornou talvez o mais conhecido veículo para a popularidade da actriz, então com 28 anos.

“O Pecado Mora ao Lado” é o filme que melhor cristaliza a imagem que Monroe tornou sua. A da loura inocente, um pouco burra, mas bem intencionada, que não compreende o efeito que tem sobre os homens, deixando que essa incompreensão, e a inocência que a leva a colocar-se (e a colocá-los) em situações comprometedoras, os enlouqueça ainda mais. Mais que no díptico de 1953 “Os Homens Preferem as Loiras” (Gentlemen Prefer Blondes, de Howard Hawks) / “Como Se Conquista Um Milionário” (How To Marry A Millionaire, de Jean Negulesco), onde essa pretensa burrice e inocência são estudadas para caçar milionários, em “O Pecado Mora ao Lado” a personagem de Monroe é genuína e pura, e por isso muito mais cómica.

Filmado pelo mestre da comédia ligeira (e mestre de tantos outros géneros), que foi Billy Wilder, que dirigiria Monroe no também brilhante “Quanto Mais Quente Melhor” (Some Like It Hot, 1959), o filme tem argumento do próprio realizador, a meias com George Axelrod, o autor da peça de teatro no qual o filme se baseia, e que estreara na Broadway em 1952. É visível a influência da peça, já que Wilder opta por filmar a maioria do filme numa simples sala de um apartamento, algo que não era estranho ao realizador. De facto, tirando as cenas iniciais e finais, alguns pensamentos do protagonista e momentos no seu escritório, quase toda a acção se passa num único apartamento. Este é um espaço confinado, mas quase um personagem por si só, dadas as formas como interage com os personagens (o patim traiçoeiro, o vaso que cai, o piano e o seu banco, os cigarros escondidos, e tantas outras fontes de gags hilariantes).

Nesse espaço evoluem principalmente dois personagens, Richard Sherman (Tom Ewell), um sisudo e respeitável editor literário, tão snob nos seus gostos pessoais quão baixo é nas técnicas de vendas, e a rapariga (Marilyn Monroe) que vem habitar temporariamente o andar de cima. Se Marilyn Monroe, com a sua graça natural, a sua beleza e a citada inocência desconcertante, é aquilo que mais perdura do filme, é a interpretação de Tom Ewell que torna o filme uma obra-prima.

No papel do desajeitado, apanhado desprevenido quando tenta manter uma aparência idónea, Ewell parece estar a vestir a pele tantas vezes desenhada (pelo próprio Wilder) para Jack Lemmon. Mas onde Lemmon seria nervoso, submisso, humilde em demasia, Tom Ewell é pretensamente controlado, superior, snob. Obviamente o resultado é um contraste hilariante. Tom Ewell não foi, no entanto, a primeira escolha de Billy Wilder, que queria usar Walter Matthau, então um jovem actor que a Fox não via com bons olhos. A escolha da produtora recairia em Ewell, que foi o protagonista da versão de teatro, com a qual venceria mesmo o Tony Award de 1953.

Com uma imaginação delirante, Tom Ewell guia o enredo através dos seus pensamentos (que ouvimos em off), nos quais constrói e rebate cenário após cenário, numa desconstrução psicológica que tem como único objectivo tentar fugir à sua própria culpa, quando está constantemente a aumentá-la. Tal é exemplo do brilhantismo do argumento, que pega numa história simples, e leva-a à perfeição, graças a diálogos inteligentes, cheios de múltiplos sentidos, com um brilhante desempenho de Ewell, e uma química perfeita com Marilyn Monroe.

Para a memória ficam os planos de conquista de Richard Sherman ao som de Rachmaninoff, boicotados pela incompreensão da rapariga, que prefere tocar “martelinhos”; ou a discussão psicológica daquele para impressionar a rapariga que apenas se preocupa em refrescar o corpo. Isto aliado aos sonhos acordados de Sherman, nos quais tanto imagina o seu caso a ser publicitado na televisão, como se vê em momentos tirados de filmes como “Até à Eternidade” From Here to Eternity, 1953), são exemplos da farsa que Wilder constrói sobre os clichés do drama e comédia românticas, e onde a própria Marilyn se parodia a si própria.

Nem tudo, porém, correu bem na produção do filme. Este foi primeiramente atribuído a George Cukor, que desistiu antes de o iniciar, a segunda escolha foi então Billy Wilder, que terminava nesse momento o seu contrato com a Paramount. O realizador queria filmar a preto e branco, mas o contrato de Monroe previa que ela apenas participasse em filmes a cores. A actriz passava então por momentos maus na sua vida pessoal, com longas depressões, que dificultaram as filmagens, já que ela se esquecia constantemente das suas linhas, precisando de 30 ou 40 takes para filmar algumas cenas. Durante as filmagens, Monroe acabaria por se divorciar de Joe Dimaggio, com o qual era casada há nove meses.

Curiosamente a maior diferença entre a peça e o filme é o facto de na peça os protagonistas se envolverem sexualmente. Como o Código de Hays não permitia um protagonista adúltero, no filme tudo se passa na cabeça de Sherman, para grande irritação de Billy Wilder, que chegou a arrepender-se de o ter feito, pois sem o adultério considerava-o um filme sobre nada.

Ainda assim “O Pecado Mora ao Lado” foi um dos maiores sucessos de Billy Wilder e de Marilyn Monroe, trazendo-nos algumas das mais icónicas cenas da actriz, e definindo definitivamente a sua persona na tela.

Produção:

Título original: The Seven Year Itch; Produção: Charles K. Feldman Group Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1955; Duração: 100 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: 3 de Junho de 1955 (EUA), 6 de Fevereiro de 1956 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Billy Wilder; Produção: Charles K. Feldman, Billy Wilder; Produtora Associada: Doane Harrison; Argumento: Billy Wilder, George Axelrod [baseado na peça de George Axelrod “The Seven Year Itch”]; Música: Alfred Newman, Sergei Rachmaninoff; Fotografia: Milton R. Krasner [filmado em CinemaScope, cor por DeLuxe]; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler, George W. Davis; Cenários: Walter M. Scott, Stuart A. Reiss; Efeitos Especiais: Ray Kellogg; Montagem: Hugh S. Fowler; Guarda-roupa: Charles Le Maire; Figurinos: Travilla; Orquestração: Edward B. Powell; Caracterização: Ben Nye, Allan Snyder [não creditado].

Elenco:

Marilyn Monroe (A Rapariga), Tom Ewell (Richard Sherman), Evelyn Keyes (Helen Sherman), Sonny Tufts (Tom MacKenzie), Robert Strauss (Mr. Kruhulik), Oskar Homolka (Dr. Brubaker), Marguerite Chapman (Miss Morris), Victor Moore (Canalizador), Dolores Rosedale [como Roxanne] (Elaine), Donald MacBride (Mr. Brady), Carolyn Jones (Miss Finch).

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