Etiquetas

, , , , , , , , , ,

The Man Who Knew Too MuchPela primeira e única vez, Alfred Hitchcock realizou um remake de um dos seus filmes. E se a versão original de “O Homem que Sabia Demais” foi o seu primeiro sucesso internacional, esta segunda foi um sucesso ainda maior. Com James Stewart e Doris Day nos principais papéis, voltava a história do casal cujo filho foi raptado para calar um segredo, numa típica construção do suspense de Hitchcock. Com argumento de John Michael Hayes, o filme surgiu sobretudo para finalizar um antigo contrato com a Paramount Pictures.

Sinopse:

Numa viagem por Marrocos, o casal McKenna (James Stewart e Doris Day) trava conhecimento com o estranho francês Louis Bernard (Daniel Gélin), que pouco depois vem a morrer assassinado nos braços de Benjamin McKenna. Ao morrer, Bernard fala a McKenna de um assassinato vai ocorrer em Londres. Só que logo de seguida o filho de McKenna (Christopher Olsen) é raptado, para que o casal não fale. Viajando para Londres, o casal McKenna resiste às tentativas dos serviços secretos de tentar saber o que se passa. Benjamin e a esposa decidem então investigar por conta própria, colocando em risco as suas próprias vidas.

Análise:

Em 1956 Alfred Hitchcock faria o primeiro e único remake de um dos seus próprios filmes, “O Homem que Sabia Demais”, cuja versão anterior fora filmada em Inglaterra, para a Gaumont de Michael Balcon, em 1934, e havia sido o primeiro êxito internacional do realizador. Leslie Banks e Edna Best davam agora lugar a James Stewart e Doris Day, no papel do casal torturado pelo rapto do filho, para que não divulgasse a informação que detinha. O argumento era de John Michael Hayes (o seu quarto consecutivo para Hitchcock), sobre uma história de Charles Bennett, que trabalhou na versão original, e para trazer alguma frescura ao filme, Hitchcock pediu a Hayes que não visse o filme original nem lesse o seu argumento.

Como vinha acontecendo nos recentes filmes que Hitchcock fez para a Paramount, voltou a fazer-se uso de cenários naturais com as cenas de exteriores a serem filmadas em Marraquexe e em Londres. Mais uma vez Hitchcock teve consigo James Stewart como protagonista (o terceiro de quatro filmes que reuniram os dois). Quanto à tradicional loura de Hitchcock, o papel coube agora a Doris Day, então mais famosa como cantora que actriz.

Com as devidas diferenças (o casal é agora americano e não inglês; o rapto dá-se em Marrocos e não na Suíça; o homem que sabe demais é agora médico; e a sua esposa é uma cantora profissional, e não uma atiradora; a sua presença no Royal Albert Hall dá-se por acaso, etc.), o filme segue uma estrutura muito próxima da versão anterior, se exceptuarmos uma mais longa apresentação, e um acto final diferente, resultando num filme 40 minutos mais longo.

Parte-se mais uma vez de história de espionagem, com protagonistas inusitados, arrastados para um enredo que não desejam, e lhes traz um perigo constante. O Dr. Benjamin McKenna (James Stewart) e a esposa Jo Conway (Doris Day) passam férias na Marrocos francesa, quando travam conhecimento com um misterioso francês (Daniel Gélin), que talvez não seja quem aparenta ser. Quando este morre assassinado deixa com Benjamin uma informação sobre um assassinato a ocorrer em Londres. Só que antes que este a possa divulgar, o seu filho Hank (Christopher Olsen) é raptado para que o pai não fale. O casal McKenna vai então para Londres para seguir por conta própria as pistas que levam ao assassinato de um político em pleno Royal Albert Hall, onde o clímax se dará no estrondo dos címbalos de uma orquestra.

Como em todos os remakes, fica sempre a questão sobre qual é a melhor versão do filme, e se se justificava voltar a filmá-lo. Com “O Homem que Sabia Demais” a pergunta é de novo pertinente, e de resposta difícil. Hitchcock respondeu dizendo que o primeiro era obra de um amador talentoso, e o segundo de um profissional. Mas a resposta não será assim tão simples. Se bem que a versão de 1956 ganhe pela fotografia, o formato VistaVision, a cor Technicolor, e sobretudo a interpretação de James Stewart e a química do casal Stewart-Day, há na versão de 1934 um humor, inocência e coerência formal difíceis de repetir, e sobretudo um vilão mais carismático (Peter Lorre).

Feito para concluir o seu contrato com a Paramount, Hitchcock consegue em “O Homem que Sabia Demais” um thriller puro, mostrando que está no auge das suas capacidades. Domina já as longas sequências sem palavras que marcavam agora os seus filmes, sabendo como estender o suspense para lá da capacidade de sofrimento dos seus espectadores.

A maior novidade deste remake é o acto final, após a emblemática cena do disparo Royal Albert Hall. Ao contrário de no filme de 1934 (onde a essa cena se seguia a chegada à casa dos raptores com salvamento de pai e filha), no filme de 1956 é o elemento masculino o salvador, depois de um acto adicional passado numa embaixada estrangeira. Aqui é a Doris Day, ao piano, que usa uma canção para chamar a atenção do filho e anunciar a sua presença, para uma nervosa salvação. Tal como acontecera, sobretudo nos anos finais da sua fase inglesa, Hitchcock voltava a dar um papel principal à música, que desempenhava o catalizador de uma salvação.

Como já acontecera na versão de 1934, a Cantata “Storm Clouds”, de Arthur Benjamin, é a peça tocada no Royal Albert Hall. Aqui tem a direcção de Bernard Herrmann, que compôs a banda sonora do filme. Adicionalmente esteve a canção “Whatever Will Be, Will Be (Que Sera, Sera)” composta por Jay Livingston and Ray Evans, cantada por Doris Day, e que valeu ao filme o Oscar de Melhor Canção Original.

“O Homem que Sabia Demais” foi um enorme sucesso comercial, cimentando a reputação de Hitchcock como mestre do suspense.

Produção:

Título original: The Man Who Knew Too Much; Produção: Paramount Pictures / Filwite Productions; País: EUA; Ano: 1956; Duração: 115 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 30 de Abril de 1956 (França), 16 de Maio de 1956 (EUA), 1 de Novembro de 1956 (Cinema S. Jorge, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Produtor Associado: Herbert Coleman; Argumento: John Michael Hayes [baseado numa história de Charles Bennett e D. B. Wyndham-Lewis]; Música: Bernard Herrmann; Fotografia: Robert Burks [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Direcção Artística: Hal Pereira, Henry Bumstead; Efeitos Especiais: John P. Fulton; Cenários: Sam Comer, Arthur Krams; Montagem: George Tomasini; Director de Produção: Frank Caffey [não creditado]; Figurinos: Edith Head; Caracterização: Wally Westmore.

Elenco:

James Stewart (Dr. Benjamin McKenna), Doris Day (Josephine Conway McKenna), Brenda de Banzie (Lucy Drayton), Bernard Miles (Edward Drayton), Ralph Truman (Inspector Buchanan), Daniel Gélin (Louis Bernard), Mogens Wieth (Embaixador), Alan Mowbray (Val Parnell), Hillary Brooke (Jan Peterson), Christopher Olsen (Hank McKenna), Reggie Nalder (Rien), Richard Wattis (Gerente), Noel Willman (Woburn), Alix Talton (Helen Parnell), Yves Brainville (Inspector da Polícia), Carolyn Jones (Cindy Fontaine).

Anúncios