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River of No ReturnSinopse:

Matt Calder (Robert Mitchum) vai buscar o filho Mark (Tommy Rettig) a um aldeamento mineiro, para viver consigo após a mãe deste ter morrido. Ali Mark trava amizade com Kay (Marilyn Monroe), uma cantora de cabaret. Quando o noivo de Kay, Harry Weston (Rory Calhoun), ganha uma mina ao jogo, o casal inicia uma viagem para Council City, para registar a licença da mina. Mas quando a sua jangada quase naufraga, são salvos por Matt, só que Weston não quer esperar mais roubando a arma e cavalo de Matt, deixando-o vulnerável ao ataque dos índios. Matt, Mark e Kay iniciam então uma viagem desesperada, para fugir aos índios e recuperarem o que é seu.

Análise:

Depois de Marilyn Monroe se ter destacado no Film Noir “Niagara” (Niagara, 1952) e na comédia musical “Os Homens Preferem as Loiras” (Gentlemen Prefer Blondes) e na comédia romântica “Como Se Conquista Um Milionário” (How To Marry A Millionaire), ambas de 1953, chegava a vez do drama, com o Western “Rio sem Regresso”, realizado por Otto Preminger.

Preminger, um realizador mais conotado com o Film Noir ou a comédia sofisticada, que com o Western, não foi uma primeira escolha, entrando na produção um pouco contrariado. Mas depois de se familiarizar com o argumento, de conhecer os protagonistas, e de ser feita a escolha dos locais de filmagens, em Alberta, no Canadá, o realizador começou a sentir uma maior ligação ao filme. Mais interessado no aspecto psicológico dos personagens, que nos clichès do Western clássico, Preminger realizou um filme que traz muito do seu cunho pessoal.

A produção decorreu com imensos incidentes, que foram desde as condições meteorológicas do local, um conflito entre Preminger e o staff de Monroe, uma lesão no tornozelo da actriz aos problemas com o álcool de Mitchum. Ainda assim a o orçamento foi aumentado, e novamente a Fox decidiu usar o sistema CinemaScope e a cor da Technicolor para um filme que pretendia grandioso e exuberante.

Sendo um filme que lida com os, muito queridos aos norte-americanos, temas de fronteira, “Rio sem Regresso” é um Western clássico. Nele assistimos ao confronto entre a honestidade do pioneiro Matt Calder (Robert Mitchum) que quer ganhar a vida pacatamente cultivando a sua terra, passando esses valores ao seu filho Mark (Tommy Rettig), e o mundo dos aventureiros, caçadores de fortunas, que procuram ouro, ou as ganham ao jogo, como o trapaceiro Weston (Rory Calhoun).

É sintomática a forma como o filme começa, mostrando-nos o pequeno aldeamento mineiro como uma terra sem lei, respeito ou religião, fruto da desmedida ambição e falta de valores humanos. Imune a isto, Matt Calder, apenas quer encontrar o seu filho, e levá-lo para a terra que tenta tornar sua, cultivável, e lugar de civilização. Carta fora do baralho é a presença de Kay (Marilyn Monroe), mulher de fama duvidosa, que canta, exibindo-se por dinheiro, e se associa com o mau-carácter que é Weston.

Mas há muito mais em Kay, e tal é percebido pelo mais inocente dos personagens, o pequeno Mark, que tem ainda tudo para aprender. O filme é por isso, de certo modo, uma passagem de conhecimento a Mark, que tem que aprender porque é mais honesta a vida que o seu pai lhe propõe, porque são perigosas as mulheres como Kay, e principalmente até onde deve ir a luta pela dignidade humana, exemplificada pelo sinistro passado do seu pai, que terá assassinado um homem pelas costas.

Esse passado é, aliás, uma reminiscência do Film Noir, e do peso do passado dessas histórias. Ele é-nos revelado aos poucos, em conversas fugidias, que culminarão com um exemplo cabal de como uma morte pode ser mais que um simples acto criminoso. Essa é a lição final de Mark, que através dela aceita e compreende finalmente o seu pai.

Todo o filme é, afinal, o culto de um certo modo de viver, enraizado no sonho americano de conquista do oeste. Nele, faz-se o elogio do homem que defende a sua casa com armas de fogo, que não hesita em lavar a sua honra procurando uma vingança, e que mata justificadamente. É um mundo que vê os índios como um empecilho que se quisessem poderiam tratar com o homem branco em paz. E é um mundo onde a mulher deve ser, na acepção bíblica, propriedade do homem (e onde uma tentativa de violação de Matt a Kay, é um mal menor). É a esse mundo que Kay se vai deixar render, e é nele que Matt a vai finalmente aceitar, quando vê, tal como Mark já vira, que nela há uma alma bondosa, honesta e sensível.

Robert Mitchum interpreta, com a impassividade que o caracteriza, o típico herói de fronteira americano, rude e inflexível, com uma moral tradicionalista, racista e machista, que se expressa por actos e não por palavras. Contrastante é a belíssima Marilyn Monroe (que canta “I’m Gonna File My Claim”, “One Silver Dollar”, “Down in the Meadow” e “River of No Return”), que incialmente vemos vestida com cores garridas, que aos poucos despe, para não hesitar em rasgar uma camisa para fazer uma ligadura, e no final, rendida, vemos deitar fora os sapatos de salto alto, numa clara aceitação do modo de vida de Matt. Ainda assim a química entre os dois é baixa, o que torna o filme um ponto menos elevado na carreira de Otto Preminger.

Filmado em paisagens naturais, com a beleza da floresta canadiana em grande destaque, “Rio sem Regresso” foi menos bem sucedido que o esperado, e Marilyn Monroe considerava-o o seu pior filme. Já Preminger não perderia oportunidades para falar mal da actriz, e decidiu não trabalhar mais sob contrato, tendo pago para se livrar de vez da Fox. O filme seria acabado por outro contratado, Jean Negulesco, que filmaria algumas cenas extra e trataria da pós-produção.

A história terá sido inspirada pelo filme de Vittori De Sica, “O Ladrão de Bicicletas” (Ladri di Biciclette, 1948).

Produção:

Título original: River of No Return; Produção: Twentieth Century-Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1954; Duração: 87 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 30 de Abril de 1954 (EUA), 6 de Julho de 1955 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Otto Preminger, Jean Negulesco [não creditado]; Produção: Stanley Rubin; Argumento: Frank Fenton; História: Louis Lantz; Música: Cyril J. Mockridge; Fotografia: Joseph LaShelle [filmado em CinemaScope, cor por Technicolor]; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler, Addison Hehr; Cenários: Walter M. Scott, Chester Bayhi; Efeitos Especiais: Ray Kellogg; Montagem: Louis R. Loeffler; Guarda-roupa: Charles Le Maire; Figurinos: Travilla; Orquestração: Edward B. Powell; Direcção de Orquestra: Lionel Newman; Caracterização: Ben Nye, Allan Snyder [não creditado].

Elenco:

Robert Mitchum (Matt Calder), Marilyn Monroe (Kay Weston), Rory Calhoun (Harry Weston), Tommy Rettig (Mark Calder), Murvyn Vye (Dave Colby), Douglas Spencer (Sam Benson).

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