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The Trouble with HarryO ano de 1955 foi não só um ano em que Alfred Hitchcock estreou dois filmes no cinema, como foi o ano de estreia da popular série televisiva “Alfred Hitchcock Apresenta”, que duraria cerca de uma década. De particular importância para essa série foi o seu segundo filme deste ano, “O Terceiro Tiro”, uma história macabra com um finíssimo humor negro. O filme foi a sua terceira produção para a Paramount, o primeiro da sua própria Alfred J. Hitchcock Productions, e a primeira colaboração de Hitchcock com o compositor Bernard Herrman. Como protagonistas estavam John Forsythe, Shiley MacLaine (a sua estreia em cinema), Edmund Gwenn e Mildred Natwick.

Sinopse:

Após sair pelo bosque para tentar matar um coelho, o Capitão Wiles (Edmund Gwenn) dá três tiros, encontrando uma lata furada, uma tabuleta atingida, e um cadáver. Acreditando ter morto o desconhecido, de nome Harry, Wiles decide enterrar o corpo. Mas antes que o consiga, uma série de gente depara com ele, desde o pequeno Arnie (Jerry Mathers), à sua vizinha Miss Gravely (Mildred Natwick), um médico míope, um vagabundo, a mãe de Arnie (Shirley MacLaine) e o pintor Sam Marlowe (John Forsythe). Só Sam se parece interessar pelo facto, e Wiles convence-o a ajudá-lo a livrar-se do corpo. Mas até ao fim do dia, as várias personagens vão trazer novos dados, que resultam em diferentes motivos contra e a favor dessa ideia. Como consequência, Harry vai ter que ser enterrado e desenterrado diversas vezes.

Análise:

1955 foi um ano importante para Alfred Hitchcock. Foi o ano da criação da sua segunda produtora, Alfred J. Hitchcock Productions, o ano em que passou a figura nacional graças à série televisiva “Alfred Hitchcock Presents” (que numa ou noutra forma, duraria até 1965), e um ano em que estrearia dois filmes no cinema, sucedendo o célebre “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief, 1955) com este “O Terceiro Tiro”. Foi finalmente, o ano em que Alfred Hitchcock se naturalizou norte-americano.

“O Terceiro Tiro” foi uma aposta pessoal do realizador, que queria baralhar o seu público oferecendo-lhes algo completamente diferente dos seus habituais thrillers criminais e dramas psicológicos cheios de suspense. A aposta foi no humor negro da comédia macabra, sugerida pela história de Jack Trevor Story, “The Trouble with Harry”, adaptada por John Michael Hayes, que ia já no seu terceiro argumento consecutivo para Hitchcock.

A fase Paramount marca, aliás, um momento de estabilidade na equipa técnica que acompanhava Hitchcock, que contava já há algum tempo com o director de fotografia Robert Burks, e uma equipa constante desde a direcção artística aos figurinos e caracterização. Nova figura no núcleo duro de Hitchcock seria o compositor Bernard Herrmann, aqui a trabalhar pela primeira vez com o realizador inglês, no início de uma colaboração frutuosa que duraria até 1964, no filme “Marnie”.

A música de Herrmann é mesmo um dos pontos altos do filme e, segundo o próprio Hitchcock, fundamental para o seu sucesso. Hermann compôs uma partitura divertida, brincalhona, que contrasta com o tema mórbido da morte. A forma como cada momento grave é pontuado com uma frase musical alegre é desconcertante, ajuda a criar a atmosfera pretendida por Hitchcock, o tal understatement de que o realizador tanto gostava (tratar com ligeireza temas de muita gravidade).

Para além da música, a fotografia é outro triunfo do filme, ela também quebrando um pouco a rotina de Hitchcock. Com a equipa a deslocar-se ao distante Vermont, Hitchcock filmou os exteriores em cenários naturais, aproveitando a luz e a paisagem outonal da floresta, para com essa sugestão de cenário idílico, cândido e paradisíaco, contrastar mais uma vez com o tema da morte.

E é de morte que o filme trata, ou melhor, de um cadáver, que é encontrado ao acaso num bosque, morto acidentalmente, e pelo qual ninguém se parece interessar. O facto vem unir quatro personagens que até então mal se conheciam, o idoso capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn), que caçava pelas redondezas e pensa ter morto Harry, sem querer; a sua vizinha Miss Gravely (Mildred Natwick), que parece mais interessada em convidar o capitão para um chá, que no facto de ter um morto aos seus pés; o pintor Sam Marlowe (John Forsythe), que num misto de irreverência e loucura vai encontrando prós e contras para qualquer ideia sobre o ocorrido; e a jovem Jennifer Rogers (Shirley MacLaine), que parece ser a única a conhecer o defunto Harry, sem que mostre mais interesse por ele que os outros.

Como se esse understatement não bastasse, o argumento, deliciosamente sinuoso, vai dar a todos os personagens motivos, tanto para quererem livrar-se do corpo de Harry, como para o quererem entregar às autoridades. Em consequência o pobre Harry acaba por ser enterrado e desenterrado várias vezes.

É sabido que Hitchcock era fã do macabro e do humor negro. A sua propensão para chocar os amigos com acontecimentos desconcertantes era mesmo anedótica. A maioria dos seus filmes contém traços deste humor e de personagens sarcásticos. Mas em “O Terceiro Tiro” é tudo isso que constitui o cerne do filme. Partindo de uma morte anunciada (logo nos créditos iniciais) e que nos é apresentada nos primeiros instantes do filme, Hitchcock dá aos seus personagens uma simples questão: o que fazer com o corpo? Só que ao contrário de outros filmes, em que essa questão constitui um problema moral, de consciência, e uma fonte de suspense no confronto com as autoridades (a culpa é um tema central na temática hitchcockiana), em “O Terceiro Tiro” é tratado como um empecilho com o mesmo peso emocional que uma nódoa na roupa. Se tema não é de todo novo, a ideia de um morto como centro de uma história é um dos mais frequentes temas hitchcockianos, de “Rebecca” (Rebecca, 1940) aos mais recentes “A Corda” (Rope, 1948) e “A Janela Indiscreta” (Rear Window, 1954), já a abordagem é desconcertante.

Os diálogos são fabulosos, pelos duplos sentidos, e pelo modo como aligeiram a situação. Não só o cadáver vai motivar duas relações amorosas, como os diversos personagens diversas vezes se irão esquecer dele, por estarem a falar de um quadro, de um muffin de mirtilos, ou de uma cama de casal (note-se como o filme termina com sussurros e sorrisos de insinuações sexuais, mesmo à frente do corpo, que já todos esqueceram). Os exemplos são demasiados para valer a pena enumerar, mas cite-se o preferido de Hitchcock, com a personagem de Mildred Natwick a perguntar ao de Edmund Gwenn “What seems to be the trouble, Captain?”, quando o vê a arrastar o corpo, como quem pergunta “Como vai hoje?”.

Os personagens são daquilo que mais fresco existe no filme. Temos o amoral Edmund Gwenn (regresso do veterano e antigo colaborador de Hitchcock), mais preocupado com a polícia que com o facto de ter morto alguém, a quem apenas diz “Porque não foste morrer onde te conhecem?”; a púdica solteirona Míss Gravely, que passa por todo o evento como uma oportunidade para cortejar o capitão; o impetuoso John Forsythe, meio cínico, meio louco, com comportamentos erráticos, como esperado num artista; ou a cândida Shirly MacLaine (brilhante na sua estreia em cinema), de ares ora mimados, ora docemente amargurados. Todos os actores brilham em personagens inesquecíveis, e completamente fora do comum.

O filme, devido ao seu tema estranho, e um humor muito mais britânico que o apreciado nos Estado Unidos, seria um fracasso inicialmente. Já nalguns países europeus, “O Terceiro Tiro” foi um estrondoso sucesso, mantendo-se muitos meses em cartaz, o que motivou uma reposição americana mais tarde, esta já preparada pela imagem que Hitchcock exibia na televisão para um público mais jovem.

“O Terceiro Tiro” foi sempre citado como um dos preferidos do realizador.

Produção:

Título original: The Trouble with Harry; Produção: Alfred J. Hitchcock Productions / Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1955; Duração: 95 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 27 de Setembro de 1955 (EUA), 15 de Março de 1966 (Cinema S. Jorge, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Produtor Associado: Herbert Coleman; Argumento: John Michael Hayes [baseado no livro de Jack Trevor Story]; Música: Bernard Herrmann; Fotografia: Robert Burks [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Direcção Artística: Hal Pereira, John B. Goodman; Montagem: Alma Macrorie; Efeitos Especiais: John P. Fulton; Cenários: Sam Comer, Emile Kuri; Director de Produção: Frank Caffey [não creditado]; Figurinos: Edith Head; Caracterização: Wally Westmore.

Elenco:

Edmund Gwenn (Capitão Albert Wiles), John Forsythe (Sam Marlowe), Shirley MacLaine (Jennifer Rogers), Mildred Natwick (Miss Ivy Gravely), Mildred Dunnock (Mrs. Wiggs), Jerry Mathers (Arnie Rogers), Royal Dano (Ajudade de Xerife Calvin Wiggs), Parker Fennelly (Milionário), Barry Macollum (Vagabundo), Dwight Marfield (Dr. Greenbow).