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To Catch a ThiefTerceiro e último filme de Grace Kelly com Alfred Hitchcock, onde a actriz (e futura princesa do Mónaco) contracenava com Cary Grant, outra das estrelas consagradas do realizador inglês. Novamente filmando para a Paramount Pictures, Hitchcock usava desta vez exteriores naturais, filmando no sul de França uma espécie de ladrão que rouba ladrão, em mais um argumento de John Michael Hayes.

Sinopse:

John Robie (Cary Grant) é um americano que vive na Riviera francesa. Antigo assaltante de jóias conhecido como O Gato, Robie redimiu-se na guerra, lutando pela resistência francesa, e ganhando assim o seu perdão. Quando uma série de roubos idênticos aos seus ocorre em Nice, Robie é o principal suspeito. Com a ajuda do agente de seguros H. H. Hughson (John Williams), que acredita na sua inocência, Robie vai tentar apanhar o verdadeiro ladrão. Para isso deve seguir de perto a lista de clientes de Hughson, começando pela milionária americana Jessie Stevens (Jessie Royce Landis) e a sua filha Frances (Grace Kelly).

Análise:

Filmado nos Estados Unidos e no sul de França, “Ladrão de Casaca” entrou para os mitos do cinema como o filme em cuja rodagem Grace Kelly conheceu o Príncipe Rainier do Mónaco, com o qual viria a casar, e por quem deixou o cinema. É por isso o terceiro e último filme da actriz com Alfred Hitchock, no qual que a actriz contracenaria com outro dos actores preferidos do realizador, Cary Grant.

Com um argumento de John Michael Hayes a partir de um livro de David Dodge, “Ladrão de Casaca” é um thriller ligeiro, de tom cómico e aventureiro. Nele John Robie (Cary Grant), um antigo ladrão de jóias, é o principal suspeito de uma série de crimes que emulam aqueles que lhe valeram a alcunha de O Gato. Tal leva Robie a deixar o conforto da sua casa de campo, e procurar desmascarar o criminoso, apanhando-o em flagrante. Esse propósito, no qual tem a cumplicidade do agente de seguros H. H. Hughson (John Williams), coloca-o em contacto com a milionária Jessie Stevens (Jessie Royce Landis), e em particular com a filha desta, Frances (Grace Kelly). Robie e Frances dançam então em torno de uma atracção mútua inconfessada, e que tem o mistério do roubo das jóias como principal entrave.

Filmado a cores e na bonita Riviera Francesa (com os Alpes Marítimos e Nice em destaque), “Ladrão de Casaca” é o regresso de Hitchcock à velha fórmula que revisitava desde o sucesso de “Os 39 Degaus” (The 39 Steps, 1935). Novamente temos um falso culpado (Grant) arrastado para a história contra a sua vontade, e cuja única salvação é resolver ele próprio o crime. Mais uma vez temos a união de um par improvável, onde a mulher é uma loura fria, que a início suspeita do protagonista, mas acaba por ajudá-lo. Cenas como a fuga automóvel eram então já típicas de Hitchcock, mas nenhuma filmada com tanta acção, com paisagem tão deslumbrante, ou protagonistas tão carismáticos.

Voltando ao tema da loura fria e sofisticada, o próprio Hitchcock, a propósito deste filme, diria a Truffaut que lhe interessavam sobretudo as mulheres que se comportam como senhoras, e depois, no quarto se transformam em putas. É esse o modelo para Grace Kelly, tão bem representado nas suas cenas iniciais. Frances, mantém-se impávida, discretamente semi-ausente, durante toda a sequência em que Robie procura ganhar a confiança da mãe dela. Dir-se-ia aborrecida, desinteressante mesmo. Isto até a mãe os deixar a sós. No momento seguinte, Frances surpreende Robie (e a nós) com um inesperado e provocador beijo na boca. Sem palavras descobrimos que há muito mais sobre aquela mulher do que nos era dado a adivinhar.

Esse carisma e charme de Grace Kelly encontra par à altura em Cary Grant, com o seu ex-ladrão sedutor e seguro de si. Ambos se mostram frios e cínicos nos seus duelos surdos que são motivo para diálogos inspirados, quase sempre cheios de duplos sentidos. “Perna ou peito”, pergunta Frances a propósito do frango, no piquenique após a delirante viagem de carro, enquanto o seu rosto diz outra coisa. Mais tarde surge a célebre cena do quarto de hotel, onde Frances coloca pela primeira vez jóias, para se mostrar a Robie (note-se o plano em que a sombra obscurece completamente o rosto de Grace Kelly, deixando o colar brilhar no seu peito). Frances oferece-se dizendo explicitamente “Toca-lhes”, que tanto pode referir-se às jóias como ao seu peito. Tudo isto enquanto lá fora estoura um orgásmico fogo-de-artifício, no que será o mais ousado que Hitchcock terá filmado no campo do erotismo.

Mas, por outro lado, ambos se mostram humanos, preocupados, e prontos a render-se à evidência de que o outro provoca em si algum efeito. Essa dança, acrobática em sentido figurado, espelha as analogias do Gato, animal sedutor, elegante, imprevisível, e acima de tudo fugidio.

O filme é, aliás, repleto de humor, quer nos já citados diálogos (algures entre a antiga Screwball Comedy, de que Grant foi um dos expoentes máximos, e a comédia romântica), quer nas actuações dos personagens secundários (sobretudo Jessie Royce Landis e John Williams), com o seu quê de caricatural. Mas é sobretudo a química entre os dois protagonistas que carrega o filme, por vezes fazendo-nos esquecer o mistério do “whodunnit” (quem cometeu o crime?) principal. Afinal, desprezando a história do crime, o título original “Apanhar um ladrão”, aplica-se menos ao resolver do mistério que permite apanhar aquela que se fazia passar por Gato (Brigitte Auber), do que ao personagem de Cary Grant, sempre só, e por fim “apanhado” pela Frances de Grace Kelly.

Com uma história simples, e directa, o filme é bastante ligeiro para o habitual de Hitchcock. É por isso um filme sem demasiado interesse para o autor. No entanto “Ladrão de Casaca” fica na memória pela fotografia, cenários, e pela beleza de Grace Kelly, mais uma vez bem servida por um guarda-roupa incrível.

O filme venceu o Oscar para Melhor Fotografia, tendo ainda recebido nomeações para Direcção Artística e Guarda-roupa.

Produção:

Título original: To Catch a Thief; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1955; Duração: 106 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 3 de Agosto de 1955 (EUA), 12 de Janeiro de 1956 (Cinema S. Jorge, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: John Michael Hayes [baseado no livro de David Dodge]; Música: Lyn Murray; Fotografia: Robert Burks [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Direcção Artística: Hal Pereira, J. McMillan Johnson; Efeitos Especiais: John P. Fulton; Cenários: Sam Comer, Arthur Krams; Montagem: George Tomasini; Director de Produção: William Davidson [não creditado], C. O. Erikson [não creditado]; Caracterização: Wally Westmore; Figurinos: Edith Head.

Elenco:

Cary Grant (John Robie), Grace Kelly (Frances Stevens), Jessie Royce Landis (Jessie Stevens), John Williams (H. H. Hughson), Charles Vanel (Bertani), Brigitte Auber (Danielle Foussard), Jean Martinelli (Foussard), Georgette Anys (Germaine).

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