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NiagaraSinopse:

Numa estância turística sobre as cataratas de Niagara, o jovial casal Polly e Ray Cutler (Jean Peters e Max Showalter) está paredes meias com o casal Rose e George Loomis (Marilyn Monroe e Joseph Cotten), que observam com perplexidade. Rose, é sensual e cheia de vida, mas é atormentada por um marido que vive num estado constantemente neurótico, em que chega a ser perigoso para si e para os outros. Embora inicialmente os Cutler tenham pena de Rose, cedo Polly vai descobrir que há mais por trás do que se vê, quando descobre Rose com um amante. Segue-se o estranho desaparecimento de George nas cataratas, que poderá ter tido por criminosa.

Análise:

E em 1953 o nome de Marilyn Monroe surgia no topo de um cartaz de cinema. O mito começava a ganhar forma, com Marilyn a exibir finalmente, e a cores, o seu famoso penteado de cor platinada, ao mesmo tempo que as câmaras mostravam a sua beleza física, vestida ricamente, em inúmeras poses de corpo inteiro

O veículo para esta criação era “Niagara” de Henry Hathaway, um Film Noir que passa por ser dos primeiros Noirs a cores. Embora sem um uso tão explícito do chiaroscuro mais típico do preto e branco, “Niagara” está embebido de temas habituais no Noir. Começando logo com uma narração off, passando para o papel da mulher fatal, o desejo sexual, os códigos amorais dos anti-heróis, e um passado que pesa no ouvir de uma música. Não faltam as sombras, as linhas rectas e as listas projectadas por janelas ou corrimões de escadas.

A história mostra-nos os desencontros do casal Rose (Marilyn Monroe) e George Loomis (Joseph Cotten), que vivem um pequeno retiro em Niagara Falls, para recapturar o sentimento da sua lua-de-mel, dois anos antes, naquele mesmo local. George vive à beira de ataques de nervos, provocados pela distância que sente em relação a Rose, e pelo ciúme que esta lhe provoca. Rose, exala sexualidade, vida, desejo e, não sendo correspondida por George, parece estar constantemente a pegar fogo, algo que nenhum homem nas redondezas consegue deixar de notar.

O enredo avança com a chegada do casal Cutler, que não podia ser maior contraste para os Loomis. Joviais, inocentes, exuberantemente alegres, Polly (Jean Peters) e Ray Cutler (Max Showalter) vão sentir-se arrastados para o seio do conflito entre Rose e George, que tentam ajudar, sem grande sucesso.

O desaparecimento (e possível morte) de George vem precipitar os acontecimentos. Sabemos nós, que acompanhamos Rose todo o tempo, que esta planeou o assassínio com o seu amante, o tal a quem a música “Kiss” é dedicada. Só que nem tudo corre como esperado, e é George (cuja perspectiva passamos a ter, após a identificação do corpo por Rose) quem volta da viagem fatal às cataratas, trazendo os sapatos do rival, para lhe assumir a identidade (nunca “to walk in someone’s shoes” foi tão literal).

O resto do filme é uma sucessão de enganos e seu desvendar. Somos primeiro enganados quanto à identidade do morto. Vemos Rose enganar a polícia ao não dizer que foi o seu amante, e não o marido, quem morreu. George engana todos ao assumir a identidade do rival. Polly continua a enganar ao apiedar-se de George, e aceitar encobrir a verdade. E, de novo, George engana Polly sobre as suas verdadeiras intenções para com a esposa. Situação a situação, cresce o suspense com cada decisão de cada personagem, até ao desenlace final em que, como obrigava a censura, os bons se salvam e os maus são castigados.

Para além do suspense, da atmosfera Noir, e da beleza das cataratas, o aspecto que mais marca “Niagara” é sem dúvida Marilyn Monroe. Então apenas com 26 anos, pode não ser ainda elogiada pela sua interpretação, mas a sua presença é já marcante. Em cada plano que a contenha tudo o resto é ofuscado. Hathaway, sabia da sensualidade que Monroe exalava a cada movimento, e usa isso ao máximo. Cada vestido, cada pose, cada olhar, são estudados. Tudo parece ser feito em prole da imagem de Marilyn, senão como se justificaria que Rose acorde já com o cabelo alinhado, maquilhagem impecável e lábios de batom vermelho intenso.

Através de Rose o tema da sexualidade é evidente. O início do filme é, aliás, suficientemente ilustrativo. George, durante a madrugada, procura refúgio nas cataratas, que vê como forças da natureza, milenares e invencíveis, pelas quais sente uma atracção mórbida. Regressa depois a casa, onde rejeita completamente a esposa, que se revela aos nossos olhos como um exemplo cabal de sensualidade e beleza feminina. Está desde logo traçado o desencontro sexual do casal, onde a feminilidade é ela também uma força da natureza, incontrolável e milenar, tal como as cataratas que George acabara de descrever, e com a qual tem a mesma relação paradoxal fruto de uma impotência que sente perante o que o rodeia.

Henry Hathaway, um realizador de perfil clássico, com nome firmado no domínio do Western, e já com um Noir de sucesso, “O Denunciante” (Kiss of Death, 1947), consegue em “Niagara” um Film Noir que é de certo modo evocativo do melhor Hitchcock. Notáveis são as suas filmagens das cataratas, bem como as várias cenas de perseguição, geralmente filmadas com tempo, sem palavras, e com muita tensão. Se Marylin Monroe tem um papel bastante limitado, não deixa de o tornar fascinante e inesquecível. Ao seu lado brilha ainda Joseph Cotten no papel do marido amargurado, neurótico, eternamente ciumento e, sem o saber, um brinquedo nas mãos da esposa. Estes são bem secundados pela interessante Jean Peters, e pelo quase caricatural Max Showalter, então creditado como Casey Adams.

“Niagara” foi um enorme sucesso de bilheteira, lançando definitivamente Marilyn Monroe como sex-symbol do cinema americano. Nos filmes seguintes seria já mencionada como estrela de primeira categoria. O mito tinha nascido.

Produção:

Título original: Niagara; Produção: Twentieth Century-Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1953; Duração: 85 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 21 de Janeiro de 1953 (EUA), 22 de Outubro de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Henry Hathaway; Produção: Charles Brackett; Argumento: Charles Brackett, Walter Reisch, Richard L. Breen; Música: Sol Kaplan; Direcção de Orquestra: Lionel Newman; Fotografia: Joseph MacDonald [cor por Technicolor]; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler, Maurice Ransford; Cenários: Stuart A. Reiss; Montagem: Barbara McLean; Figurinos: Dorothy Jeakins; Orquestração: Edward B. Powell; Caracterização: Ben Nye; Efeitos Especiais: Ray Kellogg.

Elenco:

Marilyn Monroe (Rose Loomis), Joseph Cotten (George Loomis), Jean Peters (Polly Cutler), Max Showalter [como Casey Adams] (Ray Cutler), Denis O’Dea (Inspector Starkey), Richard Allan (Patrick), Don Wilson (Mr. J.C. Kettering), Lurene Tuttle (Mrs. Kettering), Russell Collins (Mr. Qua), Will Wright (Barqueiro).

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