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Don't Bother to KnockSinopse:

Jed Towers (Richard Widmark) é um piloto aéreo, que vem até um hotel de Nova Iorque onde a sua namorada Lyn Lesley (Anne Bancroft), canta. Esta chamara-o para lhe dizer que estava tudo terminado entre eles. Já no seu quarto de hotel, Jed observa uma rapariga na janela em frente. Ela é Nell (Marilyn Monroe) babysitter por uma noite da pequena Bunny (Donna Corcoran). Após combinarem um encontro pelo telefone, Jed dirige-se ao quarto de Nell. Mas cedo Jed percebe que nem tudo está bem com Nell, que o começa a tratar como se fosse um antigo namorado seu, e mostra um enorme angústia e desespero contra tudo o que os interrompa. Jed começa então a temer que Nell se faça mal a si própria, ou mesmo à pequena Bunny, ao mesmo tempo que tenta livrar-se daquela situação.

Análise:

Depois do fracasso da comédia romântica musical “Ladies of the Chorus” (1948), de Phil Karlson, Marilyn Monroe, viu-se de novo sem contrato, e teve de iniciar nova travessia no deserto. Esta passou por pequenos papéis, algumas vezes com poucas linhas, em filmes menores, onde nem sempre era creditada. Excepções foram filmes importantes como “Quando a Cidade Dorme” (The Asphalt Jungle, 1950) de John Huston e “Eva” (All About Eve, 1950) de Joseph L. Mankiewicz, onde se conseguiu destacar, apesar dos curtos papéis. Seguiram-se algumas comédias, em que Marilyn Monroe era estereotipada como a secretária decorativa, ou o interesse erótico de alguém, dos quais se destaca o célebre “A Culpa Foi do Macaco” (Monkey Busyness, 1952) de Howard Hawks, com Cary Grant e Ginger Rogers.

Um novo fôlego surgiu em 1952, pelas mãos do realizador inglês Roy Ward Baker (que mais tarde faria carreira no cinema de terror, nomeadamente em filmes góticos da Hammer), no filme “Os Meus Lábios Queimam”. Ao contrário do que era previsível, Baker escolheu Marilyn para um papel dramático, em que esta interpretava uma jovem instável, com um historial de tentativa de suicídio seguida de internamento numa instituição psiquiátrica, e que mostrava não estar ainda curada.

Não negando a sensualidade evidente de Marilyn Monroe, que no filme é usada como um atractor para o personagem de Richard Widmark, a interpretação da actriz (e todo o filme) assenta no carácter instável e imprevisível da sua Nell Forbes, que como Jed Towers (Richard Widmark) uma vez diz, tão depressa é veludo, como lixa.

Em resumo, Nell Forbes é chamada ao hotel onde trabalha o seu tio Eddie (Elisha Cook Jr.), para ser babysitter da pequena Bunny (Donna Corcoran). Mas Nell sofre ainda pela morte do seu namorado, e a ansiedade por encontrar alguém fá-la usar as roupas, joias e perfume da mãe de Bunny, e aceitar a visita de um outro hóspede, Jed, que a vira da janela do seu quarto, actuando como se fosse uma milionária.

Jed está de ressaca porque a namorada (Anne Bancroft) o deixou, e planeia usar o seu charme em Nell, quando começa a intuir que algo está mal. Primeiro apercebe-se das mentiras de Nell sobre a sua identidade. Depois descobre que Nell é apenas a babysitter de Bunny, que está assustada por ver um estranho no quarto. Finalmente apercebe-se de que Nell já o toma pelo antigo namorado, e está numa escalada de negação e desespero, fazendo tudo para que ele fique num papel por ela delineado, e ameaçando a própria vida e a de Bunny.

O filme torna-se aos poucos uma escalada de suspense (com os acontecimentos a sucederem-se em tempo real), com diversas situações de tensão, e um constante enlear do enredo, de modo a nunca deixar que Jed saia do quarto. São diversas as peripécias e volte-faces, que tornam toda a longa sequência do quarto (o verdadeiro centro do filme) sempre imaginativa e surpreendente.

O maior destaque vai, como já indiciado, para a interpretação de Marilyn Monroe, que consegue perturbar, dando-nos sempre a ideia de que a sua Nell não está completamente presente. Da auto-negação ao desespero, extrema instabilidade, tendências suicidas e mesmo acessos de psicopata, Nell vai-nos surpreendendo e convencendo situação após situação, de uma frágil candura inicial, a uma impulsividade criminosa na parte final.

Ao seu lado estão as interpretações sólidas de Donna Corcoran, Elisha Cook Jr. e Richard Widmark. Em especial Widmark, que nos dá uma segunda linha de enredo. Inicialmente é visto como frio, cínico, desligado (bem ao jeito dos personagens que se habituou a interpretar nos Noirs que lhe deram fama), factores que levam a namorada a desistir dele. Mas no final, fruto da viagem emocional que é o serão passado na companhia de Nell, o seu Jed torna-se preocupado, atencioso, o que o leva, sem tentar, a reconquistar a namorada.

“Os Meus Lábios Queimam” foi a estreia de Anne Bancroft no cinema, e para os críticos foi a prova de que Marylin Monroe era uma actriz com uma versatilidade ainda muito por explorar. O filme pode não ter a classe, ou atingir a perfeição de um thriller de Hitchcock, mas é ainda assim uma história de suspense extremamente bem construída.

Produção:

Título original: Don’t Bother To Knock; Produção: Twentieth Century Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1952; Duração: 73 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: 18 de Julho de 1952 (EUA), 16 de Fevereiro de 1954 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Roy Ward Baker; Produção: Julian Blaustein; Argumento: Daniel Taradash [a partir do livro “Mischief” de Charlotte Armstrong]; Direcção Musical: Lionel Newman; Fotografia: Lucien Ballard [preto e branco]; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler, Richard Irvine; Cenários: Thomas Little, Paul S. Fox; Montagem: George A. Gittens; Figurinos: Travilla; Orquestração: Earle Hagen, Bernard Mayers; Caracterização: Ben Nye; Efeitos Especiais: Ray Kellogg.

Elenco:

Richard Widmark (Jed Towers), Marilyn Monroe (Nell Forbes), Anne Bancroft (Lyn Lesley), Donna Corcoran (Bunny Jones), Jeanne Cagney (Rochelle), Lurene Tuttle (Ruth Jones), Elisha Cook Jr. (Eddie Forbes), Jim Backus (Peter Jones), Verna Felton (Mrs. Ballew), Willis Bouchey (Joe, O Barman), Don Beddoe (Mr. Ballew).

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