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Rear WindowO segundo filme de Alfred Hitchcock com Grace Kelly colocou-a a contracenar com outro actor fetiche do realizador, James Stewart. Novamente filmando uma história de espaços fechados, Hitchcock adaptou, desta vez, uma obra do célebre escritor de Noir Cornell Woolrich, para fazer um dos thrillers mais famosos de sempre. O filme foi também o primeiro de Hitchcock para a Paramount Pictures, depois de uma ligação de 6 anos e 6 filmes à Warner Bros. O argumento seria o primeiro de quatro consecutivos que John Michael Hayes escreveu para Hitchcock.

Sinopse:

L. B. ‘Jeff’ Jefferies (James Stewart) é um fotógrafo profissional que um acidente deixou em casa com uma perna partida. No seu ócio, por não poder sair, Jeff vai observando o pátio das traseiras, distraindo-se com a rotina dos vizinhos. A início isso causa estranheza à sua terapeuta Stella (Thelma Ritter), e à namorada, a colunista de moda Lisa (Grace Kelly). Só que aos poucos estas vão começando a acreditar na teoria de Jeff, de que um dos vizinhos (Raymond Burr) matou a esposa no prédio da frente. Com a ajuda das duas cúmplices, Jeff vai tentar provar o crime, e convencer o amigo detective Thomas J. Doyle (Wendell Corey), que pensa que Jeff sobre apenas de depressão.

Análise:

Como acontece com outros filmes de Alfred Hitchcock, “A Janela Indiscreta” começa por ser um exercício de estilo, uma espécie de desafio que o realizador se auto-propôs: filmar todo um filme de uma janela. Se todo o cinema é voyeurismo – como o mestre defendia, – em que somos convidados a olhar para vidas alheias, “A Janela Indiscreta” é o cúmulo desse voyeurismo, poucas vezes tão claramente assumido. No filme L. B. Jeffries (James Stewart) somos nós próprios, e de cada vez que um personagem (a enfermeira, a namorada, o amigo detective) o adverte de que olhar para a privacidade dos outros é um crime, somos nós que somos advertidos. Mas como uma perversão, tal como Jeffries e nós, também os personagens se deixam arrastar para esse voyeurismo que nos fascina de modo quase irracional.

Se Jeffries guia o nosso olhar, a sua imobilidade (preso a uma cadeira de rodas devido a uma perna partida) é o pretexto para que não deixemos aquela sala de onde observamos todos os acontecimentos. Desse ponto de vista dir-se-ia que há quase dois filmes. Há o filme do que se passa no apartamento de Jeffries, e há o filme do que se passa no exterior, visto da janela das traseiras.

O que se observa nesse segundo filme é um pátio interior, e diversas vidas, visíveis através das suas próprias janelas, que funcionam como ecrãs de cinema que nos mostram curtos filmes mudos, plenos de acção, mas sem diálogos. O modo como se observa é, como dito atrás, através de Jeffries. E nesse filme do exterior vemos só o que Jeffries vê, e quando ele vê, não tendo por isso imagem do pátio quando ele dorme ou se distrai com outra coisa. Tal dá-nos um uso do ponto de vista subjectivo, como poucas vezes foi filmado.

Desde a primeira imagem do filme (o pátio), a câmara move-se com Jeffries, geralmente em panorâmicas semi-circulares que fazem o varrimento das várias janelas, até regressar dentro de casa. É ali que se faz a síntese, e é através das expressões de James Stewart que nos interrogamos, intrigamos ou inquietamos, nessa ligação público-personagem que dura todo o filme. E se se deve destacar a força do olhar de James Stewart, é por ser um complemento perfeito para os tais filmes mudos projectados de cada janela, em tantas sequências em que as imagens nos contam a história sem precisarmos de palavras. Note-se a título de exemplo toda a sequência inicial, em que do pátio passamos ao interior do apartamento, descobrimos o gesso de Jeffries, a câmara partida, e as fotos premiadas. É um exemplo eloquente, como tantos outros que recheiam o filme e a obra de Hitchcock.

Com um humor que por vezes é bem negro, assistimos às vidas dos vizinhos. Do mais banal à simples curiosidade, do adivinhar de focos de tensão à simpatia que sentimos, vamos acompanhado histórias, as quais pouca importância têm para a história principal, a não ser o efeito de nos (e a Jeffries) distrair em momentos em que toda a atenção é crucial.

E se a pretensa morte de alguém na vizinhança parece motivo suficiente para nos autorizarmos a esse voyeurismo, que assim ganha uma dimensão humana, tal é apenas um logro. Já antes de tais indícios o espiar dos vizinhos parecia um vício impossível de resistir. Além disso, como os personagens reconhecem, chega o momento em que não se preocupam com a vida da suposta vítima, mas o que mais temem é ela não ter sido assassinada. É aqui que reside o toque da atmosfera Noir que este filme também carrega. Jeffries e a namorada Lisa (Grace Kelly) assumem a amoralidade do fascínio com a história de crime. É essa que os guia, e não a preocupação por alguém que nunca conheceram.

Curioso ainda como essa história de voyeurismo e crime, começa como uma distracção para Jeffries evitar a prisão que vê no possível casamento com Lisa (ele que já vê o seu retiro forçado como uma prisão), para ser ela a unir o casal. E é a partir do momento em que Lisa acredita em Jeffries, que os dois deixam de ser um par em litígio e se tornam um casal. Tal como é o contínuo aventureirismo de Lisa que conquista Jeffries definitivamente. Note-se os simbolismos da ligação entre Jeffries e Lisa presentes na história. Todas as histórias que Jeffries vê são, de certo modo, vertentes diversas das relações amorosas. Finalmente é uma aliança que fornece a prova final ao casal de detectives amadores.

Deve destacar-se o trabalho brilhante de James Stewart e Grace Kelly. Ele perfeito no papel do obstinado e enérgico detective amador, vítima de uma condição que o aprisiona à cadeira de rodas, funcionando como tradutor e indutor das nossas emoções e relação com a história. Ela perfeita no seu estilo aristocrático, que irradia beleza, charme e confiança, mas uma princesa que rapidamente troca os sapatos de cristal pelas botas de montanha. O autêntico jogo de gato e de rato que, por entre beijos, jogam na primeira metade do filme, é magistral. Destaque ainda para Thelma Ritter (Stella), que traz as frases mais mórbidas e críticas mais mordazes.

“A Janela Indiscreta” tornou-se um dos mais emblemáticos filmes de Hitchcock, um dos seus filmes mais bem sucedidos e elogiados de sempre, um tributo ao voyeurismo, e uma das suas mais magistrais lições de bem filmar.

Produção:

Título original: Rear Window; Produção: Paramount Pictures / Patron Inc.; País: EUA; Ano: 1954; Duração: 112 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 4 de Agosto de 1954 (EUA), 23 de Março de 1955 (Cinema Império, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: John Michael Hayes [adaptado do conto “It Had to Be Murder” de Cornell Woolrich]; Música e Direcção de Orquestra: Franz Waxman; Fotografia: Robert Burks [filmado em Eastman, cor por Technicolor]; Direcção Artística: J. McMillan Johnson, Hal Pereira; Montagem: George Tomasini; Cenários: Sam Comer, Ray Moyer; Director de Produção: C. O. Erikson; Figurinos: Edith Head; Caracterização: Wally Westmore; Efeitos Especiais: John P. Fulton.

Elenco:

James Stewart (L. B. ‘Jeff’ Jefferies), Grace Kelly (Lisa Carol Fremont), Wendell Corey (Tenente Detective Thomas J. Doyle), Thelma Ritter (Stella), Raymond Burr (Lars Thorwald), Judith Evelyn (Miss Lonelyhearts), Ross Bagdasarian (Compositor), Georgine Darcy (Miss Torso), Sara Berner (Mulher na Escada de Incênndios), Frank Cady (Homem na Escada de Incênndios), Jesslyn Fax (Miss Aparelho Auditivo), Rand Harper (Recém-casado), Irene Winston (Mrs. Emma Thorwald), Havis Davenport (Recém-casada).