Etiquetas

, , , , , , , , , , , , , ,

MahlerO compositor Gustav Mahler (Robert Powell) regressa de comboio a Viena, com a sua esposa Alma (Georgina Hale). A viagem serve como um momento de reflexão, na qual Mahler revê episódios da sua infância, a sua relação tempestuosa com a esposa, a luta para triunfar musicalmente, a origem das suas inspirações, e a sua polémica conversão ao catolicismo para garantir lugares na música vienense.

Análise:

Ken Russell foi um realizador inglês que ficou conhecido, entre outras coisas, pela série de filmes que dedicou a compositores famosos. São os casos de Tchaikovsky, com “Tchaikovsky, Delírio de Amor” (The Music Lovers, 1970), Liszt “Lisztomania” (Lisztomania, 1975) e Bruckner “The Strange Affliction of Anton Bruckner” (1990). Neles, ao invés de procurar apresentar uma biografia com rigor factual, Russell procurou descrever o interior dos seus personagens, de modo exuberante, e por vezes surreal, quase sempre com exploração da sexualidade do protagonista.

“Mahler, Delírio Fantástico” é dedicado ao influente compositor e maestro, de origem checa, Gustav Mahler (1860-1911), que esteve na transição entre o romantismo do século XIX e o modernismo musical do século XX. O filme não foge à forma habitual de Russell, sendo, no entanto, um dos filmes mais contidos do realizador.

A pretexto de acompanharmos a viagem de comboio de regresso a Viena do casal Mahler, depois de o compositor deixar Nova Iorque repentinamente, vemos Gustav Mahler (Robert Powell) reflectir sobre momentos da sua vida. Estes surgem na forma de memórias em flashbacks, ou simplesmente delírios e sonhos de carácter mais abstracto, e por vezes surreal.

Através desses episódios assistimos à relação tumultuosa de Mahler com a esposa Alma (Georgina Hale), nos quais percebemos como ela foi ficando esquecida à sua sombra, sem espaço para se recriar musicalmente, até se tornar uma mera serva do marido. Vemos a infância de Mahler numa família judia que esperava que o talento do jovem Gustav (Gary Rich) viesse a retirá-los da pobreza. Vemos ainda a busca de Mahler pelas suas fontes de inspiração, a natureza, a perda da inocência, a morte. Vemos episódios familiares como a morte da sua filha, e finalmente a conversão ao catolicismo, que lhe abriria portas profissionais, numa altura em que o anti-semitismo crescia em Viena.

De particular destaque são dois desses delírios/sonhos. O primeiro (e sequência inicial do filme) mostra-nos um corpo feminino (Alma) completamente envolto numa matéria esponjosa, da qual se liberta, como uma crisálida de um casulo, para rastejar até uma rocha que aparenta ter a cara de Mahler, e o beijar. O segundo retrata a conversão de Mahler ao catolicismo, mostrando-nos Cosima Wagner (Antonia Ellis), vestida de cabedal e símbolos nazis, apelando a Mahler para que se liberte da estrela de David (que estre destrói e transforma numa espada), para o pregar numa cruz com punhais. Essa sequência surge-nos como uma série de vinhetas de filme mudo (com intertítulos), para ser vocalizada na parte final, com música de Wagner, e palavras de anti-semitismo, com os personagens a comportarem-se caricaturalmente, e numa estética panfletária.

Através dos sonhos, obsessões e lutas internas de Mahler, vai-nos chegando a sua música, como que numa tradução em tempo real dos estados de espírito que vemos sucederem-se na tela. Esta, conduzida por Bernard Haitink, à frente do Koninklijk Concertgebouworkest, é o fio condutor do filme, como que uma viagem pela mente do compositor.

Robert Powell, que se tornaria internacionalmente famoso pouco depois na sua interpretação de Cristo na mini-série “Jesus de Nazaré” (Jesus of Nazareth, 1977) de Franco Zeffirelli, traz-nos um Mahler hiper-sensível, à eira de um ataque de nervos, cujo propósito de condensar o mundo e a natureza na sua obra parece constantemente minado pela sua incapacidade de os compreender.

“Mahler, Delírio Fantástico” teve apresentação mundial no Festival de Cannes.

Produção:

Título original: Mahler; Produção: Goodtimes Enterprises / Visual Programme Systems; Produtores Executivos: Sanford Lieberson, David Puttnam; País: Reino Unido; Ano: 1974; Duração: 110 minutos; Distribuição: VPS-Goodtimes (Reino Unido), Gaumont Distribution (França), Gaumont S.A.B. (Bélgica), Mayfair Films (EUA); Estreia: Maio de 1974 (Festival de Cannes, França), 24 de Outubro de 1974 (Bélgica), 15 de Novembro de 1974 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ken Russell; Produção: Roy Baird; Argumento: Ken Russell; Fotografia: Dick Bush [cor por Technicolor]; Director de Produção: John Comfort; Música: Gustav Mahler, Richard Wagner, Dana Gillespie; Figurinos: Shirley Russell; Direcção Artística: Ian Whittaker; Montagem: Michael Bradsell; Direcção Musical: John Forsyth, Bernard Haitink; Caracterização: Peter Robb-King; Efeitos Especiais: John Richardson.

Elenco:

Robert Powell (Gustav Mahler), Georgina Hale (Alma Mahler), Lee Montague (Bernhard Mahler), Miriam Karlin (Tia Rosa), Rosalie Crutchley (Marie Mahler), Gary Rich (Jovem Gustav), Richard Morant (Max), Angela Down (Justine Mahler), Antonia Ellis (Cosima Wagner), Ronald Pickup (Nick), Peter Eyre (Otto Mahler), Dana Gillespie (Anna von Mildenburg), George Coulouris (Doutor Roth), David Collings (Hugo Wolfe), Yarrow (Avô).

Anúncios