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Sinopse:

A Dr. Ellie Arroway (Jodie Foster) é uma astrónoma que desde a infância se interessou por comunição à distância, e que desde a morte dos pais se passou a dedicar à busca de vida extraterrestre. O seu trabalho é, no entanto, constantemente minado pelo seu superior da National Science Foundation (NSF), David Drumlin (Tom Skerritt), levando-a a procurar financiamento privado junto do magnata S. R. Hadden (John Hurt). É quando trabalha em Arecibo, que Ellie descobre uma comunicação que vem de Vega, a 26 anos luz. Desde logo os políticos, e o próprio Drumlin, tomam controlo do projecto, tendo que decidir o que fazer com a comunicação, e com os esquemas que a integram, sem descurar as implicações religiosas, aqui representadas pelo teólogo Palmer Joss (Matthew McConaughey).

Análise:

Carl Sagan fica para a história como um dos mais reputados comunicadores no domínio da Física e Astronomia. A série televisiva “Cosmos”, e o livro homónimo que a acompanhou, tornaram-no conhecido internacionalmente, e um exemplo para muitos aprendizes de cientistas. Para além dos seus vários livros de divulgação científica, das suas inúmeras conferências, e do seu trabalho científico, nomeadamente na NASA, Carl Sagan escreveu ainda um célebre romance, editado em 1985, “Contacto”.

Robert Zemeckis, um dos realizadores da escola spielberguiana, já com experiência no cinema de acção, aventura e até ficção científica, realizou em 1997 um filme baseado na obra de Sagan, no qual o próprio (com a sua colaboradora e esposa Ann Druyan) participou como produtor, mas que infelizmente não veria terminado, já que faleceu em 1996. O projecto começou ainda nos anos 1980, com Roland Joffé como realizador, mas uma série de divergências acabou por o interromper, até à reactivação, já com Zemeckis ao leme, a partir de uma história delineada pelo próprio Sagan e pela esposa Ann Druyan.

Carl Sagan sempre deixou a imagem de alguém fascinado pelas perguntas, e com coragem de admitir o quão pouco sabemos sobre o cosmos que habitamos. Isso transparece nesta sua obra, que lida com um sonho do autor, a comunicação com seres estra-terrestres. Avesso a sensasionalismos, Sagan não imaginava naves vistosas, invasões violentas, ou contactos mirabolantes. Antes, acreditava que tal aconteceria da forma mais prosaica possível, como pequenas mensagens capturadas por antenas, mensagens essas enviadas de muitos anos-luz de distância.

É essa a premissa que lança “Contacto”. Um conjunto de sinais que não podem ser aleatórios, mas sim produto de uma mente inteligente, é captado pela preserverante astónoma do programa SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), Dra. Ellie Arroway (Jodie Foster). A partir da descoberta, Sagan guia-nos por alguns princípios da Física, para nos mostrar como encriptar uma mensagem num sinal de rádio, e provoca-nos com o quanto a ideia de um contacto extra-terreste poderia provocar no planeta Terra. E seguindo fielmente Sagan, Robert Zemeckis mostra-nos a apropriação política, o crescendo religioso, o fanatismo e histeria pública. E principalmente, Zemeckis mostra-nos o duelo entre aquilo que Carl Sagan julgava serem as duas mais importantes crenças humanas: a religião e a ciência.

Este duelo, que constitui um dos pontos principais do livro, é no filme dramatizado pela posição do quase-padre sedutor, Palmer Joss (Matthew McConaughey), que mantém uma relação ambígua com Ellie. Através dos diálogos entre ambos assistimos ao contrapor de argumentos que tendem, por um lado, a glorificar ora a ciência ora a religião. Para Ellie, a ciência é o único sistema lógico capaz de eliminar falsos conceitos e procurar a verdade. Para Palmer, a religião é a prova de uma capacidade transcendente do homem, a fé, que nos une como espécie e nos dá um lugar especial no universo. Esse debate, inicialmente académico, ditará a escolha do enviado humano ao encontro dos emissores da extraordinária mensagem.

Sendo Sagan um homem da ciência, habituado a lutar contra preconceitos, crendices, dogmas e fundamentalismos, não é de estranhar que as palavras de Ellie sejam as suas. Espanta sim, a conclusão final, em que Ellie fica sem uma explicação a dar, que não seja acreditar naquilo que sente como real, quase que numa vénia à fé, mesmo que em sentido lato, e não necessariamente religioso.

Essa é uma das armas do filme de Zemeckis, que consegue provocar, estimular o pensamento, questionar, e ainda assim, quando dá algumas respostas, estas são uma nova provocação. Fazendo uso de efeitos especiais irrepreensíveis, Zemeckis não resiste em dramatizar momentos que no livro não merecem tal tratamento. Assim, vemos altercações entre personagens, corridas desenfreadas e enormes explosões, ao gosto dos fãs do cinema de acção. Isso não impede que a história mantenha muito da poesia e rigor científico com que Sagan tratava os seus trabalhos.

Jodie Foster, que conheceu a inspiração de Carl Sagan para o seu papel (a antiga líder do Project Phoenix do SETI, Dra. Jill Tarter), é o motor do filme, dando à história um comovente lado humano. Através dela colocamos questões como a citada busca humana entre razão e emoção, ou buscamo essa verdade universal de que só diminuimos a solidão partilhando-nos uns com os outros. Matthew McConaughey é também convincente num personagem atípico, difícil de definir, algures entre o religioso confessional e o aventureiro romântico.

O filme conta com curiosos clips do então presidente Bill Clinton, usando discursos verdadeiros, adaptados ao contexto do filme.

“Contacto”, que foi bem recebido pela crítica e pelo público, venceu o prémio Hugo, de ficção científica, tendo sido nomeado para vários outros prémios.

Produção:

Título original: Contact; Produção: Warner Bros. / South Side Amusement Company; Produtores Executivos: Joan Bradshaw, Lynda Obst; País: EUA; Ano: 1997; Duração: 143 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 11 de Julho de 1997 (EUA), 17 de Outubro de 1997 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert Zemeckis; Produção: Robert Zemeckis, Steve Starkey; Co-Produção: Carl Sagan, Ann Druyan; Produtores Associados: Rick Porras, Steven J. Boyd; Argumento: James V. Hart, Michael Goldenberg; História: Carl Sagan, Ann Druyan [baseada no livro homónimo de Carl Sagan]; Fotografia: Don Burgess [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Design de Produção: Ed Verreaux; Montagem: Arthur Schmidt; Música: Alan Silvestri; Figurinos: Joanna Johnston; Efeitos Visuais: Ken Ralston; Direcção Artística: Lawrence A. Hubbs, Bruce Crone; Cenários: Michael J. Taylor; Caracterização: Hallie D’Amore; Efeitos Especiais: Allen Hall.

Elenco:

Jodie Foster (Eleanor Arroway), Matthew McConaughey (Palmer Joss), James Woods (Michael Kitz), John Hurt (S. R. Hadden), Tom Skerritt (David Drumlin), William Fichtner (Kent), David Morse (Ted Arroway), Angela Bassett (Rachel Constantine), Geoffrey Blake (Fisher), Max Martini [como Maximilian Martini] (Willie), Rob Lowe (Richard Rank), Jake Busey (Joseph), Jena Malone (Jovem Ellie), Tucker Smallwood (Director da Missão), Sami Chester (Vernon), Timothy McNeil (Davio).