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I ConfessDepois de um ano em que não estreou nenhum filme (algo que só acontecera em 1933), chegava aquele que era a mais longa produção de Alfred Hitchcock, após um período marcado por pausas, como a do casamento da sua sua filha Patricia, e da dissolução da Transatlantic Pictures, que Hitchcock fundara com Sidney Bernstein. Continuando a trabalhar para a Warner Bros., Alfred Hitchcock mantinha-se no domínio do preto e branco, agora que encontrara o director de fotografia que mais tempo ficaria consigo, Robert Burks. O novo filme, era aquele em que Hitchcock mais se aproximaria do imaginário religioso, numa história de culpa, baseada numa peça de teatro do início do século. Como actores, Hitchcock contava agora com Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl Malden, Brian Aherne e O. E. Hasse.

Sinopse:

Após matar o Sr. Villette no seu escritório, vestido de padre, o imigrante alemão Otto Keller (O. E. Hasse) corre para a igreja onde se confessa com o padre Logan (Montgomery Clift), o homem que o acolheu no país. Após a confissão do crime, Otto não tenciona entregar-se, o que cria uma crise de consciência no padre Logan, que o leva a interessar-se pelo crime. Este interesse desperta a curiosidade do Inspector Larrue (Karl Malden), que após um testemunho que indica que foi um padre a cometer o crime, começa a suspeitar de Logan. A salvação de Logan poderá ser a sua ligação secreta a Ruth Grandfort (Anne Baxter) que, tal como a confissão de Otto, Logan sente que deve deixar de fora de todos os inquéritos.

Análise:

“Confesso!” terá sido a produção mais longa de Alfred Hitchcock até ao momento. Tratava-se de um projecto antigo, que Hitchcock já acalentava há cerca de oito anos, e que passara já pelas mãos de uma dúzia de argumentistas. O ano de 1952 foi ainda o ano em que Patricia Hitchcock casou, e em que Alfred dissolveu a sua produtora Transatlantic Pictures que dirigia em parceria com Sidney Bernstein (ambos foram produtores deste filme, no entanto). Por todas essas razões, 1952 seria um ano em branco na carreira do realizador, que viu o seu novo filme estrear apenas no ano seguinte.

Filmando parciamente no Canadá, Hitchcock baseou-se numa peça de teatro francesa de 1902, de Paul Anthelme (da qual pouco se sabe quanto a qualquer possível encenação). Desde sempre atraído pela ideia da culpa e do falso culpado, Alfred Hitchcock construiu uma história com base na simples ideia de que o que é dito é confissão a um padre, jamais poderá ser revelado. Mesmo (como é o caso) que o próprio padre precise disso para salvar a sua vida.

Com essa premissa tão simples, o filme é bastante directo, iniciando-se com a visão do homem assassinado; a fuga, do local, de alguém vestido de padre; e a confissão deste, o empregado da igreja Otto Keller (O. E. Hasse) ao padre Logan (Montgomery Clift). Em poucos minutos fica definido o cenário e, à boa maneira de Hitchcock, é-nos poupada qualquer exposição supérflua. Não nos interessa o motivo ou modo como o crime ocorre, apenas nos interessa o que um padre ouviu em confissão, e que não pode fazer nada quanto a isso.

A partir de então o filme é o ponto de vista do padre Logan, e o seu dilema moral. Deve ser fiel aos seus votos, ou fazer o que a justiça dos homens espera de si? Esse dilema poderia parecer-nos suficientemente impessoal para que merecesse mais que uns minutos da nossa atenção. Só que, após uma visita ao local do crime, o padre Logan encontra a misteriosa Ruth Grandfort (Anne Baxter), que ao saber da morte reage com “estamos livres”. Essa revelação torna-se um novo foco de curiosidade, e é aliás esse o mote de todo o filme, no qual, situação após situação, vamos compreendendo que há sempre mais do que aquilo que os olhos vêem.

Essa é a variação que Hitchcock faz da história do falso culpado, que já fizera em “O Desconhecido do Norte-Expresso” (Strangers on a Train, 1951). Se por um lado o padre Logan começa a ser suspeito do crime que sabemos que não cometeu, por outro lado começamos a compreender que beneficiou desse crime. Logan é inocente no acto, culpado no desejo. É a transferência de culpa, aqui formalizada no acto da confissão (o pecado passou do pecador para quem o absolve). Talvez o seu dilema não seja tanto sobre o que fazer com a confissão de Otto, mas sim o que fazer com a sua culpa de pensamento.

O padre Logan (que é como dizer Montegomery Clift) é assim o fulcro de toda a história, razão porque é no seu rosto, nos seus movimentos, nos seus silêncios, que se centra, não só o filme, mas os olhares de quase todos os personagens, do inquisitivo inspector Larrue (Karl Malden), ao amedontrado casal Keller (note-se a sequência do pequeno-almoço em que os padres falam de temas inocentes, mas o olhar da esposa de Keller se centra sobre os movimentos do comprometido Logan), passando pela pessoa que mais empatia sente com ele, a sua antiga amante Ruth. Nesse sentido, o filme é dos mais negros da carreira de Hitchcock, com planos pesados e dramáticos, acentuando um mundo de sombra e escuridão.

Com uma clara iconografia cristã (note-se, na sequência do tribunal, a imagem de Cristo na cruz, sobre a cabeça de Logan, no momento em que lhe é pedido que fale de Keller), é impossível não ver paralelos entre Logan e Jesus Cristo. O padre, centro das atenções, carrega os pecados dos outros, sacrifica-se por eles, e é julgado em público, por um povo que acaba por desprezá-lo, e o faz caminhar um calvário de quase agressão física. Notáveis são as sequências em Logan caminha pela cidade, e tudo o faz imaginar o seu fim (um cartaz de cinema com alguém algemado, um manequim sem cabeça, uma imagem de Cristo a carregar a cruz).

Mas, ao contrário do que acontece na peça original, em que o padre é enforcado, a censura de Hollywood não permitia tal final, pelo que Hitchcock tem de filmar um final feliz, onde tudo se resolve da melhor maneira, castigando os maus, inocentando os bons, sem que Logan chegue a violar o segredo de confissão.

Montgomery Clift interpreta brilhantemente o padre católico, inocente, mas em conflito consigo mesmo. No entanto, o seu método de actuar, intuitivo e visceral, foi um choque para Hitchcock, que precisava de ter tudo controlado, e cada plano ou linha de diálogo coreografados até ao mínimo detalhe. O facto de Clift ter problemas com a bebida foi outro factor de conflito com o realizador. Hichtcock teria pretendido outros actores para o papel, tendo proposto à Warner, Laurence Olivier, James Stewart e Cary Grant.

No papel feminino, a primeira escolha de Hitchcock foi Anita Björk, que ele vira em “Vertigem” (Fröken Julie, 1951) de Alf Sjöberg, mas quando ela chegou aos Estados Unidos com o amante, e um filho dessa ligação não oficial, a Warner Bros. recusou tê-la no filme. O papel passaria a Anne Baxter, que dá alma e sinceridade à torturada Ruth Grandfort, responsável pela segunda grande confissão do filme, o passado de Ruth e Logan, que vemos em flashback, e que mais que uma vez Logan tenta silenciar.

Destaques ainda para Karl Malden, o insistente e irrritante polícia (de notar como em Hitchcock a polícia é quase sempre arrogante, e segue sempre pistas erradas); Brian Aherne, na pele do procurador público para quem tudo é um jogo (note-se como é introduzido nas suas primeiras cenas, a jogar jogos infantis); e O. E. Hasse, o criminoso que passa a frio chantagista e por fim cai num desespero quase psicopático.

O filme não foi muito bem sucedido junto do público (segundo Hitchcock peca por falta de humor, e porque o público não o entendia, por não entender o poder do segredo de confissão), mas foi muito elogiado pela crítica, em especial pela geração da Nouvelle Vague francesa, que o viu como uma obra de arte.

Produção:

Título original: I Confess; Produção: Warner Bros. Pictures; País: EUA; Ano: 1953; Duração: 91 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 12 de Fevereiro de 1953 (EUA), 30 de Dezembro de 1953 (Cinema Império, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado], Sidney Bernstein [não creditado]; Argumento: George Tabori, William Archibald [baseado na peça “Nos Deux Consciences” de Paul Anthelme]; Música: Dimitri Tiomkin; Fotografia: Robert Burks [preto e branco]; Direcção Artística: Ted Haworth [como Edward S. Haworth], John Beckman [não creditado]; Montagem: Rudi Fehr; Cenários: George James Hopkins; Figurinos: Orry-Kelly; Director de Produção: Sherry Shourds; Produtora Associada: Barbara Keon; Caracterização: Gordon Bau; Direcção Musical: Ray Heindorf; Efeitos Especiais: Richard C. Smith [não creditado].

Elenco:

Montgomery Clift (Padre Michael Logan), Anne Baxter (Ruth Grandfort), Karl Malden (Inspector Larrue), Brian Aherne (Willy Robertson), O. E. Hasse (Otto Keller), Roger Dann (Pierre Grandfort), Dolly Haas (Alma Keller), Charles Andre (Padre Millars), Henry Corden (Sargento Detective Farouche) [não creditado], Carmen Gingras (Primeira Rapariga Francesa) [não creditado], Renée Hudon (Segunda Rapariga Francesa) [não creditado], Ovila Légaré (Senhor Villette) [não creditado], Gilles Pelletier (Padre Benoit) [não creditado], Judson Pratt (Murphy) [não creditado].

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