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RopeEm 1948 Alfred Hitchcock e o seu amigo Sidney Bernstein fundaram a produtora Transatlantic Pictures, através da qual o realizador procurava conseguir um maior controlo sobre os seus filmes seguintes. O primeiro filme desta nova série foi “A Corda”, um thriller criminal, baseado numa peça de teatro de Patrick Hamilton, e filmado num cenário único, com takes interrompidas apenas para mudar de bobina. Foi também o primeiro filme a cores de Hitchcock, e o primeiro filme que o juntou a James Stewart, que se tornaria um dos seus actores preferidos.

Sinopse:

No seu apartamento de Nova Iorque, Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger) assassinam o amigo David Kentley, pelo simples prazer de cometer um crime. Colocam o corpo numa antiga arca no centro da sua sala de estar, e convidam amigos para uma festa de despedida. Entre os amigos estão o pai (Cedric Hardwicke) e a noiva (Joan Chandler) de David. Só que, enquanto Brandon vai brincando com a situação. Phillip vai-se tornando cada vez mais temeroso, pincipalmente quando o antigo professor deles (James Stewart), começa a pressioná-lo para saber o que se passa.

Análise:

Findo o contrato de nove anos com David O. Selznick, o produtor que o levara para os Estados Unidos, Alfred Hitchcock decidiu-se pela criação da sua própria produtora. Juntamente com o amigo de longa data, Sidney Bernstein, o realizador fundou a Transatlantic Pictures, que estaria por trás dos seus filmes seguintes, começando com “A Corda”, de 1948, o seu primeiro filme a cores.

Baseado numa peça Patrick Hamilton, de 1929, adaptada por Hume Cronyn, um actor que já trabalhara com Hitchcock nalguns filmes, “A Corda” é assim o regresso do realizador inglês aos argumentos extraídos de peças de teatro, filmados em cenários limitados, como se de um palco se tratasse.

Essa exiguidade espacial é uma das características principais de “A Corda”. O filme decorre inteiramente num apartamento, e é constituído por longos planos-sequências, cada um dos quais interrompido apenas para a mudança de bobina, algo que Hitchcock tenta disfaçar fazendo a imagem escurecer quando algum personagem se aproxima dela (embora vulgarmente se refira que todos os cortes são assim disfarçados, há de facto alguns que Hitchcock deixou sem disfarçar). O filme é por isso, acima de tudo, um exercício, no qual Hitchcock se desafia a si próprio, algo que já acontecera em “Um Barco e Nove Destinos” (Lifeboat, 1944). Em “A Corda” Hitchcock vai ainda mais longe, pois filma quase em tempo real, sem cortes , sem pausas, com uma câmara que se move suavemente entre os personagens, e nos acompanha timidamente pela sala, ou até ao hall ao lado, quase sempre regressando à sua posição de repouso, atrás da arca da qual se vê toda a sala.

E essa arca traz-nos ao ponto principal da história, a história de uma morte gratuita, e de uma comemoração macabra. Seguindo as discussões de crimes perfeitos, mostradas nalguns dos seus filmes anteriores, Hitchcock vai desta vez mais longe, baseando o seu filme num desses crimes, um assassínio que acontece pela simples razão de que os seus executantes querem tentá-lo como uma obra de arte, de seres superiores (superhomens na acepção de Nietzsche), acima de convenções e da inferioridade humana.

É com essa frieza e cueldade amoral que o filme se inicia, mostrando-nos a morte de David, às mãos dos seus amigos Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger). Sem emoção, David cai inerte depois de estrangulado pelos amigos, e é colocado numa velha arca, que se torna o centro da decoração da sala, quando Brandon decide que é dela que quer fazer mesa para a festa que o par vai dar de seguida.

Essa festa será, para Brandon e Phillip, uma celebração do acto que acabaram de cometer, bem como uma piada mórbida para todos aqueles que estão convidados, os pais de David, a sua namorada Janet (Joan Chandler), um amigo deste, e antigo namorado de Janet (Douglas Dick), e o antigo professor de filosofia de todos eles, o arguto Rupert Cadell (James Stewart).

À partida nada pareceria vir a toldar o arranjo criado por Brandon, e a festa, como ele teme, poderá vir a tornar-se um aborrecimento. Só que Brandon não prevê uma coisa. A consciência de Phillip começa a tomar conta dele, logo após a morte de David, e Phillip revela-se à beira de um ataque de nervos, supondo que cada frase, cada movimento, cada olhar, são passos na direcção da denúncia.

Está então declarado o jogo de suspense de Hitchcock. Todas as frases parecem ter duplo sentido, e todas as piadas podem ser vistas como trocadilhos sobre mortes e crimes. Passamos então, tal como o personagem de James Stewart, a acompanhar o comportamento nervoso de Phillip. Nós para saber quando se irá ele denunciar, o professor Rupert Cadell para tentar perceber o que estará Phillip a esconder.

Com uma premissa tão amoral, “A Corda” foi um dos filmes mais provocantes de Hitchcock até ao momento. O filme provoca pelo olhar frio sobre o assassínio, defendido num célebre discurso onde se fala da superioridade de alguns. Provoca ainda pela relação ambígua entre Brandon e Phillip, que muitos viram como uma declaração de homossexualidade, o que pesou duramente sobre o filme, que foi mesmo banido de alguns cinemas. Tanto John Dall (Brandon) como Farley Granger (Phillip) eram homossexuais, o mesmo acontecendo com o argumentista Arthur Laurents. O filme dizia-se mesmo baseado num infame caso de assassínio universitário levado a cabo por dois homossexuais, caso que ficou conhecido como Leopold and Loeb. Finalmente, o filme provoca pelo humor negro e mórbido de Hitchcock, aqui presente como nunca, não respeitando convenções nem valores morais.

“A Corda” impressiona principalmente pela coragem de Hitchcock, e soluções encontradas para um filme filmado como um conjunto de longuíssimas takes (cerca de dez minutos cada. Para tal as paredes do apartamento estavam sobre carris para poderem ser deslocadas à medida que a câmara se movia, os objectos eram constantemente movidos para possibilitar a passagem da câmara, e os microfones constantemente recolocados, para acompanhar os vários diálogos, nos vários pontos do apartamento, em posições anteriormente combinadas. Apesar de à primeira vista parecer um teatro filmado, o filme é bem mais que isso, com a manipulação de Hitchcock a forçar-nos os pontos de vista, ângulos e atenções, na construção do seu característico suspense.

“A Corda” ficou, comercialmente, muito aquém do desejado. Tornou-se com os anos um objecto de culto, e é hoje considerado como uma das mais originais obras de Alfred Hitchcock.

Produção:

Título original: Rope; Produção: Warner Bros. Pictures / Transatlantic Pictures; País: EUA; Ano: 1948; Duração: 77 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 26 de Agosto de 1948 (EUA), 18 de Março de 1963 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Sidney Bernstein [não creditado], Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Arthur Laurents, Ben Hecht [não creditado]; Adaptação: Hume Cronyn [baseado na peça de Patrick Hamilton]; Música: David Buttolph [não creditado], Francis Poulenc [não creditado]; Fotografia: Joseph A. Valentine, William V. Skall [filmado em Technicolor]; Direcção Artística: Perry Ferguson; Cenários: Emile Kuri, Howard Bristol; Director de Produção: Fred Ahern; Montagem: William H. Ziegler; Caracterização: Perc Westmore; Figurinos: Adrian, Marion Dabney [não creditada], Leon Roberts [não creditado]; Direcção Musical: Leo F. Forbstein.

Elenco:

James Stewart (Rupert Cadell), John Dall (Brandon, Amigo de David), Farley Granger (Phillip, Amigo de David), Cedric Hardwicke (Mr. Kentley, Pai de David), Constance Collier (Mrs. Atwater, Tia de David), Douglas Dick (Kenneth, Rival de David), Edith Evanson (Mrs. Wilson, A Governanta), Dick Hogan (David Kentley), Joan Chandler (Janet, Namorada de David).

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