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The Paradine CaseA última produção de Alfred Hitchcock para David O. Selznick foi baseada num argumento escrito pelo próprio produtor. Neste drama de tribunal, conta-se a história da queda de um brilhante advogado, devido à paixão que começa a nutrir pela sua cliente. Gregory Peck regressa como protagonista, num filme que inclui as estreias americanas de Alida Valli e Louis Jordan. O inglês Charles Laughton participa também pela segunda vez num filme de Hitchcock. Mais uma vez, o filme volta a ter um pano de fundo inglês.

Sinopse:

A Sra. Paradine (Alida Valli) é uma bela e enigmática mulher, acusada do assassínio do seu marido, o idoso e cego Sr. Paradine. Para a defender, o seu solicitador chama o brilhante advogado de tribunal, Anthony Keane (Gregory Peck). Só que, quanto mais se embrenha no caso, mais Keane se deixa fascinar pelo carisma da Sra. Paradine. Tal leva-o a misturar emoção com razão, o que não passa despercebido junto da sua esposa (Ann Todd), que teme pelas consequências do caso no marido. A defesa de Keane passa por tentar a culpabilização do empregado dos Paradine, o francês Andre Latour (Louis Jourdan). Mas a estratégia vai valer-lhe o desprezo da Sra. Paradine e a ulterior queda de Keane perante os seus pares.

Análise:

No final do seu contrato de sete anos com David O. Selznick, Alfred Hitchcock realizou um filme com argumento do próprio produtor. Tudo começou com uma ideia sua, desenvolvida com a esposa, Alma Reville, que passou por outras mãos como as de James Bridie e Ben Hecht, e terminaria escrito pelo próprio O. Selznick. A história baseava-se num livro de Robert Hichens que, segundo a lenda, terá sido inspirado na figura de Greta Garbo, a qual chegou mesmo a ser considerada para o filme, desistindo depois dos primeiros testes.

Uma primeira versão do argumento foi rejeitada pelos censores, por retratar a Sra. Paradine como uma adúltera que comete sucídio, e por mostrar um juiz com claros tiques de sadismo. Isso levou a alterações como a omissão do suicídio da Sra. Paradine, embora Charles Laughton mantenha muita da ambiguidade do seu personagem do juiz, graças ao grotesco que habitualmente incutia nas suas interpretações.

Para o papel principal, Alfred Hitchcock queria Laurence Olivier, mas a impossibilidade de ter o actor inglês no filme levou-o a chamar Gregory Peck, com quem já trabalhara em “A Casa Encantada” (Spellbound, 1944). O filme foi a estreia em solo americano da italiana Alida Valli, e do francês Louis Jordan. Com eles estavam ainda Ann Todd e actores já conhecidos de Hitchcock, como Charles Laughton e Leo G. Carroll.

A história de “O Caso Paradine” é a história da queda de um brilhante advogado, a partir do momento em que o fascínio pela sua cliente lhe começa a toldar a razão. O advogado é Anthony Keane (Gregory Peck), um homem casado, e respeitado pelos seus pares, que a partir do momento em que começa a privar com a carismática Sra. Paradine (Alida Valli), começa a perder o seu controlo emocional. De notar que pouco sabemos sobre o crime, como e onde foi cometido, e tal nunca é objecto do filme, que se centra sim no evoluir do estado de espírito do advogado de defesa.

Tal não passa despercebido junto da sua esposa, Gay (Ann Todd), que teme tanto a atracção do marido pela sua cliente, como as consequências emocionais da perda do caso. Por isso, Gay incita o marido a continuar a defesa, mesmo quando este se dispõe a parar. A defesa passa pela culpabilização do misterioso empregado do Sr. Paradine, o francês Andre Latour (Louis Jordan). É conveniente ao pensamento de Keane, que Latour seja culpado, por desejar a mulher do patrão, e é nesse sentido que prosseguirá a investigação. O que Keane não prevê é que existia uma paixão real entre a Sra. Paradine e Latour, que leva ao suicídio deste, e ao desespero daquela, que, após a morte do amante, não vê porque não confessar o crime.

O completo desacerto de Keane, com consequente perda do caso e enforcamento da sua cliente, deve-se unicamente à sua incapacidade de ver além das emoções que sentiu pela Sra. Paradine, e o seu comportamento no tribunal humilha-o aos olhos dos seus pares, e põe em causa o seu próprio casamento.

Do ponto de vista técnico, “O Caso Paradine” marca o início da experimentação de Hitchcock com planos-sequência de longa duração, levados ao extremo no seu filme seguinte “A Corda” (Rope, 1948). Para tal, a sequência do tribunal foi filmada com quatro câmaras em simultâneo. Note-se a entrada de Latour na sala de audiências, numa lenta rotação de câmara que nos deixa vê-lo por cima dos ombros da Sra. Paradine em grande plano.

Por outro lado podemos ver o filme como um início de uma nova temática hitchcockiana, a da obsessão pelo elemento feminino, imortalizada no muito superior “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo, 1958), com James Stewart no principal papel. Ainda de “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (como acontecera em “Rebecca”, 1940), temos a dicotomia da tentação feminina (Alida Valli, Ann Todd), na pele de duas mulheres opostas, mas que se assemelham, e nas quais recai o fetiche da transformação física. Finalmente note-se a preversão hitchcockiana de tornar o mais asqueroso dos personagens presentes no homem sobre o qual recai a execução máxima da justiça, o juiz Horfield (Charles Laughton), que fora o único a adivinhar a natureza da Sra. Paradine.

O filme foi um fracasso de bilheteira, e é vulgarmente considerado muito abaixo dos seus pares. Motivos para tal julgamento serão um elenco que nem sempre funciona. Gergory Peck parece demasiado forçado, Alida Valli (que Selznick queria que se tornasse uma nova Ingrid Bergman) falha na interpretação de uma charmosa mulher fatal, não deixando de parecer sempre fora do seu papel, e mesmo Louis Jordan (Hitchcock escolhera Robert Newton) se revela uma escolha atípica.

Produção:

Título original: The Paradine Case; Produção: Vanguard Films, Inc. / The Selznick Studio; País: EUA; Ano: 1947; Duração: 114 minutos; Distribuição: Selznick Releasing Organization, Inc.; Estreia: 29 de Dezembro de 1947 (EUA), 29 de Novembro de 1949 (Cinema S. Luiz, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: David O. Selznick [não creditado]; Argumento: David O. Selznick, James Bridie [não creditado]; Adaptação: Alma Reville [baseado no romance de Robert Hichens]; Diálogos Adicionais: Ben Hecht [não creditado]; Música: Franz Waxman; Fotografia: Lee Garmes [preto e branco]; Design de Produção: J. McMillan Johnson, Robert Priestley [não creditado]; Direcção Artística: Thomas N. Morahan; Figurinos: Travis Banton, Charles Arrico [não creditado]; Montagem: Hal C. Kern; Interiores: Joseph B. Platt; Cenários: Emile Kuri; Efeitos Especiais: Clarence Slifer; Caracterização: Max Asher [não creditado], Mel Berns [não creditado], Layne Britton [não creditado].

Elenco:

Gregory Peck (Anthony Keane), Ann Todd (Gay Keane), Charles Laughton (Juiz Lord Thomas Horfield), Charles Coburn (Sir Simon Flaquer), Ethel Barrymore (Lady Sophie Horfield), Louis Jourdan (Andre Latour), Alida Valli (Mrs. Maddalena Anna Paradine), Leo G. Carroll (Sir Joseph, Advogado de Acusação), Joan Tetzel (Judy Flaquer), Isobel Elsom (Estalajadeira).

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