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Un Grand Amour de BeethovenLudwig van Beethoven (Harry Baur) após a idade adulta, é já um compositor consagrado em Viena, quando vê duas mulheres disputar o seu amor, Thérèse de Brunswick (Annie Ducaux) e Juliette Guicciardi (Jany Holt). Beethoven está enamorado de Juliette, mas a decisão desta em casar com um conde quase o leva ao suicídio, retirando-se para um velho moinho. É então que Thérèse consegue o seu afecto, e juntamente com alguns amigos, ajudam Beethoven a viver com a sua progressiva surdez. Quando Juliette regressa, arrependida de ter rejeitado Beethoven, este sente-se dividido entre o seu grande amor por ela, e a lealdade a Thérèse. Beethoven fica com Thérèse, mas é incapaz de casar com ela, mesmo depois de anos a viverem juntos. Quando Thérèse finalmente desiste, resta a Beethoven, já pobre, viver para o sobrinho Karl (Jean-Louis Barrault), um jovem sem escrúpulos que o engana, e acaba por se tornar amante de Juliette.

Análise:

Ludwig van Beethoven (1770-1827) foi um célebre compositor alemão da escola de Viena, que esteve na transição entre o classicismo e o romantismo, que de certa forma ajudou a definir. Pelo seu papel revolucionário na música do seu tempo, e pelas obras que marcam ainda hoje a música universal, Beethoven é para muitos o mais importante compositor de todos os tempos. Imagem icónica do génio louco, tão dotado quanto socialmente irreverente e emocionalmente sofredor, Beethoven encarna a imagem popular do compositor romântico. O paradoxo de ter ficado surdo no final da sua vida, tendo nessa fase composto algumas das suas mais conhecidas obras, ajuda a imortalizar a imagem do génio imortal.

Parece ponto assente, pelo menos no que diz respeito a adaptações cinematográficas, que aquilo que mais fascina os biógrafos de Beethoven é a identidade daquela a quem o compositor se referia na sua correspondência como “amada imortal”, uma vez que não se conhece a destinatária amorosa de tal tratamento. Descobrir esses mistério é o mote do filme de Abel Gance, “O Grande Amor de Beethoven”.

Gance, realizador francês da transição do cinema mudo para o sonoro, fora já responsável pela biografia de Napoleão Bonaparte (Napoléon, 1927), sendo famoso pelos seus dramas românticos, e por um inovador trabalho de câmara. É reputado como o criador da Polyvision, uma técnica que consiste no uso de múltiplos planos num mesmo fotograma. Já na fase sonora, Gance dirigiu esta biografia de Beethoven, numa fase em que perdera já algum do seu controlo criativo.

Como referido, o filme de Abel Gance, mais que procurar uma narrativa fiel aos acontecimentos, especula fundamentalmente sobre os interesses amorosos do compositor alemão, nomeadamente as suas alunas Juliette Guicciardi (Jany Holt) e Thérèse de Brunswick (Annie Ducaux). Ambas tentam captar a atenção do compositor, e este acaba por se apaixonar por Juliette. Só que, por pressão da sua família, Juliette acaba por casar um nobre italiano, causando um enorme desgosto em Beethoven, que chega mesmo a contemplar o suicício.

É com a dedicação de Thérèse que Beethoven recupera, e com ela e alguns amigos o compositor reencontra, na sua música, motivo para continuar a viver. Quando Juliette regressa, arrependida de não ter aceite o amor do compositor, encontra-o dilacerado entre o amor por concretizar, e a dedicação a Thérèse, que merece toda a sua lealdade. Beethoven escolhe Thérèse, mas não é capaz de a amar e nunca casam, numa altura em que a sua surdez progride.

Na fase final da sua vida, já surdo, Beethoven é apenas acompanhado pelo sobrinho Karl, a quem se dedica, uma vez que Thérèse desiste de tentar um amor que nunca terá. A pobreza aflige Beethoven, que não consegue já encontrar compradores para a sua música, e gasta tudo com o sobrinho, o entretanto adulto Karl, imerecedor da dedicação do compositor e, para cúmulo, amante da regressada Juliette.

“O Grande Amor de Beethoven” é um filme marcado, como não podia deixar de ser, pela música de Ludwig van Beethoven, a qual está presente em quase cada momento do filme. O filme começa de modo bastante romântico, quando uma mãe chora a morte de uma filha menor, e a única coisa que lhe aplaca a dor é a execução da sonata “Patética”, tocada pelo próprio, ao piano, no local (e que ouvimos na versão orquestral). A partir de então a música pontua os momentos e estados de espírito, com particular destaque para as sinfonias, e com os acordes iniciais da quinta a serem usados (e abusados) para todo e qualquer momento de tensão.

Com uma linha muito ténue entre o lirismo poético e o exagero dramático, Gance tenta sempre que a música seja parte da narrativa, o que consegue de modo sublime na sequência em que Beethoven se apercebe da sua surdez. Constantes mudanças de plano mostram-nos o que se ouve de fora (vozes, ruídos dos afazeres humanos ou da natureza), e o que Beethoven ouve (completo silêncio, que passa à sua música).

O filme baseia-se sobretudo em planos estáticos, filmados com toques expressionistas. Neles, como pinturas, vemos composições enquadramento, que servem de motivo ao desenrolar das peças de Beethoven. Especial destaque é dado à Sonata “Ao Luar”, que Gance torna no tema de amor entre Beethoven e Juliette. Já os diálogos, parecem-se amiúde com narrações ou declamações teatrais.

Nota final para Harry Baur que, de busto imponente como uma estátua de mármore, compõe um Beethoven amargurado, mas sereno e conformado com o seu destino, numa linha que acompanha o lento lirismo de todo o filme, que para alguns peca por uma demasiada languidez.

Produção:

Título original: Un Grand Amour de Beethoven; Produção: Général Productions; País: França; Ano: 1936; Duração: 117 minutos; Distribuição: Éclair-Journal; Estreia: 7 de Dezembro de 1936 (França), 28 de Setembro de 1937.

Equipa técnica:

Realização: Abel Gance; Argumento: Abel Gance; Diálogos: Steve Passeur; Música: Ludwig Van Beethoven; Fotografia: Robert Lefebvre, Marc Fossard [preto e branco]; Direcção Artística: Jacques Colombier; Montagem: Marguerite Beaugé, André Galitzine; Direcção Musical: Philippe Gaubert; Directores de Produção: Christian Stengel, March Le Pelletier.

Elenco:

Harry Baur (Ludwig Van Beethoven), Annie Ducaux (Thérèse de Brunswick), Jany Holt (Juliette Guicciardi), Jean-Louis Barrault (Karl Van Beethoven), Jean Debucourt (Conde Robert Gallenberg), Lucas Gridoux (Smeskall), Yolande Laffon (Condessa Guicciardi), Lucien Rozenberg (Conde Guicciardi), Paul Pauley (Schuppanzigh), André Nox (Humpholz), Gaston Dubosc (Anton Schindler), Sylvie Gance [como Marjolaine] (Mãe da menina morta), Georges Paulais, Georges Saillard (Breuning), Jean Pâqui (Pierrot), Jane Marken (Esther Frechet, cozinheira), Marcel Dalio (Steiner, um editor), André Bertic (Johann Van Beethoven), Philippe Richard, Roger Blin (De Ries), Enrico Glori, Dalméras (Schubert).