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NotoriousNovamente emprestado por David O. Selznick, desta vez à RKO, Alfred Hitcthcock voltou ao romance de espionagem, naquele que muitos consideram o exemplo supremo da maturidade do realizador. Voltando a trabalhar com o argumentista Ben Hetch, Hitchcock tinha de novo consigo a sua diva Ingrid Bergman, à qual se juntava (também pela segunda vez) aquele que viria a ser um dos seus actores preferidos, Cary Grant. A completar o triângulo amoroso do filme estava ainda Claude Rains.

Sinopse:

Após a condenação do seu pai alemão, por traição contra os Estados Unidos, a leviana Alicia Huberman (Ingrid Bergman) é contactada pelo austero T.R. Devlin (Cary Grant) que a recruta como agente secreta. Só sem que nenhum dos dois saiba, e depois de se começarem a envolver romanticamente, é revelado o alvo de Alicia, o seu antigo pretendente, Alexander Sebastian (Claude Rains), presentemente a viver no Brasil. Alicia é suficientemente convincente para que Sebastian a peça em casamento, o que coloca a sua recente relação com Devlin em maus lençóis.

Análise:

Com “Difamação”, Alfred Hitchcock voltava a um dos seus sub-géneros preferidos, o romance de espiões, que marcara a fase final da sua carreira na Inglaterra e lhe dera já alguns filmes nos Estados Unidos. O filme tem sido aclamado como um dos melhores de sempre do mestre inglês, e como um dos filmes que estabeleceu a fase mais adulta dos seus filmes. “Difamação” foi um sucesso em termos de crítica e público, mas começou conflituosamente com David O. Selznick a não acreditar no projecto, e a tentar colocar Joseph Cotten no lugar de Cary Grant. As divergências entre produtor e realizador levaram aquele a vender o filme à RKO.

“Difamação” é um romance que tem por base uma história de espionagem, mas nas mãos de Hitchcock, é muito mais que isso. É acima de tudo uma história de amor, de ciúme, confiança, posse, e amarras a convenções sociais, temas típicos da obra de Hitchcock.

Dando o mote na sequência inicial, uma figura de costas (Cary Grant), observa impavidamente uma festa dada por uma mulher de fraca reputação (Ingrid Bergman) a contas com um pai acusado de traição. Segue-se uma alucinada viagem de automóvel em que Alicia Huberman (Bergman), sem capacidade para conduzir, é obrigada a ceder a direcção ao sinisto agente da lei T. R. Devlin (Cary Grant). Essa cedência é o momento de transição que marca o resto da história. Alicia coloca-se à mercê dos serviços secretos americanos ou, romanticamente, à mercê de Devlin. E Devlin tenta manobrar, aquela que para si será sempre uma mulher incapaz de mudar. Esses preconceitos, estabelecidos desde o primeiro momento, toldam as atitudes de ambos. Devlin não consegue assumir o amor por uma mulher que as convenções (e os seus colegas) ditam como promíscua. Alicia, precisa de ser aceite, e perante a recusa de Devlin em dizer que a ama, precisa de o provocar aceitando o risco da sua missão. É ao cumpri-la demasiado bem (indo para a cama com o espiado Alexander), que Alicia se torna aos olhos de Devlin ainda mais inaceitável.

As atitudes de um e do outro, ao invés de serem vistas como limitações das suas personalidades, são vistas pelo outro como desafio, desprezo ou falta de carácter, servindo apenas para provar as piores expectativas que cada um tem no outro. Na sua missão Alicia acaba por casar com o inimigo que espia, o romântico, mas frio, Alexander Sebastian (Claude Rains), o qual, enredado pelas teias do amor e do ciúme, é capaz de deitar tudo a perder pela esposa que ama, mas na qual aprende a não confiar.

Seja qual for o personagem, são as atitudes relacionadas com o triângulo as verdadeiras catalizadoras do rumo da história, onde as peripécias da espionagem, e um MacGuffin relacionado com Urânio (então ainda não relacionado publicamente com armas nucleares, o que valeu a Hitchcock meses de vigilância por parte do FBI) não passam de um pano de fundo.

Curioso o facto de o minério de Urânio ser escondido em garrafas, e a bebida ser um dos tópicos principais do filme, sempre filmada em grande destaque. É por beber que Alicia adquire a sua reputação, e é baseada na sua abstinência que ela procura ganhar a confiança de Devlin. Tal contrasta com um outro tipo de veneno (este literal) com que os alemães vão provocando a sua doença. Uma e outra bebida causam envenenamento de Alicia, mas se a primeira nos é mostrada como deplorável, a segunda traz-nos simpatia pela personagem. Destaque para os close-ups do copo com que ao acordar de ressaca Devlin tenta curar Alicia no início, e para os das diversas chávenas com que Alexander e a mãe a tentam envenenar. Por fim acrescente-se que com a falta de outra bebida (a esquecida garrafa de champanhe) que o casal se separa, quando lhes chega a informação da missão.

O filme é um exemplo belíssimo da técnica de Hitchcock contar uma história, fazendo o espectador seu cúmplice, de modo a poder antecipar (e sofrer com a antecipação) as fontes de conflito. Tal é evidente no modo como seguimos as combinações de Devlin e Alicia até à cena da adega, para mudarmos de ponto de vista e passarmos a seguir as combinações de Alexander e da sua mãe a partir daí. Os dois pontos de vista encontram-se finalmente na magistral cena das chávenas de café, em que, sem palavras, e através de grandes planos que passam dos rostos para as chávenas, entramos num “eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes”, em que público e personagens ficam conscientes de que todos sabem que todos sabem tudo.

Também o trabalho de câmara tem sido muito elogiado, com Hitchcock procurando planos e ângulos originais, como a sequência em que através dos olhos da embriagada Alicia vemos Devlin rodar no nosso campo de visão, os planos da mansão durante a festa, e os close-ups das mãos nas trocas da chave. Também curiosa é a cena do beijo ao telefone, cortado de um longo beijo em pequenos beijos consecutivos, por entre conversas e carícias, como forma de ludibriar o Código Hays que impunha durações aos beijos.

Com um elenco notável, Ingrid Bergman resplandece ao compôr com coragem a jovem devassa, promíscua, mas sentimentalmente frágil. Capaz de passar num ápice de uma inocência juvenil a uma convicta sexualidade, Bergman guia o filme com o seu leque de estados físicos e emocionais. É acompanhada por um Cary Grant mais contido que o habitual, compondo um sóbrio Devlin, amargurado pela missão que confia a Alicia, mas incapaz de ceder aos seus impulsos, e por um Claude Rains, igual a si próprio como o astuto, frio e charmoso vilão, que nos impressiona pelo seu amor por Alicia (a cena final em que caminha para a sua perdição é verdadeiramente emblemática).

Destaque final para a presença de Leopoldine Konstantin como mãe de Alexander, uma actriz alemã, célebre pelos seus papéis em dramas alemães do início do século. A forma implacável e insinuante com que gere a mansão não pode deixar de nos recordar a governanta de “Rebecca”. Já o modo como se impõe ao filho é deliciosamente premonitório de “Psico” ou “Os Pássaros”, trazendo a figura da “mãe dominante” que voltará noutras obras de Hitchcock.

“Difamação recebeu nomeações aos Oscars para Melhor Actor Secundário (Claude Rains) e Melhor Argumento Adaptado.

Produção:

Título original: Notorious; Produção: Vanguard Films / RKO Radio Pictures; País: EUA; Ano: 1946; Duração: 101 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 15 de Agosto de 1946 (EUA), 11 de Outubro de 1947 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Ben Hecht, Alfred Hitchcock [não creditado], Clifford Odets [não creditado] [a partir da história de John Taintor Foote “The Song of the Dragon”]; Fotografia: Ted Tetzlaff [preto e branco]; Música: Roy Webb; Direcção Artística: Carroll Clark, Albert S. D’Agostino; Montagem: Theron Warth; Efeitos Especiais: Paul Eagler, Vernon L. Walker; Cenários: Claude E. Carpenter, Darrell Silvera; Figurinos: Edith Head; Caracterização: Mel Berns [não creditado]; Direcção Musical: C. Bakaleinikoff; Orquestração: Gil Grau.

Elenco:

Cary Grant (T.R. Devlin), Ingrid Bergman (Alicia Huberman), Claude Rains (Alexander Sebastian), Louis Calhern (Paul Prescott), Leopoldine Konstantin (Mme. Sebastian), Reinhold Schünzel (‘Dr. Anderson’), Moroni Olsen (Walter Beardsley), Ivan Triesault (Eric Mathis), Alexis Minotis (Joseph (as Alex Minotis), Wally Brown (Mr. Hopkins), Charles Mendl (Commodore), Ricardo Costa (Dr. Barbosa), E.A. Krumschmidt (Hupka), Fay Baker (Ethel).

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