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Blade RunnerSinopse:

Em Los Angeles, em 2019, Deckard (Harrison Ford) é um ex-Blade Runner, um detective especializado em executar Replicantes. Estes são clones humanos de vida curta, criados para trabalhar nas colónias extra-terrestres, mas proibidos de vir à Terra. Quando um grupo de replicantes, comandados por Roy Batty (Rutger Hauer), desobedece e vem à Terra para conseguir convencer o seu criador a aumentar-lhes o tempo de vida, Deckard é chamado de novo ao activo para os exterminar.

Análise:

Nascido a partir do romance de Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, “Blade Runner: Perigo Iminente” tem uma história que, ao contrário do habitual para Dick, não se baseia em realidades alternativas, ou percepções alteradas. Pelo contrário, trata-se de uma história linear de perseguição, entre homens e andróides. Segundo o autor, a ideia surgiu-lhe quando investigava para o seu conto “The Man in the High Castle”, que lida com um mundo conquistado pelos Nazis. Os diários de alguns soldados SS, que Dick consultou, horrorizaram-no ao ponto de imaginar um grupo de pessoas sem qualquer capacidadade de empatia, o que resultaria nos replicantes de “Do Androids Dream of Electric Sheep?”

Ridley Scott, um realizador familiar com o cinema de ficção científica (“Alien”, 1979), trouxe ao filme o lado negro que o torna quase um paradigma do chamado Tech Noir (filme de ficção científica, passado num futuro dominado por tecnologia avançada, mas seguindo uma filosofia de Film Noir).

O filme centra-se na pessoa do detective solitário Deckard (Harrison Ford, que odiou a produção do filme), um agente rebelde, que trabalha sozinho, com meios pouco ortodoxos, seguindo uma conduta moral muito própria. Como não podia deixar de ser, num Film Noir, não faltam as ventoinhas de tecto, os estores lançando sombras sobre paredes escuras, e os neons publicitários como principal fonte de luz exterior, aqui substituídos por painéis electrónicos do tamanho de prédios. As próprias roupas têm um certo toque reminiscente dos anos 1940.

O design é, aliás, personagem principal de “Blade Runner: Perigo Iminente”, com uma Los Angeles onde os céus sempre escuros são rasgados por edifícios que misturam tecnologia com um sentimento antigo, num mosaico arquitectónico que se tornou icónico no cinema, e que muitos vêem como inspirado em “Metrópolis” (Metropolis, 1927) de Fritz Lang. As imagens de videohalls de fachada completa, ou de dirigíveis a pairar sobre a cidade como painéis publicitários, ficariam para sempre no imaginário de quantos viram o filme.

Mas “Blade Runner: Perigo Iminente” é, sobretudo, um debate moral, sobre o papel e destino dos replicantes. Mostrados como clones humanos, que se distinguem apenas por uma forma diferente de sentir e expressar emoções (a referida falta de empatia), os replicantes são seres destinados a trabalhar e a ter uma vida de poucos anos, nascendo com memórias implantadas, como se tivessem vivido uma infância e crescimento normais. Destinados a morrer cedo, são, mais que isso, condenados à morte caso visitem a Terra. Tal levanta a questão essencial sobre a autoridade moral dos criadores (nós) e seus direitos sobre as criações (replicantes). Esta começa por ser vista de modo simplista por Deckard, que mata os replicantes, simplesmente por ser a sua missão, mas tal passa a ser questionado no momento em que conhece Rachael (Sean Young), uma replicante tão humana que nem ela própria sabe que o é, e uma femme fatale diferente do padrão clássico.

Esta conquistada simpatia para com os replicantes é, no entanto, negada pelo comportamento do par principal, Roy (Rutger Hauer) e Pris (Daryl Hannah), nomeadamente o primeiro, exemplo de sadismo e crueldade psicopáticos. Hauer, escolhido por Ridley Scott, devido ao seu ar teutónico, surpreenderia num papel que definiria muito a sua carreira, e seriam os seus diálogos com o criador Tyrrell (Joe Turkel) a trazer-nos as principais questões sobre o valor da vida, da liberdade e do livre-arbítrio humanos. Não faltam os duplos sentidos, os simbolismos metafísicos e religiosos (como é exemplo o encontro do homem com o criador).

Mas o filme de Ridley Scott é também um filme de acção, e para a iconografia cinematográfica deixaria toda a sequência final de perseguição, protagonizada por Ford e Hauer, no interior e topo de um arranha-céus.

A merecer uma menção está também a banda sonora do compositor grego Vangelis, que num misto de tecnologia e sons melancólicos, consegue pautar momentos e sublinhar estados de espírito de modo perfeito.

Embora nem Ridley Scott nem o argumentista David Webb tenham lido o conto original, Philip K. Dick considerou o filme uma pintura perfeita do seu mundo interior.

Fracasso comercial aquando da sua estreia, “Blade Runner: Perigo Iminente” tornou-se um influente objecto de culto, inúmeras vezes citado por outros autores, e referido em diversos filmes que nele beberam inspiração. O filme tem sido exibido em diferentes versões, sendo de destacar a original de 1982, a Director’s Cut de 1991, baseada numa versão de pré-lançamento, e finalmente a Final Cut, de 2007, a qual foi a única com o controlo total de Ridley Scott. Este tem sido inúmeras vezes citado como o filme preferido do realizador.

Produção:

Título original: Blade Runner; Produção: The Ladd Company / Shaw Brothers / Warner Bros.; Produtores Executivos: Brian Kelly, Hampton Fancher; País: EUA/Reino Unido/Hong Kong; Ano: 1982; Duração: 112 minutos (Director’s Cut); Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 25 de Junho de 1982 (EUA), 25 de Fevereiro de 1983 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ridley Scott; Produção: Michael Deeley; Argumento: Hampton Fancher, David Webb Peoples [Adaptado do conto de Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Electric Sheep?”]; Fotografia: Jordan Cronenweth [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Design de Produção: Lawrence G. Paull; Produtor Associado: Ivor Powell; Música: Vangelis; Montagem: Terry Rawlings; Efeitos Fotográficos Especiais: Douglas Trumbull, Richard Yuricich, David Dryer; Figurinos: Charles Knode, Michael Kaplan; Direcção Artística: David L. Snyder; Fotografia Adicional: Steven Poster, Brian Tufano; Cenários: Linda DeScenna, Thomas L. Roysden, Leslie McCarthy-Frankenheimer; Caracterização: Marvin G. Westmore.

Elenco:

Harrison Ford (Rick Deckard), Rutger Hauer (Roy Batty), Sean Young (Rachael), Edward James Olmos (Gaff), M. Emmet Walsh (Bryant), Daryl Hannah (Pris), William Sanderson (J.F. Sebastian), Brion James (Leon Kowalski), Joe Turkel (Dr. Eldon Tyrell), Joanna Cassidy (Zhora), James Hong (Hannibal Chew), Morgan Paull (Holden), Kevin Thompson (Bear), John Edward Allen (Kaiser), Hy Pyke (Taffey Lewis).

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