Etiquetas

, , , , , , , , , , , ,

SpellboundEmbora sob contrato com David O. Selznick desde 1939, “A Casa Encantada” foi apenas o segundo filme de Alfred Hitchcock para aquele produtor, que preferia rentabilizar o contrato alugando os serviços de Hitchcock a outros estúdios. Depois de duas curtas-metragens de propaganda de guerra, realizadas em Inglaterra, foi o regresso de Hitchcock às histórias de jovens casais em fuga, desta vez com a novidade do uso da psicanálise. Com argumento de Ben Hetch, o filme foi o seu primeiro com Ingrid Bergman e Gregory Peck, actores que voltariam a trabalhar com o realizador inglês. “A Casa Encantada” ficou ainda famoso pela sequência do sonho, com cenários do pintor surrealista Salvador Dalí.

Sinopse:

Green Manors é uma instituição mental que espera o seu novo director na pessoa do Dr. Anthony Edwardes (Gregory Peck), que substituirá Dr. Murchison (Leo G. Carroll), prestes a reformar-se. Edwardes é recebido pelos colegas com curiosidade, principalmente Dra. Constance Petersen (Ingrid Bergman), conhecida pela sua frieza e extrema racionalidade. Mas Petersen apaixona-se por Edwardes, e percebe que algo está errado com ele. Quando se descobre que ele é de facto um impostor chamado John Ballantyne, pesa sobre ele a suspeita de ter morto o verdadeiro Dr. Edwardes, de quem era paciente. Tendo que fugir à justiça, Ballantyne é ajudado pela Dra. Petersen, que o leva para casa do seu velho mentor, Dr. Brulov (Michael Chekhov), para através da psicanálise tentarem descobrir a verdade.

Análise:

“A Casa Encantada” foi apenas o segundo filme de Alfred Hitchcock produzido por David O. Selznick (tendo o primeiro sido “Rebecca” de 1940). O produtor, que fora responsável pela ida de Hitchcock para os Estados Unidos, alugava continuamente os seus serviços a outros estúdios, numa relação que seria sempre conflituosa entre os dois. Curiosamente o filme tornava-se um segundo regresso aos Estados Unidos, depois de Hitchcock ter realizado em Inglaterra duas curtas-metragens para a propaganda francesa de guerra: “Aventure Malgache” e “Bon Voyage”.

O filme foi também o regresso a uma velha fórmula hitchcockiana, a do falso culpado, ou do jovem casal em fuga. O próprio Hitchcock diria que o filme era simplesmente mais uma caçada ao homem envolta em pseudo-psicanálise. Nele, reconhecem-se os elementos que estão em (por exemplo) “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935), “Jovem e Inocente” (Young and Innocent, 1937) ou “Sabotagem” (Saboteur, 1942). Estes são: um homem que procura provar a sua inocência numa história para a qual foi levado sem o querer; e uma mulher que se vê arrastada pelo homem, de início contra a sua vontade, sucumbindo aos poucos perante a verdade da inocência dele, e a atracção entre ambos.

Talvez a maior variação ao tema, em “A Casa Encantada”, seja o facto de a Dra. Constance Petersen (Ingrid Bergman) acreditar na inocência de John Ballantyne (Gergory Peck), mesmo antes de ele próprio acreditar. Mantêm-se no entanto a figura da loura fria, arrogantemente segura de si, que, por virtude dos acontecimentos, se vai descobrir capaz de descer do seu pedestal por aquele que passa a amar.

A novidade é, como já referido, o papel da psicanálise. “A Casa Encantada” é mesmo um dos primeiros filmes a fazer uso explícito das ideias de Sigmund Freud. Hitchcock revela-se um atento discípulo de Freud, ainda que o filme faça um uso muito leviano das teorias da psicanálise (Hitchcock terá explicado aos seus consultores que insistiam em corrigi-lo “Isto é apenas um filme!”). Adepto do simbolismo, Hitchcock faz em “A Casa Encantada” o elogio do sonho, com o que este tem de poético, misterioso, simbólico e surreal. Por isso mesmo, não espanta que tenha chamado a desenhar os cenários dos sonhos o célebre pintor surrealista espanhol, Salvador Dalí. Dalí, que já estivera envolvido no cinema, através da sua associação com o realizador espanhol Luis Buñuel, não foi escolha consensual, já que Selznick temia pelo custo financeiro de tal colaboração. Mas Hitchcock insistia que ninguém compreendia os sonhos como Dalí, e o resultado foi uma célebre sequência, dirigida por William Cameron Menzies (o qual pediu a remoção do seu nome dos créditos), e que no original teria mais de 20 minutos.

E são os sonhos, e a psicanálise, o centro do enredo de “A Casa Encantada”, que nos traz John Ballantyne (Gregory Peck), um homem que não é quem julga ser, podendo inclusivamente ser o responsável pela morte daquele cuja pele passou a vestir. Acreditando cegamente na inocência dele está a Dra. Constance Petersen (Ingrid Bergman), que sabe que o caminho para a verdade passará por levantar os véus com que o subconsciente de Ballantyne o aprisionou. É esse caminhar, e esse levantar de véus que constitui o mistério e a sua resolução.

“A Casa Encantada” é ainda o filme que reuniu pela primeira vez Alfred Hitchcock e Ingrid Bergman, uma das actrizes que melhor encarnou a heroína hitchcockiana. Bergman é o protótipo da loura fria, racional, arrogantemente distante e segura de si, que vai aos poucos perder o seu controlo (a famosa humilhação hitchcockiana) pela sua envolvência amorosa. Com ela estariam Gregory Peck (ele próprio protagonista num filme seguinte), seguro no papel do inocente homem atormentado pela sua própria amnésia, e Leo G. Carroll, um dos actores secundários mais vezes usados por Hitchcock.

Com um cocktail de mistério e um pouco de Film Noir, Hitchcock valia-se da força das suas estrelas, e de uma história com o (nessa altura) exotismo do mundo interior. A pretexto da captura do que de mais misterioso e surreal provém de dentro do cérebro humano, Hitchcock brinca com planos, cenários e atmosferas (note-se a sequência simbólica da abertura de sete portas). Sente-se por isso nele uma certa liberdade para abordar alguma temática já presente anteriormente em Hitchcock, como os desejos reprimidos, o complexo de culpa e o desejo sexual (faça-se o paralelo entre a ninfomaníaca das cenas iniciais, e a inibição aos poucos vencida da personagem de Bergman).

É, aliás, o desejo que constitui o motor subliminar da história. É ele que leva à aproximação entre os dois protagonistas, e ao descobrir de uma outra verdade. Esta não é factual sobre o crime, mas sim pessoal, humana. De facto, mais importante que a descoberta da verdade por trás de Ballantyne, está a descoberta da feminilidade da Dra. Petersen.

“A Casa Encantada” é um filme que nalguns pontos é único na obra de Hitchcock. Seria mais um sucesso de bilheteira, e teria nomeações para quatro Oscars. Recebeu o de Melhor Banda Sonora, a cargo do compositor Miklós Rózsa, o qual voltaria a trabalhar com Hitchcock.

Produção:

Título original: Spellbound; Produção: Selznick International Pictures; País: EUA; Ano: 1945; Duração: 106 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 31 de Outubro de 1945 (EUA), 7 de Outubro de 1946 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: David O. Selznick; Argumento: Ben Hecht; História: Angus MacPhail [adaptação do romance de Frances Beeding “The House of Dr. Edwardes”]; Fotografia: George Barnes [preto e branco]; Música: Miklós Rózsa; Direcção Artística: James Basevi; Montagem: Hal C. Kern; Efeitos Especiais: Jack Cosgrove; Decoração de Interiores: Emile Kuri; Figurinos: Ann Peck; Caracterização: Mel Berns [não creditado]; Desenhos (sequência do sonho): de Salvador Dalí.

Elenco:

Ingrid Bergman (Dr. Constance Petersen), Gregory Peck (John Ballantyne), Michael Chekhov (Dr. Alexander Brulov), Leo G. Carroll (Dr. Murchison), Rhonda Fleming (Mary Carmichael), John Emery (Dr. Fleurot), Norman Lloyd (Mr. Garmes), Bill Goodwin (Detective do Hotel), Steven Geray (Dr. Graff), Donald Curtis (Harry), Wallace Ford (Estranho no Lobby do Hotel), Art Baker (Tenente Detective Cooley), Regis Toomey (Sargento Detective Gillespie), Paul Harvey (Dr. Hanish).