Etiquetas

, , , , , , , , , , , ,

LifeboatCom a Segunda Guerra Mundial a decorrer na Europa, Alfred Hitchcock sentiu que podia contribuir de algum modo, com um filme onde denunciasse os efeitos do nazismo, e apelasse ao esforço e união dos países democráticos. A sua ideia foi sugerida a vários escritores, até ser desenvolvida pelo célebre John Steinbeck. Filmado com um elenco sem estrelas, o filme “Um Barco e Nove Destinos” destacou-se pelo seu cenário único, um pequeno salva vidas. Com argumento de Jo Swerling, Hitchcock filmou um filme amargo, crú e sem banda sonora, para a Tweentieth Century-Fox, à qual foi, mais uma vez, cedido por David O. Selznick.

Sinopse:

O afundamento de um navio mercante no Atlântico, por um submarino alemão, na Segunda Guerra Mundial, leva ao naufrágio dos seus poucos sobrebiventes. Estes acumulam-se numa lancha salva-vidas, onde recolhem quem encontram, inclusivamente um marinheiro alemão do submarino entretanto afundado. Com a lancha à deriva, o alemão parece ser o único a saber navegar, o que atrai a desconfiança de vários dos seus companheiros de lancha, que temem que ele os leve para águas inimigas. Algumas mortes misteriosas vão adensar o clima de suspeita e paranóia entre os sobreviventes.

Análise:

Embora não tenha exactamente realizado um filme de guerra, Alfred Hitchcock usou a guerra como pano de fundo para vários dos seus filmes. Em particular a Segunda Guerra Mundial, a que Hitchcock assistiu à distância, é mencionada em filmes como “Correspondente de Guerra” (Foreign Correspondent, 1940), onde se fala dos esforços diplomáticos para a evitar, e “Sabotagem” (Saboteur, 1942), que nos lembra que existem nos Estados Unidos simpatizantes do nazismo.

Não alheio ao esforço de guerra, e ao martírio porque passava o seu país, Hitchcock envolvia-se mais directamente na propaganda de guerra com este “Um Barco e Nove Destinos”, no mesmo ano em que realizaria mesmo duas curtas-metragens para a propaganda francesa, “Aventure Malgache” e “Bon Voyage”, ambos filmados em Inglaterra.

“Um Barco e Nove Destinos” é, antes de tudo, um exercício de estilo, no qual Hitchcock se desafia a si mesmo no propósito de rodar todo um filme num único cenário. Este é o claustrofóbico interior de uma lancha salva-vidas, na qual nove náufragos se encontram. Com um espaço tão exíguo seria de esperar que a monotonia (de tema, de enredo, de planos) se tornasse incomodativo, mas Hitchcock consegue um filme diversificado, tanto pela solução de planos encontrada, como pela dinâmica conseguida entre os personagens e o argumento.

O filme começa com o acompanhar dos destroços de um navio que acabou de ser destruído (um travelling sobre a água, no típico movimento hitchcockiano do detalhe para o geral), até encontrarmos uma lancha, para a qual vão convergindo os poucos sobreviventes. Entre estes chega um nazi (Walter Slezak), recebido com desconfiança, mas tolerado em nome da compaixão humana. Só que, sem bússola, e à deriva no oceano, apenas o alemão parece saber navegar o barco. Está lançada a suspeita que domina o enredo. É ou não possível confiar que o alemão leve o grupo a bom porto?

“Um Barco e Nove Destinos” é um filme de personagens, onde nos é dado a descobrir cada um, lentamente, ao sabor das ondas, e onde as diferentes dinâmicas criadas por cada um dos passageiros empurram o argumento. Mas engane-se quem pensar que, com uma premissa tão exigente, não é possível a Hitchcock explanar o seu suspense. Este surge quando Hitchcock nos torna seus cúmplices, mostrando-nos aquilo que mais ninguém sabe: o alemão tem uma bússola. A partir de então, cientes de que ele não diz a verdade, assistimos, impotentes, ao desenrolar do seu plano, por vezes temido, mas nunca contrariado pelos restantes sobreviventes. De golpe em golpe, de suspeita em suspeita, assim como de revés em revés, o grupo vai prosseguindo a sua jornada em direcção a um perigo que não imagina.

Para além desta linha temática, começa a desenhar-se outra, bem mais propagandística. Esta é a da mensagem anti-germânica, patente durante todo o filme. Assim, embora no início simpatizemos com o alemão, que alguns querem executar sumariamente, só por ser alemão, cedo a situação muda. Primeiro descobrimos que ele é o próprio comandante do submarino, o tal que, segundo as suas próprias palavras anteriores, deu ordem para bombardear os náufragos. Descobrimos depois que mente quanto à direcção tomada, e por fim vêmo-lo ser responsável por uma morte. Por tudo isto, o linchamento selvagem de que é vítima (e que une aqueles que antes o queriam matar, e aqueles o tinham defendido), surge-nos como um momento de catarse. Por explicar fica a morte de Mrs. Higgins (Heather Angel), que pode, ou não, ter sido suicídio, e a amputação de Gus Smith (William Bendix), que não sabemos se era mesmo necessária.

A situação quase se repete no final, com a recolha de mais um alemão ferido, o qual ameaça o grupo com uma arma, e descobre incrédulo que eles não o queriam matar. Essa constatação é a expressão máxima do filme, que não se cansa de sugerir que basta ser-se alemão para se ter uma conduta moral diferente, e se desejar a morte de todos os inimigos, algo que só pode ser combatido com guerra e sem qualquer complacência. No grito de um dos personagens “devem ser todos exterminados”, algo que o coloca ao nível do holocausto nazi.

Sem ter actores de primeira linha, o filme vale-se de excelentes interpretações. Entre elas destaca-se a de Tallulah Bankhead (uma célebre actriz de palco, com poucas incursões no cinema), que faz da sua Connie Porter uma típica heroína hitchcockiana. Começando com um perfil aristocrático, arrogante, bem vestida e cuidada, quando todos apresentam marcas do naufrágio, Connie vai aos poucos perdendo a compostura, dando-se o volte-face quando, na tempestade, se entrega nos braços do mecânico John Kovac (John Hodiak), aquele que antes desprezara e acusara de ser comunista. O crescente desmazelamento que apresenta ao longo do filme, acompanha a sua maior docilidade e menor superficialidade. A transição (ou a humilhação) é completa quando entrega uma pulseira de diamantes para ser usada como isco na pesca, gesto esse que lhe vale, pela primeira vez, a admiração de Kovac.

A diversidade de personagens (um industrial, um comunista, um negro, uma jornalista, etc.) representava, para Hitchcock, as contradições dos países democráticos, incapazes de se unir, e procurar um caminho. Por isso sucumbiam às mãos do inimigo que sabia o que queria, e o praticava com competência. É isso que nos mostra o alemão Willy.

O filme passou bastante despercebido nos Estados Unidos, como um simples exercício, abaixo da bitola do mestre inglês, e não lhe perdoavam o facto de mostrar um alemão como o mais inteligente dos passageiros do barco. Por ser esse exercício de coragem, “Um Barco e Nove Destinos” foi um objecto de culto entre os cinéfilos, que durante muito tempo o consideraram a obra maior de Hitchcock. Foi ainda assim nomeado para três Oscars: Melhor Realização, Melhor Fotografia a Preto e Branco e Melhor História (Oscar já desaparecido).

Produção:

Título original: Lifeboat; Produção: Twentieth Century-Fox; País: EUA; Ano: 1944; Duração: 97 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox; Estreia: 28 de Janeiro de 1944 (EUA), 8 de Janeiro de 1945 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Kenneth MacGowan; Argumento: Jo Swerling [baseado numa história de John Steinbeck]; Fotografia: Glen MacWillams [preto e branco]; Direcção Artística: James Basevi, Maurice Ransford; Cenários: Thomas Little; Montagem: Dorothy Spencer; Figurinos: Rene Hubert; Caracterização: Guy Pearce; Efeitos Especiais: Fred Sersen; Música: Hugo W. Friedhofer; Direcção Musical: Emil Newman.

Elenco:

Tallulah Bankhead (Constance ‘Connie’ Porter), William Bendix (Gus Smith), Walter Slezak (Willy), Mary Anderson (Alice MacKenzie), John Hodiak (John Kovac), Henry Hull (Charles S. Rittenhouse), Heather Angel (Mrs. Higgins), Hume Cronyn (Stanley ‘Sparks’ Garett), Canada Lee (George ‘Joe’ Spencer), William Yetter, Jr. (Soldado Alemão) [não creditado].

Anúncios