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Shadow of a DoubtFrequentemente citado como o seu filme preferido de quantos realizou, “Mentira” foi o regresso de Alfred Hitchcock aos thrillers psicológicos de trama familiar. Novamente cedido por Selznick, Hitchcock encontrou no produtor Jack H. Skirball o veículo para filmar uma história de Gordon McDonell, com argumento de Thornton Wilder, um escritor muito admirado pelo realizador inglês. Joseph Cotten e Teresa Wright são o par que imortaliza as personagens daquele que tem sido unamimemente considerado uma das primeiras obras-primas de Hitchcock.

Sinopse:

Em casa dos Newton reina a monotonia que, se para os progenitores (Henry Travers e Patricia Collinge) é bem vinda, para a adolescente Charlie (Teresa Wright) é um enorme aborrecimento. Esta sonha com a visita do seu tio, o viajado e sofisticado Charlie Oakley (Joseph Cotten), com quem ela sente sente afinidades que vão para além de partilharem o mesmo nome. A chegada inesperada do tio Charlie é vista como uma lufada de ar fresco, mas cedo a sobrinha, na ânsia de descobrir mais sobre o tio, começa a suspeitar que este esconde um terrível segredo. Quanto mais a rapariga tenta chegar ao âmago do mistério, mais sente que a sua própria vida poderá estar em perigo.

Análise:

Continuando sob contrato com David O. Selznick, Hitchcock viu-se a trabalhar com Jack H. Skirball, para quem realizou aquele que muitas vezes citou como o seu filme preferido da sua longa carreira. Como explicado a Truffaut, tal deveu-se principalmente a sentir ter finalmente feito um filme capaz de agradar aos fanáticos da lógica e plausibilidade, ao mesmo tempo que sentia a satisfação de trabalhar com um argumentista que muito admirava, Thornton Wilder.

“Mentira” pode ser visto como um sucessor de “Rebecca” (Rebecca, 1940) e “Suspeita” (Suspicion, 1941). Como eles, trata-se de um thriller psicológico, no qual tudo revolve em torno da dinâmica de duas pessoas próximas, cuja aparente cumplicidade inicial evolui para uma guerra surda de suspeitas, que os podem colocar em rota de colisão. Nos três filmes a mulher é a vítima, através de cujo olhar tentarmos destrinçar o mistério que o homem esconde.

Neste caso trata-se de um duelo entre tio e sobrinha, curiosamente ambos com o mesmo nome, Charlie. Ela (Teresa Wright), é uma jovem da província que sonha com a sofisticação que o tio da grande cidade poderá trazer à sua vida. Ele (Joseph Cotten) é um aventureiro misterioso, com um passado talvez demasiado negro. A preversão da relação é evidente quando se percebe que tio e sobrinha se vêem como as pessoas preferidas um do outro, e é desde logo insinuada uma paixão romântica da parte da jovem Charlie.

Como duas faces da mesma moeda os dois Charlies, admiram-se à distância, talvez pelo tanto que os distingue. Ela é uma romântica ingénua, um último reduto de inocência. Ele é um cínico amargurado, que Hitchcock chamaria um assassino idealista, já sem qualquer esperança na humanidade ou em si próprio. Ambos vão colidir quando em presença um do outro. Tal é claro a partir do momento em que a jovem sobrinha começa a ler mais do que deve nos mistérios do elusivo tio. A partir daí a relação torna-se tensa, como um jogo a dois, que mais ninguém entende, e que os protagonistas tentam gerir com frieza.

Notável pelo cuidado com que recria uma cidade de província, o filme é eficaz em todos os detalhes, desde a casa dos Newton ao comportamento dos familiares (brilhante desempenho de Henry Travers e Patricia Collinge), o humor dos menores, os rituais e a caracterização da cidade e seus habitantes. De destacar são mesmo os cómicos diálogos entre os personagens de Henry Travers e Herbie Hawkins, sempre preocupados em delinear morbidamente o crime perfeito, um tema a que Hitchcock recorria em diversos filmes desde o já citado “Suspeita”, e que culminará na trama principal de “O Desconhecido do Norte Expresso” (Strangers on a Train, 1951).

Filmado numa atmosfera negra, Hitchcock desenvolve nele os seus métodos de adensar o clima. Veja-se como a casa começa como um local arejado, para se ir aos poucos tornando opressora, e onde Teresa Wright começa como uma jovem rebelde, vestindo airosos vestidos, para ir crescendo ao longo da história passando a vestir roupas mais negras e pesadas. Mas o que mais marca são os muitos momentos de suspense, onde os braços de ferro entre sobrinha e tio são surdos, mas intensos. As interpretações de Teresa Wright e Joseph Cotten são exemplares, conferindo aos seus personagens uma profundidade que nos parece sempre impossível de atingir na totalidade.

Mais uma vez, a música desempenha um papel fundamental com um tema a servir de leitmotiv no evoluir do argumento. Este é a valsa “A Viúva Alegre” de Franz Lehár, não só trauteada pelos personagens, como um indicador de que a solução poderá estar a aproximar-se, mas também como parte da banda sonora. De facto, Dimitri Tiomkin, que trabalharia mais algumas vezes com Hitchcock, compõe a sua belíssima partitura com imensas variações desta valsa, que surgem sempre (e ainda que brevemente) que os crimes ou o passado de Charlie Oakley são mencionados ou sugeridos.

Fazendo do seu protagonista um assassino, Hitchcock não resistiu ao moralismo de o matar no final, quando este se preparava para implacavelmente eliminar a sobrinha, mesmo depois de esta já não ser uma ameaça real. A morte do tio Charlie às mãos da sobrinha, mais que um final moralizante é também a preversa libertação de uma teia em que a jovem Charlie se encurralara, ao permitir-se descobrir a verdade sobre aquele que queria amar. Esta é a preversão final num filme de preversões implícitas, que foi nomeado para o Oscar de Melhor História, um prémio hoje já não existente.

O filme teve um remake intitulado “Step Down to Terror” (1958) realizado por Harry Keller.

Produção:

Título original: Shadow of a Doubt; Produção: Skirball Productions, Universal Pictures; País: EUA; Ano: 1943; Duração: 103 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 12 de Janeiro de 1943 (EUA), 25 de Abril de 1945 (Cinemas Odeon e Palácio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Jack H. Skirball; Argumento: Thornton Wilder, Sally Benson e Alma Reville [baseado na história de Gordon McDonell]; Fotografia: Joseph A. Valentine [preto e branco]; Música: Dimitri Tiomkin; Direcção Artística: John B. Goodman; Cenários: Russell A. Gausman; Direcção Musical: Charles Previn; Montagem: Milton Carruth; Figurinos: Vera West; Efeitos Visuais: John P. Fulton [não creditado].

Elenco:

Teresa Wright (Jovem Charlie), Joseph Cotten (Tio Charlie), Macdonald Carey (Jack Graham), Henry Travers (Joseph Newton), Patricia Collinge (Emma Newton), Hume Cronyn (Herbie Hawkins), Wallace Ford (Fred Saunders), Edna May Wonacott (Ann Newton), Charles Bates (Roger Newton), Irving Bacon (Chefe da Estação), Clarence Muse (Porteiro), Janet Shaw (Louise), Estelle Jewell (Catherine).

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