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SaboteurAinda sob contrato com David O. Selznick, Hitchcock era alugado pela quarta vez consecutiva, desta vez ao produtor independente Frank Lloyd. O resultado foi o mais um filme de espionagem, numa espécie de revisita a “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935). Com argumento de Peter Viertel, Joan Harrison e Dorothy Parker, Hitchcock juntou Robert Cummings e Priscilla Lane (esta imposta pela Universal contra a vontade de Hitchcock), para um filme que era quase uma antologia de toda a sua temática.

Sinopse:

Quando rebenta uma explosão na fábrica de aeronáutica onde Barry Kane (Robert Cummings) trabalha, ele é um dos primeiros a acorrer ao local, mas o extintor que passa ao amigo Mason está cheio de gasolina, sem que eles o saibam. Tal leva à morte de Mason, perante o olhar do misterioso Fry (Norman Lloyd), que ninguém antes vira. A investigação policial aponta Kane como principal suspeito, o qual refere apresença de Fry, sem que ninguém o acredite. Recusando-se a ser preso por um crime que não cometeu, Kane resolve fugir e investigar a verdade pelos seus próprios meios.

Análise:

Três anos depois da sua chegada aos Estados Unidos, Alfred Hitchcock continuava sob contrato com David O. Selznick, que via nele um activo rentável, continuando a alugar os seus serviços a outros estúdios. Tal foi o caso de “Sabotagem”, inicialmente considerado por Selznick, mas depois passado ao produtor independente, e antigo realizador, Frank Lloyd, distribuído pela Universal Pictures, o que tornou inviável a contratação das escolhas iniciais de Hitchcock: Gary Cooper e Barbara Stanwyck.

Numa altura em que os Estados Unidos tinham já entrado na II Guerra Mundial, Hitchcock revoltava-se contra certos sectores da sociedade, claramente fascistas, que nutriam visível simpatia pelo lado Nazi. Tal inspirou a história que serviu de base ao argumento, escrito por Peter Viertel, Joan Harrison e Dorothy Parker (esta trazida pela Universal para escrever os discursos patrióticos). O filme tem por isso um claro sabor de propaganda de guerra, como era então tendência crescente no cinema norte-americano. Nele são claros os elogios à liberdade, democracia e modo de viver americano, bem como a denúncia do fascismo.

O tema da sabotagem era uma recuperação do filme “À 1 e 45” (Sabotage, 1936), em cujas entrelinhas se podia já detectar um subtexto político. Tal como no filme de 1936, assistimos logo no início a um acto de sabotagem. Nele morre um empregado de uma fábrica de aeronáutica, enquanto o seu amigo Barry Kane (Robert Cummings) é erradamente acusado do crime. Tudo isto acontece sob o olhar de um tal Fry (Norman Lloyd) que ninguém antes vira, e que depois ninguém parece lembrar. Resta a Barry encontrar Fry para provar a sua inocência, pelo caminho acabando por descobrir a existência de uma rede fascista que quer acabar com os Estados Unidos tal como existem, e é formada por figuras destacadas da sociedade.

Mas se o tema lembra “À 1 e 45”, é na verdade em “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935) que o novo filme de Hitchcock mais se inspira. Todos os antigos conceitos hitchcockianos estão lá, e vale a pena relembrá-los. Temos o falso culpado, acusado injustamente, e por isso colocado em fuga, entrando assim, sem o desejar, num meio de mistério, que terá de resolver por conta própria. Temos os jovens em fuga, com um par (Robert Cummings e Priscilla Lane) que, como sempre, é formado numa oposição entre o homem inocente em maus lençóis, e a mulher arrogantemente superior e incrédula, que aos poucos irá ceder às verdade. Não faltam mesmo as icónicas algemas, que num misto de fetichismo e de simbolismo, colocam o homem em posição de inferioridade e dominação. Temos o habitual périplo, desta vez pelos Estados Unidos, como em “Os 39 Degraus” fora pelo Reino Unido. Temos as sucessivas fugas, vilões charmosos (Otto Kruger) e inspiradas saídas airosas em locais públicos (desta vez um inesperado leilão num baile de caridade). Temos por fim o final apoteótico num lugar simbólico – A Estátua da Liberdade – com a ideia da queda, como o castigo dos maus e redenção dos bons (note-se ainda a escada em espiral que leva ao lugar da queda).

Por todas estas razões “Sabotagem” pode também ser visto como um percursor de “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959) onde Alfred Hitchcock, confessadamente, refinou algumas ideias, e contou com a presença de um actor bem mais do seu agrado (Cary Grant), sem desprimor para Robert Cummings, que Hitchcock apreciava, e com quem voltaria a trabalhar.

Não obstante o seu contexto político, “Sabotagem” insere-se no género de espionagem de que Hitchcock se tornava mestre. O filme segue o ritmo habitual, cheio de momentos de suspense, em que Hitchcock joga, ora com os personagens, ora com o púlbico. Presente está sempre o seu humor (veja-se a sequência passada na carruagem do circo) e a sua ironia. O filme mostra bem a preversão com que Hitchcock mostra a sociedade americana, onde o casal em fuga é constantemente ajudado pelas figuras mais inesperadas e rejeitadas da sociedade (um velho cego, um camionista, actores ambulantes), enquanto as pessoas da alta sociedade são simpatizantes fascistas, e as autoridades funcionam às cegas sem qualquer competência.

Destaque para a sequência do tiroteio num cinema, onde na tela se vê outro tiroteio (novamente a reminiscência de “À 1 e 45”), e para a última sequência do filme, com a batalha final entre a democracia e o fascismo a travar-se no topo da Estátua da Liberdade, em mais um fecho icónico bem ao gosto de Hitchcock. Também essa sequência seria refeita de modo mais elaborado em “Intriga Internacional”.

Apesar de ser praticamente um filme série B, “Sabotagem” foi muito bem recebido pelo público e pela crítica, tendo sido financeiramente lucrativo. Hoje, raramente considerado entre as grandes obras de Hitchcock, é ainda assim um exemplo do melhor que o mestre inglês fez no campo do thriller de espionagem, e resulta como uma síntese do seu trabalho até então, e um percursor do que estava por vir.

Produção:

Título original: Saboteur; Produção: Frank Lloyd Productions / Universal Pictures; País: EUA; Ano: 1942; Duração: 104 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 22 de Abril de 1942 (EUA), 7 de Março de 1945 (Cinemas Ódeon e Palácio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Frank Lloyd [não creditado]; Produtor Associado: Jack H. Skirball; Argumento: Peter Viertel, Joan Harrison, Dorothy Parker [baseado numa história de Alfred Hitchcock]; Fotografia: Joseph A. Valentine [preto e branco]; Direcção Artística: Jack Otterson; Montagem: Otto Ludwig, Edward Curtiss [não creditado]; Cenários: Russell A. Gausman; Direcção Musical: Charles Previn; Música: Frank Skinner; Efeitos Visuais: John P. Fulton [não creditado].

Elenco:

Priscilla Lane (Paticia Martin), Robert Cummings (Barry Kane), Otto Kruger (Charles Tobin), Alan Baxter (Freeman), Clem Bevans (Neilson), Norman Lloyd (Frank Fry), Alma Kruger (Mrs. Sutton), Vaughan Glaser (Phillip Martin), Dorothy Peterson (Mrs. Mason), Ian Wolfe (Robert), Frances Carson (Senhora da Alta Sociedade), Murray Alper (Camionista), Kathryn Adams (Jovem Mãe), Pedro de Cordoba (Esqueleto Humano – Circo), Billy Curtis (Anão – Circo), Marie LeDeaux (Mulher Montanha – Circo), Anita Sharp-Bolster (Lorelei – Circo), Jean Romer (Gémea Siamesa – Circo), Lynne Romer (Gémea Siamesa – Circo), Virgil Summers (Ken Mason) [não creditado], Selmer Jackson (Chefe do FBI) [não creditado].

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