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Fahrenheit 451Sinopse:

Num futuro próximo, os livros foram proibidos pelas autoridades, num regime ditatorial, que tenta controlar a liberdade de pensamento e criatividade. Guy Montag (Oskar Werner) é elemento do corpo de bombeiros, cuja única actividade é procurar livros escondidos, e queimá-los. Mas quando Montag conhece a sua vizinha Clarisse (Julie Christie), uma leitora de livros e livre-pensadora, este fica chocado pelo constraste com a sua esposa Linda (também Julie Christie), a qual vive eternamente sedada, e influenciada pelo sistema de televisões interactivas que invade a privacidade de cada casa. Tal torna Montag curioso, levando-o a confiscar livros e a começar a lê-los em segredo, sabendo que percorre um caminho que o colocará em perigo, quando descoberto.

Análise:

Em 1966, François Truffaut, uma das figuras mais importantes da Nouvelle Vague francesa, realizou o seu primeiro filme a cores e único em língua inglesa. Um ano depois do filme “Alphaville”, do seu amigo Jean-Luc Godard, também Truffaut experimentava o género da ficção científica, na produção britânica “Grau de Destruição”, baseado no livro de de Ray Bradbury, de 1953, “Fahrenheit 451”. Foi ainda a primeira produção europeia da Universal Pictures.

Escrito como uma reacção ao McCarthismo, e ao que isso representava de perda de liberdade e de controlo de pensamento, “Fahrenheit 451” era, para Ray Bradbury, o seu único verdadeiro livro de ficção científica. Bradbury definia este género como a arte do possível, que ele opunha a o que constitui o grosso da sua obra (fantasia, aventura, horror, surrealismo e grotesco) a que chamava a arte do impossível, do mesmo modo que o são os mitos e lendas. Não obstante, Bradbury é vulgarmente considerado um dos maiores e mais influentes escritores de ficção científica do século XX.

“Grau de Destruição” foi rodado em Inglaterra, com actores de língua inglesa, à excepção do protagonista, Oskar Werner, com quem Truffaut viria a ter muitos problemas de relacionamento, que tornaram este filme, nas suas palavras, a mais triste e difícil experiência da sua carreira. Com um argumento escrito em francês, a meias com Jean-Louis Richard, os diálogos tiveram que ser traduzidos para inglês, com um resultado que desagradaria a Truffaut (que não dominava a língua). Este viria a preferir a versão posteriormente dobrada para francês. O filme constitui, um pouco, um passo ao lado na carreira de Truffaut, distanciando-se da sua temática e estética habituais.

Em “Grau de Destruição”, Truffaut mostra-nos de modo algo cru, embora mais polido que na sua obra anterior, e sob a música ostensiva de Bernard Herrmann (habitual colaborador de Hitchcock, de quem Truffaut era confesso admirador), uma sociedade futurística onde a cor, a alegria, a criatividade e individualismo quase desapareceram. Nesta sociedade, a dependência de drogas receitadas, e a influência de uma televisão intrusiva e dominadora fazem de todas as pessoas pouco mais que autómatos, perfeitamente condicionados para seguir sem fazer perguntas, dentro de comportamentos uniformizados.

O lado mais visível do braço totalitário do regime é o corpo de bombeiros, que aqui não tem por missão apagar incêndios (pois estes foram já erradicados, pelo uso de materiais não inflamáveis), mas sim de os atear, ou mais concretamente de usar o fogo para queimar livros. Os livros tornaram-se objectos proibidos e inimigos do regime, por estimularem o pensamento e ideias nocivas. Por essa razão, são procurados, confiscados e queimados publicamente. Qualquer leitor de livros é considerado um criminoso, podendo incorrer em pena de morte.

Figura fulcral é o bombeiro Guy Montag (Oskar Werner), a início um perfeito instrumento do regime, mas aos poucos questionando o que está por detrás da política oficial. Este é desafiado aos poucos pela irreverente Clarisse (Julie Christie) que o lembra a sua esposa Linda (também Julie Christie). Só que, enquanto Linda é apática, constantemente sedada e influenciada pela televisão, Clarisse é uma livre pensadora, que vai estimular em Montag o desejo de ler livros.

O filme (bem como o livro de Bradbury), pela sua descrição de uma sociedade totalitária, que controla o pensamento e reprime a cultura, tem sido comparado a “1984” de George Orwell, embora numa atmosfera mais leve, o que lhe tem valido algumas acusações. Nas mãos de Truffaut, o livro de Ray Bradbury surge exorcizado de alguns dos seus aspectos mais negativos (o papel da guerra, a morte de Clarisse, etc.), dando-nos uma versão algo ingénua, e bastante estilizada do que seria a sociedade totalitária imaginada por Bradbury. O próprio design confere ao filme uma estética que facilmente o identifica e data, o que lhe tem valido, por isso, tanto críticas como elogios. Notável é, no entanto, o uso da fotografia, com cores pouco saturadas, que por vezes nos fazem sentir estarmos perante tonalidades de cinzento, que nos trazem uma atmosfera de desolação.

Um dos pontos mais fracos será, claramente, o elenco, com interpretações forçadas de Oskar Werner e Julie Christie, esta em dois papéis, para melhor se evidenciar os contrastes na vida de Montag.

Patente fica a homenagem de Truffaut à literatura, não só nos imensos grandes planos de obras universais prestes a ser queimadas, como na sequência final com as pessoas-livro, onde assistimos a um perene recitar de obras célebres num entrecruzar de caminhos e palavras na serenidade de uma floresta. Uma homenagem ao valor imortal da literatura, transversal a todo o filme (quase numa autocrítica ao cinema), e que o próprio Ray Bradbury elogiou.

Produção:

Título original: Fahrenheit 451; Produção: Enterprise Vineyard Productions; País: Reino Unido; Ano: 1966; Duração: 112 minutos; Distribuição: J. Arthur Rank Film Distributors (Reino Unido), Universal Pictures (EUA); Estreia: 6 de Setembro de 1966 (Festival de Veneza, Itália), 15 de Setembro de 1966 (Reino Unido), 2 de Novembro de 1966 (EUA), 29 de Dezembro de 1967 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: François Truffaut; Produção: Lewis M. Allen; Produtor Associado: Michael Dalamar; Argumento: François Truffaut, Jean-Louis Richard [baseado no livro de Ray Bradbury]; Diálogos Adicionais: David Rudkin [não creditado], Helen Scott [não creditada]; Música: Bernard Herrmann; Fotografia: Nicolas Roeg [cor por Technicolor]; Design de Produção: Syd Cain, Tony Walton; Direcção Artística: Syd Cain; Figurinos: Tony Walton; Montagem: Thom Noble; Caracterização: Basil Newall; Efeitos Especiais: Charles Staffell, Les Bowie [não creditado]: Directores de Produção: Ian Lewis, Tony Walton.

Elenco:

Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Clarisse / Linda Montag), Cyril Cusack (O Capitão), Anton Diffring (Fabian / Headmistress), Jeremy Spenser (Homem com a Maçã), Bee Duffell (Mulher Livro), Alex Scott (Homem Livro: ‘The Life of Henry Brulard’).

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