Etiquetas

, , , , , , , ,

Mr. & Mrs. SmithComo sua terceira longa-metragem nos Estados Unidos, Alfred Hitchcock aventurava-se no mundo da comédia, um género que já tinha tocado nalguns dos seus filmes ingleses. O filme terá surgido como um favor à sua amiga Carol Lombard, que dividiria o protagonismo com Robert Montgomery, e tinha argumento de Norman Krasna, alguém completamente estranho às habituais colaborações do realizador. “O Sr. e a Sra. Smith” foi produzido pela RKO Pictures que alugaria os servições de Hitchcock a David O. Selznick para mais alguns filmes.

Sinopse:

Ann (Carole Lombard) e David Smith (Robert Montgomery) são um casal que vive numa dinâmica muito peculiar, resultando em momentos de extram a paixão e guerras intempestivas. Um dia são ambos informados (em separado) de que a sua licença de casamento nunca foi válida, devido a um erro burocrático. A pergunta “Se pudéssemos voltar atrás faríamos tudo igual?” assalta-os, e uma série de mal entendidos e hesitações vão atirá-los um contra o outro, num jogo de orgulhos e braços de ferro. A entrada em cena de Jeff Custer (Gene Raymond) torna-se mais uma acha na fogueira que parece ir consumir o casal. Mas por mais que briguem, há algo que nunca deixa de atrair o Sr. e a Sra. Smith um para o outro.

Análise:

Em 1941 viu a luz do dia um dos filmes mais atípicos da fase americana de Hitchcock, a comédia romântica “O Sr. e a Sra. Smith”. Tal terá sido uma encomenda da RKO (a quem Selznick alugara os serviços do inglês), e segundo o realizador, um favor feito à sua amiga, a actriz Carole Lombard, então esposa de Clark Gable.

“O Sr. e a Sra. Smith” foi a única verdadeira comédia americana de Alfred Hitchcock. E conquanto se possa dizer que, sob o peso do sistema, Hitch dirigiu um filme no qual não pode ser encontrado muito do seu cunho pessoal, ainda assim conseguiu um grande sucesso de bilheteira e uma comédia divertidíssima.

Como é apanágio das Screwball Comedies, nas quais “O Sr. e a Sra. Smith” sem dúvida se insere, o filme vive do braço de ferro entre os dois protagonistas, Ann Krausheimer Smith (Carole Lombard), David Smith (Robert Montgomery), e dos autênticos duelos de palavras e situações nas quais ambos constantemente se confrontam. Mas ao contrário das mais famosas Screwball Comedies, “O Sr. e a Sra. Smith” não lhes imita o ritmo alucinante e por vezes semi-caótico, mantendo sempre o rigor e classe naturais de Hitchcock, que neste filme chegou a ser comparado a Lubitsch.

Como sempre, o ponto de partida é um mal entendido, este causado por um erro burocrático que cancelou um casamento de vários anos, dando ao casal a oportunidade de rever o casamento (simbolizado pelo vestido que já não serve, e pelo restaurante que já não é o que era). Mas mais que uma decisão racional, ou uma reavaliação das suas vidas e casamento, o erro é um simples pretexto para um jogo de teimosias e vontades, que lança o par a caminho do abismo. Como habitual neste tipo de comédias, há uma sensação de que nada (nem sequer eles próprios) os pode separar, e que por mais males que inflijam um ao outro, todos eles servirão para a conhecida conclusão, que é o reconhecimento de duas almas que se complementam para além de qualquer explicação.

São muitos os momentos em que Hitchcock expõe o seu sentido de humor, como o gato do restaurante “Mama Lucy”, o equívoco do “Florida Club”, o nariz de David, as conversas no clube para onde se retira, e claro, a sequência final na cabana na neve. Esta é de facto deliciosa, pela quantidade de manipulações com que David tenta quebrar a vontade da esposa, com Lombard e Montgomery a usar toda a sua arte para nos levar num carrossel de golpes e contra-golpes até ao “colapso” final (terminando com Lombard amarrada aos esquis, à disposição do marido, numa perversão tão hitchcockiana).

Se bem que os papéis pareçam ser feitos para uma dupla como Katharine Hepburn e Cary Grant, Lombard e Montgomery conseguem levar o filme a bom porto, convencendo-nos e divertindo-nos com um argumento inteligente, e tiradas sempre incisivas.

Desprezado pelo próprio Hitchcock como um filme em que não se revê, “O Sr. e a Sra. Smith” foi o último filme estreado em vida de Carol Lombard, que morreria tragicamente pouco depois, e o penúltimo da sua carreira.

Produção:

Título original: Mr. & Mrs. Smith; Produção: RKO Radio Pictures; Produtor Executivo: Harry E. Edington; País: EUA; Ano: 1941; Duração: 95 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 31 e Janeiro de 1941 (EUA), 14 de abril de 1944 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Argumento: Norman Krasna; Fotografia: Harry Stradling Sr. [preto e branco]; Música: Edward Ward; Direcção Artística: Van Nest Polglase, Albert S. D’Agostino [não creditado]; Cenários: Darrell Silvera; Montagem: William Hamilton; Figurinos: Irene; Caracterização: Mel Berns [não creditado]; Efeitos Especiais: Vernon L. Walker.

Elenco:

Carole Lombard (Ann Smith), Robert Montgomery (David Smith), Gene Raymond (Jeff Custer), Jack Carson (Chuck Benson), Philip Merivale (Mr. Ashley Custer), Lucile Watson (Mrs. Custer), William Tracy (Sammy), Charles Halton (Mr. Harry Deever), Esther Dale (Mrs. Krausheimer), Emma Dunn (Martha), Betty Compson (Gertie), Patricia Farr (Gloria), William Edmunds (Dono do Lucy’s), Pamela Blake [como Adele Pearce] (Lily).

Anúncios