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AmadeusApós uma tentativa de suicídio o idoso António Salieri (F. Murray Abraham) confessa-se a um padre no hospital. Aí conta porque se sente o assassino de Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce). Salieri narra como viu Mozart chegar a Viena, trazendo uma música muito superior à sua, e como o tentou boicotar de todas as formas, ainda que mais ninguém apreciasse a música de Mozart como ele. Por entre admiração e ódio, Salieri via em Mozart um instrumento divino criado apenas para o martirizar, decidindo que boicotar a obra de Mozart seria uma vingança contra Deus, por não lhe ter dado a mesma inspiração.

Análise:

Em 1984 Miloš Forman realizou um dos seus mais bem sucedidos filmes, o multi-premiado “Amadeus”, dedicado à relação entre os compositores António Salieri e Wolfgang Amadeus Mozart. O filme foi uma adaptação da também premiada peça de teatro do mesmo nome de Peter Shaffer, a qual estreara em 1979, e era ela própria uma adaptação da peça de Alexander Pushkin, “Mozart i Salieri”, base do libreto da ópera homónima de 1897 de Nikolai Rimsky-Korsakov.

Partindo de uma série de dificuldades, como foi o facto de nenhum dos principais estúdios de Hollywood querer financiar o projecto (segundo Forman, música clássica, nomes compridos e perucas não vendiam na era da MTV), o realizador teve o apoio de Saul Zaentz, que lhe permitiu produzir o filme na Europa (Checoslováquia e Itália, por vezes usando cenários naturais, como ruas e alguns interiores de palácios), embora com um elenco maioritariamente americano.

Conhecido pelo seu estilo irreverente de filmar, que lhe permite usar um certo classicismo, mas sempre de modo fresco e surpreendente, Miloš Forman compôs um filme que, embora tenha todos os ingredientes de um filme de época, deixa de lado o academicismo. Fazendo pleno uso de um argumento, o qual é já de si uma provocação, Forman dá-nos uma visão alternativa da idade adulta de Mozart em Viena, vista pelos olhos de um compositor seu contemporâneo.

A história é uma narrativa, na primeira pessoa, de António Salieri (F. Murray Abraham), um compositor italiano da corte vienense, que se dedica a Deus em troca de inspiração para exercer aquilo que considera a mais suprema das artes, a música. Só que a chegada de Mozart (Tom Hulce) à corte do imperador José II (Jeffrey Jones), vem deitar por terra todas as sua convicções. É que, não só Salieri vê em Mozart alguém cujo talento é vastamente superior ao seu, como percebe que este é um blasfemo, desrespeitador e de todo imerecedor da atenção divina. Salieri vê nesta constatação uma prova de que Deus o está a castigar e a rir-se de si de cada vez que Mozart compõe nova obra. Como vingança sobre Deus, Salieri decide boicotar a carreira de Mozart, numa constante guerra surda que causará a extenuação e finalmente a morte do jovem compositor austríaco.

Com uma história de rivalidade como pano de fundo, o que mais destaca o argumento de Shaffer é a ambiguidade da relação entre os dois homens. Mozart, imagem da inocência, ri da música de Salieri, mas teme o homem que vê como figura de poder. Salieri abomina o homem Mozart, mas admira-lhe a música como mais ninguém no seu tempo. Sendo a narrativa o ponto de vista de Salieri, o dramatismo vem exactamente do facto de que o seu ódio pelo talento alheio provir da admiração extrema que tem pela sua música. Salieri tem o poder para manobrar nos bastidores, fazendo, por exemplo, com que uma ópera de Mozart não tenha mais que cinco exibições… mas assiste a todas.

Com a música como tema central, “Amadeus” é um dos filmes que mais inteligentemente faz uso da banda sonora (maioritariamente composta pelas imortais obras de Mozart). A música, diegética ou não, nunca surge como um adorno, antes é elemento dramático e de propulsão narrativa, envolvendo-se na história como um actor de pleno direito.

Desde as os acordes iniciais da cena final de “Don Giovanni”, que nos mostram a tensão entre Mozart e o seu pai, até à desconstrução de composições através do ouvido e narração de Salieri, a música marca os tempos e estados de espírito. As situações são demasiadas para se poderem citar todas, mas fique como exemplo as primeiras notas da Serenata para Sopros K. 361/370ª, que introduz Mozart a Salieri, ou toda a sequência final em que vemos os vários andamentos do Requiem K. 626 serem compostos num verdadeiro duelo entre os dois compositores. Exemplo após exemplo, cada excerto musical é um catalizador de acção e de emoções, e um ponto forte na narrativa, de um modo raramente (nunca?) antes filmado.

Com todos estes condimentos, “Amadeus”, não sendo uma biografia de Mozart, e contendo, propositadamente vários factos falsos, é um filme de época que transcende quaisquer padrões pré-estabelecidos. Dados os conflitos em jogo, as ambiguidades e toda aquela força maior que a vida, que vemos Salieri gritar até ao fim, no reconhecimento do seu falhanço perante o génio inexplicável de Mozart, sentimos sempre estar perante uma obra invulgar e arrebatadora. Inesquecíveis são, finalmente, as interpretações dos dois actores principais, F. Murray Abraham e Tom Hulce, porventura as melhores das suas carreiras.

O filme foi premiado com 11 nomeações para os Oscars, vencendo 8, entre as quais as de Melhor Filme, Realizador, Actor (F. Murray Abraham, que competia com Tom Hulce) e Argumento Adaptado, troféus que receberia também nos Globos de Ouro, a juntar a inúmeras outras nomeações e prémios.

Em 2002 foi editado “Amadeus: The Director’s Cut”, numa versão que inclui 20 minutos adicionais.

Produção:

Título original: Amadeus; Produção: AMLF / The Saul Zaentz Company; Produtores Executivos: Michael Hausman, Bertil Ohlsson; País: EUA; Ano: 1984; Duração: 153 minutos; Distribuição: Orion Pictures; Estreia: 6 de Setembro de 1984 (EUA), 21 de Fevereiro de 1985 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Miloš Forman; Produção: Saul Zaentz; Argumento: Peter Shaffer [adaptado da sua própria peça]; Fotografia: Miroslav Ondrícek [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Música: Wolfgang Amadeus Mozart; Direcção de Orquestra: Neville Marriner; Coordenação Musical: John Strauss; Coreografia: Twyla Tharp; Design de Produção: Patrizia von Brandenstein; Direcção Artística: Karel Cerný; Cenários de Ópera: Josef Svoboda; Figurinos: Theodor Pistek; Montagem: Michael Chandler, Nena Danevic; Caracterização: Paul LeBlanc; Directores de Produção: Václav Rouha (Checoslováquia), James Fee (Itália).

Elenco:

F. Murray Abraham (Antonio Salieri), Tom Hulce (Wolfgang Amadeus Mozart), Elizabeth Berridge (Constanze Mozart), Simon Callow (Emanuel Schikaneder), Roy Dotrice (Leopold Mozart), Christine Ebersole (Katerina Cavalieri), Jeffrey Jones (Imperador José II), Charles Kay (Conde Orsini-Rosenberg), Kenny Baker (Comendador da Paródia), Lisabeth Bartlett (Papagena), Barbara Bryne (Frau Weber), Martin Cavina (Jovem Salieri), Roderick Cook (Conde Von Strack), Milan Demjanenko (Karl Mozart), Peter DiGesu (Francesco Salieri), Richard Frank (Padre Vogler), Patrick Hines (Kappelmeister Bonno), Nicholas Kepros (Arcebispo Colloredo), Philip Lenkowsky (Criado de Salieri), Herman Meckler (Padre), Jonathan Moore (Barão Van Swieten), Cynthia Nixon (Lorl), Brian Pettifer (Funcionário do Hospital), Vincent Schiavelli (Criado de Salieri), Douglas Seale (Conde Arco), Miroslav Sekera (Jovem Mozart), John Strauss (Maestro), Karl-Heinz Teuber (Vendedor de Perucas).

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