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Things to ComeSinopse:

Em 1940, na cidade de Everytown, três amigos cientistas, Cabal (Raymond Massey), Harding (Maurice Braddell) e Passworthy (Edward Chapman) conversam acerca dos avanços da ciência e preocupações com a guerra, quando rebenta uma guerra total que quase aniquila a humanidade. Em 1970, quando os efeitos dos gases e as doenças subsequentes já se dissiparam, Everytown é dominada por um chefe cruel (Ralph Richardson), que domina como senhor da guerra medieval.

Com a chegada de um avião, pilotado pelo idoso Cabal, chegam as notícias de que uma nova civilização, baseada na ciência, desponta em Basra. Embora o chefe aprisione Cabal, os seus companheiros chegam e libertam-no incorporando Everytown no novo estado Wings Over the World.

Finalmente, em 2036, a nova Everytown é uma cidade governada por cientistas, onde se destaca o neto de Cabal. Mas existem protestos, liderados pelo escultor Theotocopulos (Cedric Hardwicke), que clama pelo fim do progresso, e apela ao povo que boicote o lançamento de um fogetão para a Lua.

Análise:

Se é verdade que H. G. Wells sempre foi considerado um dos pais da ficção científica, com obras que mostram um carácter profético, a sua obra “The Shape of Things to Come”, que o próprio considerava mais um ensaio sobre o futuro que uma obra de ficção, faz completa justiça a essa avaliação.

Com realização de William Cameron Menzies (um realizador e director artístico com vasta experiência no cinema mudo), Alexander Korda produziu em 1936 o filme “A Vida Futura”, um perfeito espelho do poder profético da obra de Wells, ao descrever acontecimentos que viriam a ocorrer nos anos seguintes. De facto, o filme estreou três anos antes do início da Segunda Guerra Mundial, prevendo que esta começaria no Natal em 1940 (um ano depois do seu verdadeiro início), e adivinhando em pleno o papel da força aérea, mostrando bombardeamentos, abrigos e defesas anti-aéreas e destruição que são demasiado semelhantes ao que aconteceria na Europa nos anos seguintes.

O filme divide-se em três actos, com acção a decorrer respectivamente em 1940, 1970 e 2036. De um início em que vemos uma civilização desabar sob o peso das bombas, do gás (algo que depois da Primeira Guerra Mundial se esperava voltasse a ser usado) e das doenças, passamos a um segundo acto em que triunfou quem foi capaz de fazer o mais difícil: matar os doentes. Este é um período negro em que a lei da força é a única reconhecida, e personificada pelo Chefe (Ralph Richardson). Mas como habitual na história da humanidade, períodos de trevas alternam com outros de luzes, e estes chegam-nos em 2036, numa sociedade liderada por homens de ciência, onde o constante progresso é o principal guia.

“A Vida Futura” é um filme fortemente marcado pelo seu sentido estético. Os cenários, a luz, os figurinos são vários exemplos de marcas inesquecíveis. Tudo no filme surpreende, desde a tenebrosa Everytown (que bem podia ser Londres) de 1940 sob a ameaça de guerra (note-se como os cânticos de Natal nos chegam intercalados com notícias de jornais), passando pela árida Everytown, feita de escombros do pós-guerra, até à moderna Everytown futurista e tecnológica (com ecos da Metrópolis de Fritz Lang). Nesta última sociedade o debate já não é entre guerra e paz, nem uma luta de recursos. Discutem-se filosofias e objectivos. De um lado o progresso como guia da humanidade, que nos fará continuar a crescer e chegar sempre mais longe. Do outro a necessidade de estabilidade contra uma mudança constante que pode ser perigosa, levando à perda de valores e desenraizamento de costumes.

É essa luta ulterior que define a fase final do filme, definida pela tentativa de conquista da Lua (algo que Wells previu para muito mais tarde do que de facto veio a acontecer), mesmo que à custa de sacrifícios humanos. A questão final permanece: Onde poderá chegar o homem nessa sua viagem entre progresso e tradição, entre ambição e valores.

O argumento para “A Vida Futura” foi escrito pelo próprio H. G. Wells, e apresentado como as notas de um diplomada to século XXII. O escritor supervisionou todos os aspectos do filme, para que este se mantivesse fiel às suas ideias. No entanto o filme passou despercebido junto do público, que o recebeu como um exercício frio, cheio de ideias, mas sem envolvência emocional, o que se pode dever a um elenco não muito bem conseguido.

A versão do filme que estreou nos cinemas em 1936 tinha 108 minutos, mas ele foi depois disso reeditado várias vezes, existindo em diferentes durações.

Produção:

Título original: Things to Come; Produção: London Film Productions; País: Reino Unido; Ano: 1936; Duração: 92 minutos; Distribuição: United Artists Corporation (Reino Unido) United Artists (EUA); Estreia: 20 de Fevereiro de 1936 (Reino Unido), 17 de Abril de 1936 (EUA), 5 de Março de 1940 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: William Cameron Menzies; Produção: Alexander Korda; Argumento: H. G. Wells [a partir do seu próprio livro “The Shape of Things to Come”]; Fotografia: Georges Périnal [preto e branco]; Cenários: Vincent Korda; Efeitos Especiais: Ned Mann; Música: Arthur Bliss; Direcção Musical: Muir Mathieson; Figurinos: John Armstrong, René Hubert, Cathleen Mann [como The Marchioness of Queensberry]; Director de Produção: David B. Cunynghame; Montagem: Charles Crichton, Francis D. Lyon.

Elenco:

Raymond Massey (John Cabal / Oswald Cabal), Edward Chapman (Pippa Passworthy / Raymond Passworthy), Ralph Richardson (O Chefe), Margaretta Scott (Roxana / Rowena), Cedric Hardwicke (Theotocopulos), Maurice Braddell (Dr. Harding), Sophie Stewart (Mrs. Cabal), Derrick De Marney (Richard Gordon), Ann Todd (Mary Gordon), Pearl Argyle (Catherine Cabal), Kenneth Villiers (Maurice Passworthy), Ivan Brandt (Morden Mitani), Anne McLaren (A Criança), Patricia Hilliard (Janet Gordon), Charles Carson (Bisavô).