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RebeccaEm 1940 viu a luz do dia o primeiro filme americano de Alfred Hitchcock. Numa produção de David O. Selznick, Hitchcock adaptou pela segunda vez consecutiva um romance de Daphne Du Maurier. Tratou-se de um thriller psicológico, com um elenco maioritariamente britânico, onde se destacam Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson e George Sanders. O filme seria um enorme sucesso, valendo a Hitchcock o seu único Oscar para Melhor Filme.

Sinopse:

Numa estadia na Riviera francesa, como dama de companhia de uma senhora rica, uma jovem orfã (Joan Fontaine) conhece o milionário Maxim de Winter (Laurence Olivier), por quem se apaixona. Para sua surpresa, a jovem vê o Sr. de Winter pedi-la em casamento. Regressados à mansão deste, a esposa sente ainda a muito forte presença da defunta anterior Sra. de Winter, Rebecca, cuja aura de elegância e sofisticação está presente na memória de todos, e cuja rotina, gostos e hábitos parecem dominar o dia a dia da mansão, sobretudo graças à acção da sinistra governanta Sra. Danvers (Judith Anderson). Atormentada entre a necessidade de se sentir à altura de Rebecca, e o medo de que o seu marido ainda ame a primeira mulher, a nova Sra. de Winter terá ainda várias lutas a travar e terríveis mistérios a escobrir, para finalmente conquistar o seu espaço.

Análise:

Em 1940 Alfred Hitchcock realizava o seu primeiro filme nos Estados Unidos, nos estúdios de David O. Selznick. O resultado não podia ser mais triunfal com “Rebecca” a ser um enorme sucesso de crítica e bilheteira, e a receber o Oscar de Melhor filme desse ano.

À partida contratado para realizar um filme sobre o Titanic, Hitchcock viu os planos mudarem quando O. Selznick comprou os direitos de “Rebecca”, e colocou o realizador, pela segunda vez consecutiva, a dirigir um filme adaptado de uma obra de Daphne Du Maurier. Tal como em “A Pousada da Jamaica” (Jamaica Inn, 1939) Hitchcock tinha um romance de contornos góticos e algum mistério, a que desta vez soube dar toda a atmosfera que lhe faltou no filme de 1939.

Para o elenco, Hitchcock trouxe um elenco maioritariamente britânico. Lado a lado estavam o célebre Laurence Olivier e a ainda muito jovem Joan Fontaine, secundados por mais um britânico, George Sanders, e a australiana Judith Anderson. Hitchcock procurava algo diferente de um típico elenco de Hollywood, rodando o que seria um quase um filme inglês, e onde participava ainda a sua argumentista Joan Harrison.

“Rebecca” é um filme rodeado de um fascínio daqueles que transcendem explicações, e nos mostram a verdadeira magia do cinema. A história é simples. e muitas vezes imitada em maior ou menor grau, resumindo-se assim: uma jovem, inocente e inexperiente mulher (Joan Fontaine), vê-se a casar com um sofisticado e taciturno milionário inglês, Max de Winter (Laurence Olivier), a braços com uma viuvez traumática devido à morte por acidente da sua primeira mulher, a nominal Rebecca. Quando o casal vai viver para a mansão dos de Winter, Manderley, a jovem esposa (cujo nome nunca nos é revelado) percebe que a anterior Sra. de Winter continua bem presente, quer nas memórias de todos, quer nos hábitos que regem a casa, impostos quase ditatorialmente pela sinistra e aterrorizadora governanta, Sra. Danvers (Judith Anderson), a qual continua a idolatrar Rebecca.

Insegura, a nova Sra. de Winter tem dificuldade em ver-se no seu novo papel, quase se julgando uma usurpadora, tal a veneração com que toda a gente ainda fala de Rebecca. A forma como esconde os cacos de uma porcelana partida por si, ou como responde ao telefone dizendo que a Sra. de Winter já morreu, são sintomáticas dessa inadequação. No limite julga que o próprio marido continua apaixonado pela mulher morta. Só que em pouco depois descobrirá um segredo tenebroso sobre a verdadeira morte e personalidade de Rebecca, que lança nova luz sobre a posição de Max de Winter, e a fará crescer à pressa para defender aquele que ela ama.

“Rebecca” é acima de tudo um drama gótico, com muitos dos padrões do género. À cabeça o peso do passado, e o papel propenderante do lugar físico (a mansão), como personagem, e filmada com elegância, com a habitual mestria de Hitchcock para desenhar os seus planos por entre luz e sombras. Note-se o número de vezes que o nome Manderley é citado (mais do que o de qualquer dos personagens, Rebecca incluída). A sempre envolta em nevoeiro Manderley é sinónimo de mistério, de uma aura de trevas que pesa sobre a alma de Max de Winter, e da omnipresença de uma morta. Esta presença (por vezes sugerida como um fantasma), expressa-se tanto pelas memórias de todos, como pela atitude da governanta, que é o último alcance tangível de alguém que não vemos durante todo o filme, mas que sentimos claramente. Manderley é ainda uma mansão de qualidades quase oníricas e irreais, afastada do mundo. De notar como o filme começa em off com um enigmático “Na noite passada sonhei que estava de volta a Manderley”.

“Rebecca” é ainda um desenrolar de preversões (mais ou menos explícitas), desde o culto de uma morta, que indicia uma certa necrofilia, até ao seu sugerido comportamento sexual, indiciado nas descrições de Max de Winter, que fazem de Rebecca uma mulher altamente promíscua e condenável. Também a estranha obsessão da Sra. Danvers por Rebecca, parece insinuar um não explicitado amor homossexual. Preversão extrema, do ponto de vista do argumento, é a culpabilidade de Max de Winter. Responsável pela morte de Rebecca, carrega consigo uma culpa que o atormenta permanentemente, mas da qual precisa de se livrar no momento em que é aberta nova investigação. Pode o culpado ser ilibado aos nossos olhos? Embora ele nos conte que a morte foi acidental, sabemos que a desejou. Faz isso dele mais ou menos culpado?

Pode ainda acrescentar-se a preversão bem hitchcockiana presente nas tantas diferenças entre a primeira e segunda Sra. de Winter (a primeira elegante, sofisticada, inteligente, segura, cruel, manipuladora; a segunda doce, ingénua, inexperiente, insegura) esbatidas no momento em que, sem o saber, a personagem de Joan Fontaine veste a pele de Rebecca, para, por um momento, surgir como ela aos olhos de todos, como se ambas as mulheres fossem duas faces muito semelhantes da mesma moeda (note-se mais uma vez o quanto a governanta tentava vesti-la com as roupas de Rebecca, num quase fetichismo, que levou mesmo à exibição da lingerie da morta).

É por fim o revelar desse lado negro de uma pessoa que, tal como a personagem de Joan Fontaine, nós inicialmente julgáramos perfeita, que vai fazer a nova Sra. de Winter crescer e segurar o marido quando este se deixava abater sob o peso da desgraça, dos seus erros e memórias. Como que uma justiça divina, desmorona o plano de Rebecca para que a sua própria morte servisse para culpabilizar o marido. Uma nova verdade (a sua saúde precária) servirá então de motivo para um inexistente suicídio, que vem ilibar o esposo culpado.

Apesar do sucesso de “Rebecca”, Hitchcock não o considerou um filme “seu”, criticando-lhe a falta de humor e de suspense. Sombrio perturbador, e um dos filmes mais oníricos do realizador, é um dos dramas psicológicos mais citados do cinema. Faltou apenas a Hitchcock o Oscar de Melhor Realizador, nesse ano entregue a John Ford por “As Vinhas da Ira” (The Grapes of Wrath, 1940). O filme teve um total de 11 nomeações vencendo ainda o Oscar de Melhor Fotografia.

Produção:

Título original: Rebecca; Produção: Selznick International Pictures; País: EUA; Ano: 1940; Duração: 125 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 27 de Março de 1940 (EUA), 7 de Janeiro de 1941 (Cinema S. Luiz, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: David O. Selznick; Argumento: Robert E. Sherwood, Joan Harrison [adaptado por Philip MacDonald, Michael Hogan as partir do livro homónimo de Daphne Du Maurier]; Fotografia: George Barnes [preto e branco]; Música: Frank Waxman; Direcção Artística: Lyle R. Wheeler; Design de Interiores: Joseph B. Platt, Howard Bristol; Efeitos Especiais: Jack Cosgrove; Montagem: Hal G. Kern; Caracterização: Monte Westmore [não creditado].

Elenco:

Laurence Olivier (‘Maxim’ de Winter), Joan Fontaine (Mrs. de Winter), George Sanders (Jack Favell), Judith Anderson (Mrs. Danvers), Gladys Cooper (Beatrice Lacy), Nigel Bruce (Major Giles Lacy), Reginald Denny (Frank Crawley), C. Aubrey Smith (Coronel Julyan), Melville Cooper (Médico Legista), Florence Bates (Mrs. Van Hopper), Leonard Carey (Ben), Leo G. Carroll (Dr. Baker), Edward Fielding (Frith), Lumsden Hare (Tabbs), Forrester Harvey (Chalcroft), Philip Winter (Robert).

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