Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

Antonio Vivaldi, un Prince à VeniseAntónio Vivaldi, hoje considerado o mais importante compositor do barroco italiano não teve a mesma apreciação no seu tempo. Padre ordenado que nunca terá dito uma missa, Vivaldi dirigia o Convento della Pietà, que recebia cujas órfãs e filhas ilegítimas para educar. Sob a orientação do compositor estas eram treinadas musicalmente, constituindo as suas orquestras de câmara. Tal nem sempre era bem visto pelos seus superiores, que viam nesta dedicação à música um desvio da verdadeira vocação de sacerdote. Nem sempre apreciado na sua cidade, Vivaldi era no entanto tido em alta consideração por franceses e austríacos.

Análise:

Em 2006 viu a luz do dia o filme “António Vivaldi, Um Príncipe em Veneza”, de Jean-Louis Guillermou. Guillermou, um realizador pouco conhecido e pouco profícuo, mostraria uma curiosa propensão para filmar ícones da música clássica, como já tinha feito em 2003 com “Il était une fois Jean-Sébastien Bach”, e voltaria a fazer em 2011 com “Celles qui aimaient Richard Wagner”. Produção francesa, com participação italiana, o filme, dedicado ao famoso compositor veneziano do século XVIII, foi apresentado mundialmente no festival de Montréal, no Canadá, mas só teria estreia comercial um ano depois.

Vivaldi é aqui interpretado por Stefano Dionisi, que já antes brilhara em “Farinelli” (Farinelli, il Castrato, 1994) de Gerard Corbiau. Sem a exuberância desse filme, Dionisi veste, no filme de Guillermou, a pele de um padre que não dava missas, e vivia unicamente para compor, e tocar as suas peças com a orquestra de órfãs e bastardas do Convento della Pietà, que ele dirigia. Tal valia-lhe a desconfiança do seu bispo (interpretado por Michel Serrault), que facilmente se encolerizava contra as idas e vindas do “padre ruivo”, ao serviço da sua vocação musical.

O filme mostra-nos as iras do bispo, e constantes conspirações do Governador (Philippe de Vallerin) e do seu adjunto (Stefano Codiroli), na tentativa de desacreditar e boicotar Vivaldi. Este, porém, mercê da protecção das cortes de França, da Áustria e do Vaticano, pôde prosseguir os seus intentos, escapando à má-língua, e conseguindo levar as suas óperas a vários palcos, com a cumplicidade da sua diva, Anna Giro (Annette Schreiber). A relação de Vivaldi e Anna Giro ocupa, alías, boa parte do filme, com insinuações de que haveria alguma romantização entre os dois, algo nunca mostrado no filme, nem provado na realidade.

Com a belíssima música de Vivaldi, e a sinuosa cidade de Veneza como panos de fundo, o filme de Guillermou peca por um argumento repetitivo e sem chama, que mais não faz, que mostrar-nos as sucessivas (e aparentemente injustificadas) cóleras do bispo, e maquinações (um pouco infantis e desajustadas) do Governador. O filme transforma-se numa série de episódios pouco consequentes, onde os vários enredos não levam a parte nenhuma. Estes são depois abruptamente interrompidos com um dos personagens (sempre alguém diferente), a passar ao papel de narrador, e fazendo a história avançar meses ou anos.

Nem mesmo aquilo que o fime teria como trunfo inegável, a música de Vivaldi, é bem usado. Guillermou faz com que haja sempre música a tocar (diegética ou não), com um saltar frenético e injustificado entre temas, que por vezes se ouvem por apenas breves segundos. O filme ganha força nos raros momentos em que respira o suficente para nos dar a ouvir um andamento completo, e assim nos fazer perceber o porquê da grandiosidade daquele compositor, capaz de gerar tanta admiração e inveja.

Nem mesmo o cenário natural é aproveitado, com a maioria do filme rodado em interiores sem personalidade. Sem o fulgor de filmes como o já citado “Farinelli”, a naturalidade do também francês “Todas as Manhãs do Mundo” (Tous les Matins du Monde, 1991) de Alain Corneau, ou a subtileza e leveza de “Crónica de Ana Madalena Bach” (Chronik der Anna Magdalena Bach, 1968), com o qual se tenta parecer superficialmente devido às sucessivas narrações, “António Vivaldi, Um Príncipe em Veneza” interessa sobretudo aos fãs do compositor de “As Quatro Estações”, que verão uma interpretação honesta de Stefano Dionisi, mas lapidada por um argumento desinspirado, interpretações exageradas e diálogos que chegam a roçar o ridículo.

Produção:

Título original: Antonio Vivaldi, un prince à Venise; Produção: Vivaldi Productions / Ila Palma / Groupe Méditerranéenne de Participations / EVA Finance / Mad Films-Mi; Produtor Executivo: Eliane Lacroux, Caroline Van-Viet, Michel Vandewalle; País: França; Ano: 2006; Duração: 95 minutos; Distribuição: CQFD (França); Estreia: 26 de Agosto de 2006 (Montréal World Film Festival, Canadá), 29 de Agosto de 2007 (França).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Louis Guillermou; Produção: Philippe Aizpurua, Rean Mazzone; Argumento: Jean-Louis Guillermou; Fotografia: Antoine Marteau; Música: António Vivaldi; Montagem: Jean Mach; Direcção de Produção: Eliane Lacroux.

Elenco:

Stefano Dionisi (António Vivaldi), Michel Serrault (Bispo de Veneza), Annette Schreiber (Anna Giro), Michel Galabru (Papa Bento XIII), Christian Vadim (Goldoni), Bernard-Pierre Donnadieu (Embaixador de França), Delphine Depardieu (Zanetta Vivaldi), Stefano Codiroli (Adjunto do Governador), Maud Jurez (Cécilia), Diana Fertikh (Irmã de Anna Giro), Philippe de Vallerin (O Governador), Katia Tchenko (Madame Wahler), Mélissandre Meertens (Segunda Irmã de Vivaldi), Patric Barbier (Conselheiro Musical), Jean-Claude Lecas (O Pai de Vivaldi).

Anúncios