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Jamaica InnEm 1939, Alfred Hitchcock tinha já as malas feitas para partir para os Estados Unidos, quando realizou um último filme em solo inglês. Este foi “A Pousada da Jamaica”, a partir de um romance de Daphne Du Maurier, de quem Hitchcock adaptaria posteriormente “Rebecca” (Rebecca, 1940) e “Os Pássaros” (The Birds, 1963). A produção foi de Charles Laughton e do alemão Erich Pommer, o fundador da célebre UFA, responsável pelo apogeu do cinema expressionista, e que trabalhara com Hitchcock no seu primeiro filme “The Pleasure Garden” (1925). Nos principais papéis, ao lado do já citado Charles Laughton, estariam o repetente Leslie Banks, a quase estreante Maureen O’Hara e Robert Newton.

Sinopse:

Mary (Maureen O’Hara) viaja para a Cornualha, para viver com a sua tia, depois de ficar órfã. Só que à chegada o cocheiro recusa-se a deixá-la na pousada dos tios, por medo do que ali se passa. Mary é então entregue ao respeitável magistrado local, Sir Humphrey Pengallan (Charles Laughton), que a leva à temida Pousada da Jamaica. Nela Mary descobre que o tio Joss Merlyn (Leslie Banks) lidera um bando de rufias, que se especializa a atrair navios para a costa, para que naufraguem, e sejam pilhados. Cedo Mary decide salvar um dos homens do tio, Jem Trehearne (Robert Newton), acusado de traição, atraindo a fúria do bando. Para escapar, o par procura refúgio na casa de Sir Humphrey, que talvez não seja tão inocente quanto eles pensam.

Análise:

Ainda antes de rumar aos Estados Unidos, e já com contrato assinado com David O. Selznick, Alfred Hitchcock viu-se com tempo para realizar um último filme em Inglaterra. O resultado foi “A Pousada da Jamaica”, o primeiro de três filmes seus adaptados de romances de Daphne Du Maurier. A oportunidade deu-se pelas mãos de Charles Laughton, o célebre actor e realizador inglês, em parceria com o lendário produtor alemão Erich Pommer, seu parceiro na Mayflower Pictures, e figura máxima do cinema expressionista.

“A Pousada da Jamaica” é assim, antes de tudo, um veículo para Laughton, que primeiro decidiu mudar de personagem (inicialmente deveria interpretar o personagem Joss Merlyn, posteriormente atribuído a Leslie Banks), e de seguida, percebendo que o seu novo personagem, o magistrado Sir Humphrey Pengallan, tinha pouco tempo de ecrã, decidiu forçar uma maior presença. Por tal o argumento que fora começado por Sidney Gilliat foi de seguida modificado por Joan Harrison, a que se acrescentaram diálogos de J. B. Priestley.

Alfred Hitchcock não gostou do processo, e ficou particularmente irritado com as idiossincrasias de Laughton, que tinha modos peculiares de filmar os seus grandes planos, e insistia em caminhar pelo set ao som de uma valsa na sua cabeça, para dar carácter ao seu personagem. Mas foi essencialmente a preponderância do papel de Laughton e a sua presença em cena quase desde o início, que para Hitchcock descaracterizou o filme.

Este é a história de um covil de piratas da Cornualha, que ganha a vida a provocar naufrágios para pilhar os navios, e matar desapiedadamente as tripulações para que não haja testemunhas. É um bando brutal e cruel que se reúne na Pousada da Jamaica, sob as ordens de Joss Merlyn (Leslie Banks), e cujo segredo é posto em causa pela chegada de Mary (a lindíssima Maureen O’Hara aqui no início da carreira), sobrinha da esposa de Joss (Marie Ney). Mary testemunhará uma luta entre os homens de Joss que resulta na tentativa de enforcamento de um deles, Jem Trehearne (Robert Newton), que ela salva, tendo ambos que escapar à fúria dos piratas. Procuram então auxílio na casa do magistrado local, Sir Humphrey Pengallan (Charles Laughton), sem saberem que é ele o verdadeiro chefe do bando (no original é um padre, no filme mudado para se evitar a censura).

Hitchcock queria revelar a figura do magistrado só perto do final, mas perante a insistência de Laughton em surgir desde o início, Hitchcock preferiu mudar as regras, revelando logo no início ser ele o cabecilha dos piratas. Tal retira o interesse da história do whodunnit (Quem é que foi?), que Hitchcock tanto desprezava, e traz-nos o suspense de sabemos antes dos personagens principais (interpretados por Maureen O’Hara e Robert Newton) onde reside o verdadeiro perigo.

Ainda assim, “A Pousada da Jamaica” é um filme onde poucos dos temas de Hitchcock estão presentes, discutindo-se se é mais um filme de Laughton que de Hitchcock. O universo de Laughton não é alheio ao romantismo gótico, ao grotesco e à descrição do lado mais puramente cruel da alma humana, temas neste filme em destaque. Sob a direcção de Hitchcock, o conto gótico de Daphne Du Maurier torna-se um filme rápido, cheio de acção e momentos de clivagem, onde o negrume próprio da história está presente, mas sem a riqueza própria da escrita da autora. Por esse motivo o filme seria mal recebido pela crítica, que ainda hoje o considera um filme menor na obra de Hitchcock. Não obstante, seria mais um sucesso comercial.

Charles Laughton brilha num elenco onde os vilões têm os papéis mais destacados, e os heróis são relegados para papéis quase secundários. Tanto ele como Maureen O’Hara, que o próprio lançara, e com quem continuaria a filmar, seguiriam também para os Estados Unidos. Quanto a Alfred Hitchcock, usaria também um romance de Daphne Du Maurier como fonte do seu filme seguinte, já no continente americano: “Rebecca”.

Produção:

Título original: Jamaica Inn; Produção: Mayflower Pictures Corporation; País: Reino Unido; Ano: 1939; Duração: 94 minutos; Distribuição: Associated British Film Distributors (Reino Unido), Paramount Pictures (EUA); Estreia: 15 Maio de 1939 (Reino Unido), 11 de Outubro de 1939 (EUA), 7 de Janeiro 1941 (Cinema S. Luiz, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Erich Pommer, Charles Laughton [não creditado]; Argumento: Sidney Gilliat, Joan Harrison, Alma Reville [adaptado do livro homónimo de Daphne Du Maurier]; Diálogos Adicionais: J. B. Priestley; Fotografia: Harry Stradling Sr., Bernard Knowles, [preto e branco]; Cenários: Thomas N. Morahan; Figurinos: Molly McArthur; Música: Eric Fenby; Direcção Musical: Frederick Lewis; Montagem: Robert Hamer; Efeitos Especiais: Harry Watt; Caracterização: Ern Westmore; Director de Produção: Hugh Perceval.

Elenco:

Charles Laughton (Sir Humphrey Pengallan), Horace Hodges (O Seu Mordomo), Hay Petrie (O Seu criado), Frederick Piper (O Seu Solicitador), Herbert Lomas (Seu Inquilino), Clare Greet (Sua Inquilina), William Devlin (Seu Inquilino), Jeanne De Casalis (Sua Amiga), Mabel Terry-Lewis (Sua Amiga), A. Bromley Davenport (Seu Amigo), George Curzon (Seu Amigo), Basil Radford (Seu Amigo), Leslie Banks (Joss Merlyn), Marie Ney (Patience – Sua Esposa), Maureen O’Hara (Mary – Sua Sobrinha), Emlyn Williams (Harry the Pedlar – Bando de Joss), Wylie Watson (Salvation Watkins – Bando de Joss), Morland Graham (Sea Lawyer Sydney – Bando de Joss), Edwin Greenwood (Dandy – Bando de Joss), Mervyn Johns (Thomas – Bando de Joss), Stephen Haggard (O Rapaz – Bando de Joss), Robert Newton (Jem Trehearne – Bando de Joss).

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