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The Lady VanishesCom o fim da Gaumont British, Alfred Hitchcock realizaria mais dois filmes para outras produtoras em solo britânico. O primeiro, baseado num livro de Ethel Lina White, foi mais um thriller de espionagem, desta vez passado a bordo de um comboio. Com argumento de Sidney Gilliat e Frank Launder, Hitchcock reunia-se com o seu antigo director de fotografia, Jack E. Cox. No elenco constavam: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas e Dame May Whitty. Como curiosidade o facto do futuro realizador Roy Ward Baker ter sido assistente de Hitchcock neste filme.

Sinopse:

Num comboio que atravessa a Europa Central, deixando o pequeno país de Mandrika, Iris Henderson (Margaret Lockwood) regressa a casa para casar, quando trava amizade com a velha perceptora Miss Froy (May Whitty). Só que, pouco tempo depois, Miss Froy desaparece da sua carruagem, e estranhamente todas as pessoas que viram Iris e Miss Froy juntas, negam a existência da velha senhora. Quando o neurocirurgião Dr. Hartz (Paul Lukas) começa a sugerir que tudo não passa de uma alucinação de Iris, Gilbert (Michael Redgrave) um outro passageiro, interessa-se pelo caso, e descobre provas de que Miss Froy esteve de facto a bordo. A suspeita de uma conspiração generalizada vai colocar Iris e Gilbert em perigo de vida.

Análise:

Em 1938 a Gaumont-British, a produtora para a qual Alfred Hitchcock trabalhava desde 1934, deixara de existir. Mas foi de novo numa produção de Edward Black, agora para a Gainsborough Pictures, que Hitchcock filmaria aquele que seria o seu penútimo filme inglês. Fora da equipa estava agora o argumentista Charles Bennett, o qual fora seduzido pelo produtor americano David O. Selznick, o mesmo que um ano depois levaria Hitchcock a mudar de continente.

Com argumento de Sidney Gilliat e Frank Launder, Hitchcock adaptou o livro “The Wheel Spins” de Ethel Lina White, realizando aquele que será hoje, talvez, o seu mais conhecido filme inglês, e de certo modo um culminar daquilo que vinham sendo os seus mais recentes filmes.

A história é, como esperado, de espionagem. Mas à boa maneira do MacGuffin hitchcockiano, em nada nos importa o motivo da espionagem, o como ou o porquê. A história decorre do ponto de vista de personagens que nada têm a ver com essa espionagem, e são arrastadas para esse enredo por um episódio irrisório: o desaparecimento de uma velha senhora de uma carruagem de comboio, e o mistério que se gera por todos negarem a sua existência.

Como sempre, os protagonistas, Iris e Gilbert (Margaret Lockwood e Michael Redgrave), são um casal que inicialmente não se suporta, mas que se vai aproximar, com o desenrolar dos acontecimentos, como se estes dessem razão de ser ao nascer de uma relação. Não havendo aqui o tema hitchcockiano do falso culpado, de um modo explícito, ele está de certo modo implícito quando Iris começa a ser apontada como sofrendo de uma ilusão. Esse isolamento contra um mundo que não acredita nela é, no universo de Hitchcock, a razão principal do seu recorrente tema do falso culpado.

Passando-se quase todo num cenário único, um comboio em andamento, “Desaparecida!” joga com esse espaço exíguo, mas ainda assim labiríntico, dado ao engano do possível estado onírico de Iris (note-se as vezes em que ela perde os sentidos, para acordar para realidades que a surpreendem). Nele se desenrola um jogo absurdo, que é o de tentar convencer Iris (e a nós), de que a velha Miss Froy (Dame May Whitty) não existe. Toda a investigação que se segue tem apenas um intuito, provar que Iris não está a ser vítima de uma alucinação.

Com uma história de mistério, onde o revelar e esconder de informação nos faz avançar e recuar num jogo de gato e de tato, o filme destaca-se ainda pelo seu humor, feito de insinuações e duplos significados. Tal é particularmente evidente na sequência inicial no hotel, visível na indignação do par inglês (Naunton Wayne e Basil Radford) colocado no quarto de uma criada, na divergência do casal ilícito (Cecil Parker e Linden Travers) ou no primeiro encontro litigioso entre os dois protagonistas.

Hitchcock aproveita mesmo para levar a sátira mais longe que nunca, jogando com idiossincrasias nacionais, como as conversas fúteis os ingleses, a sua paixão por desportos, e a tal diplomacia que os leva a negar o inegável só para serem deixados em paz. A isto junta-se a hipocrisia do advogado que, vivendo uma relação ilícita com uma mulher casada, de repente percebe que isso lhe estraga as pretensões de vir a ser juiz, num pequeno eco da história de “Pobre Pete!” (The Manxman, 1929). O humor continua depois na relação entre Iris e Gilbert, o habitual par conflituoso de Hitchcock, como que saído de uma screwball comedy, em permanente litígio cómico.

Com todos os ingredientes de um thriller hitchcockiano “Desaparecida!” é uma história cativante, com humor, mistério e um enredo inteligente, que faz de cada momento um salto em frente no mistério e suspense. Tornou-se um sucesso imediato, que ajudaria a abrir as portas de Hollywood, que Hitchcock visitou logo de seguida para assinar contrato com David O. Zelznick. Teria ainda mais um filme no Reino Unido, antes de se mudar para os Estados Unidos.

Produção:

Título original: The Lady Vanishes; Produção: Gainsborough Pictures; País: Reino Unido; Ano: 1938; Duração: 91 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer Ltd. (Reino Unido), Gaumont British Picture Corporation of America (EUA); Estreia: Agosto de 1938 (Reino Unido), 1 de Novembro de 1938 (EUA), 1 de Junho de 1942 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Edward Black [não creditado]; Argumento: Sidney Gilliat, Frank Launder [adaptado do livro “The Wheel Spins” de Ethel Lina White]; Música: Charles Williams, Alma Reville [não creditado], Louis Levy [não creditado]; Fotografia: Jack E. Cox [preto e branco]; Montagem: R. E. Dearing; Cenários: Alex Vetchinsky; Direcção Musical: Louis Levy.

Elenco:

Margaret Lockwood (Iris Henderson), Michael Redgrave (Gilbert), Paul Lukas (Dr. Hartz), Dame May Whitty (Miss Froy), Cecil Parker (Mr. Todhunter), Linden Travers (‘Mrs.’ Todhunter), Naunton Wayne (Caldicott), Basil Radford (Charters), Mary Clare (Baronesa), Emile Boreo (Gerente do Hotel), Googie Withers (Blanche), Sally Stewart (Julie), Philip Leaver (Signor Doppo), Selma Vaz Dias (Signora Doppo), Catherine Lacey (A Freira), Josephine Wilson (Madame Kummer), Charles Oliver (Oficial), Kathleen Tremaine (Anna).