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Modern TimesSinopse:

O pequeno vagabundo (Charles Chaplin) é agora um operário na altamente industrializada Electro Steel Corp., cujo ritmo elevado e tarefas repetitivas e desumanas o deixam à beira do colapso nervoso. Ao ter alta do hospital onde é internado durante um tempo, encontra um mundo de desemprego, fábricas fechadas e protestos. Ser confundido com um líder sindical leva-o à prisão, de onde sai por bom comportamento. Ao mesmo tempo uma rapariga (Paulette Goddard) fica órfã e é obrigada a fugir às autoridades que a querem colocar no sistema de adopção. O encontro entre o vagabundo e a rapariga dá esperança a ambos que tentam ajudar-se a sobreviver de todas as formas possíveis, num mundo cada vez mais desumano.

Análise:

Numa época em que o cinema mudo tinha praticamente desaparecido, Charles Chaplin continuava a sua longa resistência com este “Tempos Modernos”. O seu filme de 1936 seria o seu último filme completamente mudo, se bem que se pode considerar também um filme hibrido. Sem conseguir parar totalmente o apelo do som, o filme, tem banda sonora própria, tal como acontecera com o seu anterior “Luzes da Cidade” (City Lights, 1931), que neste caso, para além dos efeitos sonoros (sirenes, apitos, tiros, buzinas, etc.) tem várias vozes faladas.

Em “Tempos Modernos” as vozes surgem sempre de modo indirecto, quer por intercomunicadores (na fábrica onde o personagem de Chaplin trabalha), gravações em fonogramas, ou através de transmissões de rádio, e nunca directamente dos personagens que vemos na tela. Elas estão mais presentes na sequência inicial, a da fábrica, que representa os malefícios da desumanização do progresso tecnológico, entre as quais talvez Chaplin pretenda incluir a própria sonorização do cinema.

Nesse sentido “Tempos Modernos” é o filme mais abertamente político que Chaplin fizera até então. Se a sua crítica social, ou olhar atento sobre convenções e costumes, fazia parte do personagem do seu vagabundo, neste filme a situação política passa a tema principal. Nele Chaplin questiona a corrida à tecnologia, as condições desumanas dos operários, a precariedade do emprego, a situação económica que leva ao fecho maciço de empresas (de lembrar que o filme estreou durante os anos da Grande Depressão americana), as greves e protestos, e consequente repressão das autoridades. Não é de estranhar que começassem então a surgir rumores sobre as simpatias comunistas de Chaplin (o seu personagem é no filme preso por ser confundido com líderes comunistas), as quais se tornariam um peso nos anos 1950, durante o Macartismo, culminando na sua partida dos EUA.

Sinal dessa mudança dos tempos é o próprio personagem do vagabundo. Aqui o personagem de Chaplin surge-nos como um operário como qualquer outro, parte do sistema, e não em rebeldia contra ele. O seu casaco, bengala e chapéu de coco estão mesmo ausentes durante toda a sequência inicial, deixando-nos a dúvida sobre se é o mesmo personagem. E quando Chaplin volta a envergar as suas vestes, mantém a necessidade de encontrar emprego e reintegrar-se no sistema (com alguma tentação pela vida fácil de prisioneiro).

Depois de uma brilhante sequência fabril, de onde resultam algumas das mais icónicas imagens da carreira de Chaplin, que é um misto de distopia e delírio (e onde se podem encontrar paralelos com a industrialização de “Metrópolis”, de Fritz Lang), o segundo tema do filme surge-nos pela mão da personagem de Paulette Goddard.

Também ela é uma rebelde, em fuga de uma sociedade que a vê apenas como uma jovem órfã que tem de ser entregue ao sistema, a rapariga torna-se objecto de salvação (ao mesmo tempo que salvadora) do vagabundo. Provavelmente poucas vezes Chaplin encontrou um personagem/actor à altura do seu vagabundo, sendo a excepção Jackie Coogan em “O Garoto de Charlot” (The Kid, 1921). Goddard é irreverente, criativa, carismática, e tudo aquilo que pode fazer o vagabundo sonhar que não está sozinho num mundo que agora lhe parece alienígena. Essa química passaria para o filme seguinte, “O Grande Ditador” (The Great Dictator, 1940), onde Chaplin e Goddard voltariam a contracenar.

O filme torna-se assim um misto de crítica social, comédia caótica, e história de esperança, onde cada imagem e sequência entraram para a memória do cinema, desde a cena inicial do aperto compulsivo de parafusos, até ao final do casal caminhando rumo ao infinito pelo meio da estrada. Pelo meio há muito a destacar: a máquina de almoço, os vários mal entendidos que levam Chaplin preso, a sequência de patins no centro comercial, as peripécias no restaurante, e claro a brilhante interpretação da canção “The Nonsense Song” (versão com palavras inventadas do clássico francês “Je cherche après Titine” de Léo Daniderff’s), que é oficialmente a primeira vez que ouvimos a voz de Chaplin no cinema. Destaque-se ainda uma cómica referência explícita ao consumo de drogas, numa estranha excepção na vigência do Código de Hays, em vigor desde 1930 até 1968, talvez por se tratar de um filme mudo.

Mais uma vez, Chaplin compôs a banda sonora, ditando-a para os arranjadores de orquestra. Menos consagrada que a de “Luzes da Cidade”, ela contém o tema romântico, que mais tarde teria uma letra e ficaria conhecido como “Smile”, interpretado por inúmeros cantores, de Nat King Cole e Dean Martin a Eric Clapton e Michael Jackson.

Aparentemente inspirado por uma conversa com Gandhi, “Tempos Modernos” tem algo de intemporal, tanto pela crítica social e política, como pela mensagem de esperança patente no final em aberto. Sem se definir ao certo a relação entre o vagabundo e a rapariga (ela menor, ele dormindo numa casota separada), os dois parecem ser o reservatório de energia e esperança um do outro, numa filosofia de vida que busca a irreverência e a pureza de sentimentos.

O filme foi um enorme sucesso internacional (ainda que banido na Alemanha e Itália), muito apreciado por pensadores do seu tempo, tendo influenciado artistas até aos nossos dias. O próprio título tem sido usado generosamente, podendo dizer-se que se trata talvez (quer pelos conceitos gerais, quer por imagens individuais) do mais icónico filme de sempre de Charles Chaplin. Seria também o seu último filme mudo, e por isso mesmo o marcar do fim de uma era.

Produção:

Título original: Modern Times; Produção: Charles Chaplin Productions; País: EUA; Ano: 1936; Duração: 83 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 5 de Fevereiro de 1936 (EUA), 2 de Março de 1937 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Charles Chaplin; Produção: Charles Chaplin [não creditado]; Argumento: Charles Chaplin; Música: Charles Chaplin; Arranjos de Orquestra: Edward Powell, David Rakson; Direcção de Orquestra: Alfred Newman; Fotografia: Roland Totheroh, Ira H. Morgan [preto e branco]; Cenários: Charles D. Hall, J. Russell Spencer; Montagem: Charles Chaplin [não creditado], Willard Nico [não creditado]; Caracterização: Elizabeth Arden [não creditada].

Elenco:

Charles Chaplin (Um Operário Fabril), Paulette Goddard (Uma Rapariga da Rua), Henry Bergman (Dono do Restaurante), Tiny Sandford (Big Bill), Chester Conklin (Mecânico), Hank Mann (Ladrão), Stanley Blystone (Pai da Rapariga), Al Ernest Garcia (Presidente da Electro Steel Corp.), Richard Alexander (Companheiro de Cela), Cecil Reynolds (Padre), Mira McKinney (Mulher do Padre), Murdock MacQuarrie (J. Widdecombe Billows), Wilfred Lucas (Oficial de Assuntos Juvenis), Edward LeSaint (Xerife Couler), Fred Malatesta (Chefe dos Empregados no Restaurante).

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