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Sabotage“À 1:45” foi o último filme de Alfred Hitchcock para Micael Balcon, já que este se mudaria em breve para os Estados Unidos para trabalhar para a MGM. Com um argumento dos habituais Charles Bennett e Alma Reville, Hitchcock trabalhou uma história de Joseph Conrad, baseada num crescendo de tensão gerado pelo rebentar anunciado de uma bomba. Nos principais papéis estiveram Sylvia Sidney, Oskar Homolka, Desmond Tester e John Loder.

Sinopse:

Karl Verloc (Oskar Homolka) regressa a casa, de onde dirige um pequeno cinema, depois de ter provocado uma sabotagem que deixou Londres sem luz por alguns minutos. Só que quem lhe paga para essa sabotagem, exige mais, um atentado que faça vítimas. Ao mesmo tempo, a sua esposa (Sylvia Sidney) é cortejada por Ted (John Loder), vendedor de fruta da loja vizinha, mas que é um detective disfarçado. Este tenta saber sobre as actividades de Verloc, o que faz com que Verloc tenha que confiar uma bomba ao pequeno irmão da sua esposa (Desmond Tester), sem que este saiba que o pacote que deve entregar irá rebentar à 1:45.

Análise:

Com “À 1:45” Alfred Hitchcock despedia-se de Michael Balcon, o produtor de alguns dos seus maiores sucessos em Inglaterra. Balcon, que apadrinhara a estreia na realização de Hitchcock na Gainsborough Pictures, fora também fundamental para o seu regresso à melhor forma, na Gaumont-British, quando a carreira do realizador parecia perdida em filmes menores.

Adaptando um livro do famoso escritor Joseph Conrad, Hitchcock desta vez deixava o lado aventureiro das histórias de espionagem, para se centrar unicamente na criação de suspense, a partir de um dado único: a anunciada explosão de uma bomba.

Como habitualmente, Hitchcock deixou de fora os detalhes das intrigas políticas, origem ou causa dos terroristas, mantendo a leve sugestão de que seriam estrangeiros (espectadores posteriores gostam de pensar que era uma alusão aos Nazis, mas nada indica isso). Ficava sim o acontecimento, isto é, a bomba, a necessidade de a fazer chegar a dado local, para que explodisse a dada hora. Este é o esqueleto que interessa a Hitchcock, desprovido de motivações elaboradas, ou panos de fundo complexos. Do mesmo modo, o mistério é eliminado logo na sequência inicial, uma daquelas sequências habituais em Hitchcock, em que se parte do pormenor para o geral, com constantes abeerturas de planos, e definição e tema (a sabotagem, mostrada num dicionário, e proferida nas primeiras linhas de diálogo).

Como perpetrador do crime temos Karl Verloc (Oskar Homolka), o proprietário de um pequeno cinema, que embarca em actos ilícitos um pouco contra-vontade. Não parece uma má pessoa, o que pode ser um dos primeiros equívocos do filme. Verloc é casado com uma jovem mulher (Sylvia Sidney), numa relação que tem mais de paternal que de conjugal. De facto ela a descrição desta de que ele é bom para o irmão dela, Stevie, (Desmond Tester), parece ser a mais alta expressão de afecto que dela consegue sair. Por esse motivo, quando Ted (John Loder) começa a cortejar a senhora Verloc (sabemos nós que por interesse policial, mas não o sabe ela), Karl Verloc é visto mais como um pai protector que como um marido potencialmente ciumento.

Dá-se aí outro dos equívocos emocionais do filme. É difícil simpatizar com o detective Ted, e mesmo com a esposa em vias de trair o marido. Verloc parece portanto uma vítima deste triângulo, digno da nossa compaixão.

Sobra a figura de Stevie, o jovem irmão da senhora Verloc, que para ela justifica o casamento. Irreverente, curioso, divertido, é fácil ser ele a gerar a maior simpatia por parte do público, e por isso mesmo a sua morte, vítima da citada bomba, foi fonte de enormes críticas a Hitchcock.

O próprio Hitchcock reconheceria que é um erro matar uma criança, não dando alívio ao suspense criado. Esse suspense é todo ele fruto de sabermos que à 1:45 uma bomba explodirá. Ele cresce com o cerco a Verloc, e culmina da viagem de Stevie pela cidade, onde tudo parece atrasá-lo e impedi-lo de entregar o pacote antes da hora fatal.

Morta a criança o culpado deve pagar, e mais uma vez, Hitchcock se vê em trabalhos. Tudo nos mostra a angústia da senhora Verloc, sabedora da culpa do marido (a cena à mesa é mais uma prova do brilho do Hitchcock e mostrar-nos sentimentos unicamente através de imagens). Mas para que não a vejamos como assassina, essa vingança surge de modo quase acidental. E para que não seja vítima das autoridades, uma nova explosão apagará todas as provas, culminando num final forçado.

Filmado novamente perto de uma estética expressionista, feita de muita sombra, o filme tem momentos altos na viagem de Stevie, e na decisão da senhora Verloc. Perde no entanto pelos equívos emocionais que cria, e por usar actores menos convincentes, como John Loder, num papel para o qual Hitchcock tentou o bem mais qualificado Robert Donat.

Produção:

Título original: Sabotage [Título nos EUA: The Woman Alone]; Produção: Gaumont British Picture Corporation; País: Reino Unido; Ano: 1936; Duração: 75 minutos; Distribuição: Gaumont British Distributors Ltd. (Reino Unido), Gaumont British Picture Corporation of America (EUA); Estreia: 2 de Dezembro de 1936 (Reino Unido), 1 de Janeiro de 1937 (EUA), 9 de Novembro de 1939 (Cinema Politeama, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Michael Balcon [não creditado]; Produtor Associado: Ivor Montagu [não creditado]; Argumento: Charles Bennett, Alma Reville [adaptado do livro “The Secret Agent” de Joseph Conrad]; Diálogos: Ian Hay, Helen Simpson, E. V. H. Emmett; Música: Hubert Bath [não creditado], Jack Beaver [não creditado], Louis Levy [não creditado]; Fotografia: Bernard Knowles [preto e branco]; Montagem: Charles Fend; Direcção Artística: Oscar Friedrich Werndorff, Albert Jullion [não creditado]; Figurinos: Joe Strassner; Direcção Musical: Louis Levy; Cenários: Albert Whitlock [não creditado].

Elenco:

Sylvia Sidney (Senhora Verloc), Oskar Homolka (Karl Verloc), Desmond Tester (Stevie), John Loder (Ted), Joyce Barbour (Renee), Matthew Boulton (Superintendente Talbot), S.J. Warmington (Hollingshead), William Dewhurst (O Professor).

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