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Le Roi DanseEm França, no reinado de Louis XIV (Benoît Magimel), o jovem rei mostra desde logo um enorme interesse pela dança, promovendo e protegendo o novo compositor da corte, o imigrante italiano Jean-Baptiste Lully (Boris Terral). Para o rei, a música é mais uma forma de mostrar ao mundo a superioridade do novo estado francês que ele personifica. Para Lully, a associação com o rei é a forma de deixar para trás a discriminação pela sua origem, e o veículo para tornar a sua música conhecida. Embora juntos num mesmo propósito, a agenda política do rei, a vida promíscua de Lully, a associação de ambos ao controverso Molière (Tchéky Karyo), e o choque de personalidades dos dois homens, vai gerar uma situação de tensão que pode ser tanto a ruína como o estímulo necessário à vida e carreira de Lully.

Análise:

Seis anos depois de “Farinelli” (Farinelli, il Castrato, 1994), Gérard Corbiau repetia a fórmula e filmava mais um nome sonante da música barroca do século XVII, desta vez o compositor de origem italiana Jean-Baptiste Lully (nascido em Florença como Gianbattista Lulli).

Mais uma vez com argumento seu, e de Andrée Corbiau (aqui coadjuvados por Ève de Castro e Didier Decoin), Gérard Corbiau voltou a compor uma história de rivalidades e conflitos de personalidades, tendo a música como principal motivo, em cenários opulentos, de uma produção elaboradamente faustosa. Quando a ideia é recriar a corte de Luis XIV, o resultado terá sempre de ser um festim visual, expresso na cor e forma dos palácios, arquitectura, figurinos, etc. Tudo isto Corbiau consegue, ainda com maior rigor que em “Farinelli”.

Mas, para além da música, a história de “O Rei Dança” é a da conflituosa relação entre Luis XIV (Benoît Magimel) e Lully (Boris Terral). Luís XIV, que ficou para a história como o Rei-Sol, é uma das mais importantes figuras do absolutismo europeu. Responsável pela restruturação do estado francês, entretanto saído de anos de guerras religiosas, o Rei-Sol (que um dia terá dito “O Estado sou eu”) pretendia criar uma nova França, poderosa económica e culturalmente, como um guia na Europa. Por isso a música e o teatro faziam parte das suas prioridades de restruturação, tanto como criar uma nova administração, e um palácio que fosse invejado em todo o mundo (Versalhes). Amante da dança, Luís XIV viu em Lully o veículo para concretizar algumas das suas ideias.

Jean-Baptiste Lully beneficiou do favor do rei para, aos 20 anos, ser já compositor da corte francesa. Renegando o seu passado de italiano, Lully compôs sobretudo para agradar a Luís XIV, dividindo-se por isso entre a música sacra e a música de dança, com a qual se afastava da tradição italiana. A sua relação com Luís XIV levou-o a ser continuamente nomeado para novos cargos, passando a gerir a música de câmara da corte, e mais tarde a tornar-se uma espécie de ministro da cultura francesa. Lully, hábil político, soube sempre usar os seus cargos em benefício próprio, tentando cortar a ascenção de outros compositores e promovendo as suas obras.

É da sua associação com o dramaturgo e actor Molière que nascem as célebres “comédie-ballet”, com as quais Luís XIV queria satirizar os costumes, e combater o poder da religião, expresso na influência da sua mãe, Anne da Áustria (Colette Emmanuelle), a rainha-regente na sua menoridade. Já sem Molière, Lully começou a explorar a nova ópera francesa (que ele queria diferente da italiana, que detestava), a que chamou “tragédie en musique”.

Tudo isto nos é mostrado no filme de Corbiau, com especial ênfase na vida dissoluta de Lully, que aos olhos de Molière (esse sim um revolucionário cultural), apenas pretendia agradar ao rei. Só que a agenda política de Luís XIV e o desgosto pela vida pessoal de Lully (no filme envolvido em orgias, homossexualidade, e até implicado em crimes sexuais) levaram-no a afastar-se do compositor, que no filme parece ver na adoração do rei o único propósito da sua carreira.

Com, uma realização um pouco menos académica que em “Farinelli”, Corbiau compõe um filme fortemente assente na música quase omnipresente de Lully (diegética ou não), e onde a recriação rigorosa de uma época não se sobrepõe às paixões e emoções que os personagens vivem de modo intenso e muitas vezes imprevisível. Muito do ambiente é no entanto fruto da música (da responsabilidade da Musica Antiqua Köln dirigida por Reinhard Goebel) e das sequências de dança e teatro, que nos transportam a uma época onde nada parecia demasiado pomposo.

Produção:

Título original: Le Roi Danse; Produção: K-Star / France 2 Cinéma / Canal+ / Procirep / MMC Independent / K-Dance / K2 SA / RTL-TVi / Filmstiftung Nordrhein-Westfalen / Centre du Cinéma et de l’Audiovisuel de la Communauté Française de Belgique / Eurimages; País: França / Alemanha / Bélgica; Ano: 2000; Duração: 109 minutos; Distribuição: UGC-Fox Distribution (UFD), Union Générale Cinématographique (UGC); Estreia: 6 de Dezembro de 2000 (França).

Equipa técnica:

Realização: Gérard Corbiau; Produção: Dominique Janne; Co-Produção: Helmut Breuer; Produtor Associado: Stéphane Moatti; Argumento: Ève de Castro, Andrée Corbiau, Gérard Corbiau, Didier Decoin [adaptado do livro “Lully ou le musicien du soleil” de Philippe Beaussant]; Direcção Musical: Reinhard Goebel; Música: Jean-Baptiste Lully, Jacques Cordier, Robert Cambert; Fotografia: Gérard Simon; Design de Produção: Hubert Pouille; Figurinos: Olivier Bériot; Caracterização: Anne Moralis; Coreografia: Béatrice Massin; Montagem: Ludo Troch, Philippe Ravoet; Direcção Artística: Ludo Volders, Stephan Rubens; Cenários: Philippe Cord’Homme.

Elenco:

Benoît Magimel (Louis XIV), Boris Terral (Jean-Baptiste Lully), Tchéky Karyo (Molière), Colette Emmanuelle (Anne da Áustria), Cécile Bois (Madeleine), Claire Keim (Julie), Johan Leysen (Cambert), Idwig Stéphane (Príncipe de Conti), Emil Tarding (Louis XIV – 14 Anos), Jacques François (Cambefort), Caroline Veyt (Armande Béjart), Ingrid Rouif (Mme de Montespan), Philippe Quercy (Mazuel), Pierre Gérald (Boesset), Claude Koener (Narrator do Ballet de la Nuit), Serge Feuillard (Mazarin), Michel Alexandre (Le Vau), Alain Eloy (Le Notre), Thomas Leruth (Secretário de Conti), Véronique Maille (Marie-Thérèse), René Morard (Médico do Rei), Pierre Devilder (Médico do Rei), Vincent Grass (Arcebispo de Paris), Stéphane Pelzer (Actor), Odile Matthieu (Dorine), Tony Jacquot (Médico da Rainha), Eric Hémon (Médico da Rainha), Guy Pion (Médico de Lully), Jacques Bryland (Médico de Lully), Claude Rogen (Camareiro).

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