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Secret AgentCom “O 4 Espiões” Alfred Hitchcock realizava a seu terceiro filme de espionagem consecutivo para Michael Balcon na Gaumont-British. Desta vez baseando-se num livro de Somerset Maugham, Hitchcock voltava a contar com a habitual colaboração de Charles Bennett, Alma Reville e Ian Hay no argumento. A história, como sempre, era um misto de thriller, aventura e comédia, contando no elenco com dois actores já conhecidos de Hitchcock, Madeleine Carroll e Peter Lorre. Com eles estava a futura lenda dos palcos britânicos, John Gielgud, e o actor americano Robert Young.

Sinopse:

Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, Brodie (John Gielgud), um célebre escritor a lutar na guerra, é anunciado como morto, para encobrir o seu recrutamento pelos serviços secretos. Estes enviam-no para a Suíça, com o nome de Richard Ashenden, onde deverá identificar um perigoso espião inimigo. Ao chegar à Suíça, Brodie conhece o seu estranho cúmplice, conhecido como O General (Peter Lorre), a sua falsa esposa Elsa (Madeleine Carroll), o pretendente desta, o bem disposto Robert Marvin (Robert Young), e o suspeito casal Caypor (Percy Marmont e Florence Kahn). Por entre dissimulações e subterfúgios, Brodie deve prosseguir a investigação e descobrir quem de facto é o espião procurado, mesmo que isso implique assassiná-lo a sangue frio.

Análise:

Já conhecido como um célebre realizador de thrillers de espionagem, Hitchcock não decepcionou o seu público, quando em 1936 estreou “Os 4 Espiões”, uma obra que seguia a linha dos anteriores “O Homem que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much, 1934) e “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935). Desta vez adaptando um livro de Somerset Maugham (de facto retirado de duas histórias diferentes: “The Traitor” e “The Hairless Mexican”, e com a história romântica inspirada na adaptação teatral de Campbell Dixon), o argumento é dos babituais colaboradores do realizador, Charles Bennett, Alma Reville e Ian Hay. Hitchcock voltava a construir uma história sinuosa de golpes e contra-golpes, onde o suspense tinha de novo o papel central.

Desta vez, ao contrário de nos filmes supracitados, não temos um herói inocente, já que o protagonista Brodie/Ashenden (John Gielgud) sabia para o que tinha sido recrutado. Ainda assim, é ambivalente quanto à sua tarefa, que termina com a sua demissão, o que dá bem conta da necessidade de Hitchcock lidar com protagonistas que se sentem fora do seu elemento. O elenco constrói-se, aliás, em torno de personagens que não são o que dizem ser. A começar pelo falso General (Peter Lorre) que apenas usa o título por vaidade, e continuando na falsa esposa de Ashenden (Madeleine Caroll), que finge ser espia, finge ser mulher de Ashenden, e finge não gostar da atenção Marvin (Roberty Young). Por fim, Marvin, que nunca sabemos o que é, ou quanto do que aparenta ser é falso, até ao clímax final.

Numa história de identidades trocadas (ou pelo menos suspeitas), não é tanto a investigação, mas sim as conclusões que ocupam o papel principal. Assim o par formado por Gielgud e Lorre, raramente está na pista certa, segue os acontecimentos sempre com atraso, decide-se por executar o falso suspeito, e só descobre o verdadeiro espião quando disso é avisado por Londres. Não é nunca a história em si que nos interessa (mais uma vez o MacGuffin de nunca sabermos do que se trata afinal), mas sim o modo como os acontecimentos moldam os personagens e nos ludibriam repetidas vezes.

Assim, o principal espião, Ashenden (Gielgud), é arrastado para a Suíça, mostra o seu amadorismo, e aos poucos convence-se de que aquela vida não é para si. A sua parceira Elsa (Carroll) confessa ter embarcado na aventura pela excitação, mas assim que esta ganha contornos trágicos, arrepende-se vivamente. Apenas o General (Lorre) se mantém inalterável, no seu papel de assassino, e por isso condenado a morrer no final (note-se aliás como Ashenden manteve as mãos limpas, à distância, quando o General executava o falso espião).

Todo o charme habitualmente associado aos filmes de espionagem (e que o próprio Hitchcock ajudaria a proopagar) está aqui ausente e posto em causa. O que temos em seu lugar são decisões difíceis, morais ambíguas, crimes desnecessários, e motivações que os personagens não crêem justificar os fins pretendidos. Tal torna o filme bastante mais negro que o esperado, embora adocicado com um final feliz, diferente daquele pretendido por Hitchcock inicialmente, mas não autorizado pela censura.

Embora com uma atmosfera que se vai tornando cada vez mais negra, o filme destaca-se ainda pelo uso do humor nos diálogos, e principalmente pelo personagem de Peter Lorre, aqui com rédea solta para brilhar, como um galã trapalhão, cujo modo de se levar a sério resulta em efeitos cómicos. No campo oposto brilha Robert Young (o primeiro vilão charmoso de Hitchcock), como o galã de pleno direito, de olhar arguto e frases sarcásticas. Junte-se a isto a frieza inglesa de Gielgud, e a sua relação ambígua com Carroll, e temos um filme de diálogos ricos e de uma acutilância exemplar.

Em pleno domínio da forma de filmar que o caracteriza, Hitchcock consegue mesclar a leveza da comicidade dos personagens, com o crescendo das situações de tensão, geradas pelo habitual modo como a informação se adianta ou atrasa em relação a nós. Estas situações são várias, e sempre bem conseguidas, como a descoberta do contacto na igreja, a execução de Caypor vista pelo telescópio de Ashenden, a perseguição no hotel, a descoberta do verdadeiro espião, e toda a sequência do comboio.

Hitchock considerou que, pelas dúvidas de Ashenden no desempenho da sua missão, o filme perdeu alguma força que queria que tivesse. O final ambíguo, e o modo como os acontecimentos principais acontecem por acidente ajudam a que este filme seja considerado um parente pobre dos dois que o precederam.

Produção:

Título original: Secret Agent; Produção: Gaumont British Picture Corporation; País: Reino Unido; Ano: 1936; Duração: 82 minutos; Distribuição: Gaumont British Distributors Ltd (Reino Unido), Gaumont British Picture Corporation of America (EUA); Estreia: Maio de 1936 (Reino Unido), 12 de Junho de 1936 (EUA), 7 de Janeiro de 1937 (Cinema Politeama, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Michael Balcon [não creditado]; Produtor Associado: Ivor Montagu [não creditado]; Argumento: Charles Bennett, Alma Reville [adaptado do livro “Ashenden” de W. Somerset Maugham e da peça de Campbell Dixon]; Diálogos: Ian Hay, Jesse Lasky Jr.; Música: John Greenwood [não creditado]; Fotografia: Bernard Knowles [preto e branco]; Direcção Artística: Oscar Friedrich Werndorff; Montagem: Charles Frend; Figurinos: Joe Strassner; Direcção Musical: Louis Levy; Cenários: Albert Jullion [não creditado].

Elenco:

John Gielgud (Richard Ashenden / Edgar Brodie), Peter Lorre (O General), Madeleine Carroll (Elsa Carrington), Robert Young (Robert Marvin), Percy Marmont (Caypor), Florence Kahn (Mrs. Caypor), Charles Carson (‘R’), Lilli Palmer (Lilli).