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The Man Who Knew Too Much1934 foi o ano em que Alfred Hitchcock voltou a trabalhar para Michael Balcon, o director da Gaumont British Picture Corporation, companhia que o lançara na realização quase uma década antes. Era também o regresso à espionagem e ao suspense, que tornariam a carreira de Hitchcock inconfundível. Com uma história, desta vez escrita para o próprio filme, Leslie Banks, Edna Best, Peter Lorre e Frank Vosper foram os protagonistas. Este foi também o primeiro filme de língua inglesa de Lorre.

Sinopse:

Numa estância de esqui na Suiça o casal Lawrence (Leslie Banks e Edna Best) assiste ao assassínio do seu amigo Louis Bernard (Pierre Fresnay), que antes de morrer diz a Bob Lawrence onde encontrar uma importante informação que deve entregar aos serviços secretos. Só que antes que o possa fazer, Bob Lawrence descobre que a filha Betty (Nova Pilbeam) foi raptada, para que o casal não fale. Já em Londres, com os serviços secretos a tentar obter de Lawrence as informações que este detém, Bob ouve que a sua filha possa estar em Wanning. Decide então investigar por conta própria, e frustrar os planos dos criminosos liderados por Abbott (Peter Lorre), cujo objectivo é o assassinato de um diplomata estrangeiro em pleno Royal Albert Hall.

Análise:

“O Homem que Sabia Demais” é o filme que assinala o regresso de Alfred Hitchcock às produções de Michael Balcon, o homem que nele acreditara e que lhe dera os seus primeiros trabalhos de realização, no início dos anos 1920. É acima de tudo o filme que marca o regresso do realizador ao estilo que o tornaria uma referência incontornável no cinema mundial, após uma série de filmes, ditos menores, que faziam crer que o génio de hitchcock se havia já apagado.

A partir de uma história de Charles Bennett (que já trabalhara com Hitchcock em Chantagem, de 1929) e D.B. Wyndham-Lewis (que ao que consta contribuiu com muito pouco), Hitchcock compõe um filme onde a ênfase principal está no suspense. Esse mesmo suspense de que Hitchcock se tornou mestre, e que já marcara alguns dos seus filmes anteriores.

A partir de uma história de espionagem, em que um espião morto deixa com um casal inocente uma informação vital, constrói-se um enredo que lida com a possibilidade de um crime, calado por um rapto. Leslie Banks e Edna Best interpretam o casal Bob e Jill Lawrence, que ao verem a sua filha Betty (Nova Pilbeam) raptada, ficam à mercê da vontade dos sequestradores. Mas tal não impede que Bob, à revelia da polícia, não tente, ele mesmo, descobrir o paradeiro da sua filha. Só que ao fazê-lo, vai em simultâneo descobrir os intentos dos criminosos (liderados pelo personagem de Peter Lorre), mas ficar deles prisioneiro, sabendo que o seu fim será a morte.

Estabelece-se então um jogo de circunstâncias e oportunidades, em que Bob Lawrence tenta desmascarar os criminosos, revelando o seu plano, ao mesmo tempo que precisa de salvar a filha. Todo este crescendo em que o filme se torna, culmina na cena do atentado, durante um concerto no Royal Albert Hall (repetindo-se a propensão de Hitchcock de marcar os seus finais apoteóticos com cenários inesquecíveis).

“O Homem que Sabia Demais” é, por tudo isto, quase que um ponto de partida para tudo o que Hitchcock fará a seguir. Seja na construção dos enredos, no acumular da tensão, por vezes brincando com coincidências de modo a ludibriar o público, mas sempre com a simplicidade suficiente para o saber envolver emocionalmente. De novo se destaca o recurso aos grandes cenários, o papel da música como catalizador de algo, a figura do herói solitário e inusitado, arrastado para uma história que não é sua, e aquele humor tão característico que chega a ser negro e cruel.

Mas acima de tudo, o que mais caracteriza a construção hitchcockiana é o modo de distribuir a informação que envolve o espectador, ora dando-lhe a conhecer o que precisa para criar o suspense, ora negando-lhe, para criar surpresa. Exemplo é a preparação do tiro no Royal Albert Hall. Sabemos tudo o que irá acontecer (e repare-se no adiar por entre repetidos close-ups dos címbalos), apenas não sabemos se aconteceu, quando apenas ouvimos um grito através da rádio.

Na memória ficam ainda o humor das mensagens cantadas em pleno culto religioso, a sequência na cadeira do dentista, e as quedas que iniciam (Louis em St. Moritz) e terminam (Ramon em Londres) a história. Note-se o fechar do círculo num culminar imprevisto da aposta entre Jill e Ramon de que para a próxima ela não falharia. Pois se foi pela filha que falhou o primeiro tiro, será pela filha que acertará o segundo.

De novo com rédea solta para se recriar, Hitchcock exigiu trabalhar com Peter Lorre (Lorre não falava inglês, e aprendeu as suas linhas foneticamente), um actor que cujo humor admirava, e que recentemente vira em “Matou” (M, 1931) de Fritz Lang, o mestre do expressionismo, que Hitchcock tantas vezes citava. Filmando em cenários negros e opressivos, Hitchcock mantém sempre as escadas, as grades, as janelas, as sombras como protagonistas. De notar é a sequência do cerco final, que não pode deixar de nos lembrar o final de “Dr. Mabuse” (Dr. Mabuse, der Spieler, 1922) do mesmo Lang. Esse cerco terá sido inspirado pela história real de 1911, conhecida como The Sidney Street Siege, e onde Churchill interveio como chefe da polícia.

O filme foi um sucesso em Inglaterra, e mesmo nos Estados Unidos, que assim passavam a ter debaixo de olho este realizador. A importância de “O Homem que Sabia Demais” para Hitchcock foi tal, que o próprio realizador faria o seu remake em 1956, então com James Stewart e Doris Day nos principais papéis.

A música tocada na sequência do Royal Albert Hall foi a cantata “Storm Clouds Cantata”, encomendada propositadamente ao compositor Arthur Benjamin, e usada também no remake de 1956.

Produção:

Título original: The Man Who Knew Too Much; Produção: Gaumont British Picture Corporation; País: Reino Unido; Ano: 1934; Duração: 72 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD) (Reino Unido, Gaumont British Picture Corporation of America (EUA); Estreia: Dezembro de 1934 (Reino Unido), 22 de Março de 1935 (EUA), 27 de Janeiro de 1936 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Michael Balcon [não creditado]; Produtor Associado: Ivor Montagu; História: Charles Bennett, D.B. Wyndham-Lewis; Argumento: Edwin Greenwood, A.R. Rawlinson; Diálogos Adicionais: Emlyn Williams; Música: Arthur Benjamin; Direcção Musical: Louis Levy; Fotografia: Curt Courant [preto e branco]; Direcção Artística: Alfred Junge; Montagem: Hugh Stewart; Cenários: Peter Proud [não creditado].

Elenco:

Leslie Banks (Bob Lawrence), Edna Best (Jill Lawrence), Peter Lorre (Abbott), Frank Vosper (Ramon Levine), Hugh Wakefield (Clive), Nova Pilbeam (Betty Lawrence), Pierre Fresnay (Louis Bernard), Cicely Oates (Agnes), D.A. Clarke-Smith (Inspector Binstead), George Curzon (Gibson), Henry Oscar (George Barbor).

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